A Assembleia-Geral da ONU deveria ser o palco maior da diplomacia, um espaço onde os líderes mundiais apresentam visões de futuro e procuram consensos. Em vez disso, a 80.ª sessão ficará para a história como o retrato de uma organização em crise: discursos inflamados, gestos de protesto e um vazio cada vez mais difícil de disfarçar.
Donald Trump não foi a Nova Iorque para dialogar. Foi para discursar — e fê-lo durante 57 minutos, um recorde pouco diplomático para um púlpito onde se pede contenção. Em vez de apelos à cooperação, entregou um ataque cerrado: negou as alterações climáticas, classificando-as como “o maior golpe da história”, acusou a Europa de suicídio energético e reduziu a ONU a um palco de “palavras ocas e ações inexistentes”.
Entre metáforas caricatas, de escadas rolantes avariadas a telepontos falhados, e afirmações rapidamente desmontadas por verificações de factos, Trump alcançou aquilo que pretendia: headlines globais e a centralidade num evento onde o multilateralismo devia prevalecer sobre o ego individual.
Se Trump monopolizou o palco, Benjamin Netanyahu foi confrontado com o vazio. Literalmente. Durante o seu discurso, dezenas de delegações abandonaram a sala em protesto, deixando uma imagem poderosa: a do isolamento.
O primeiro-ministro israelita falou para as câmaras, não para os diplomatas que ali deviam estar. Endereçou mensagens ao público interno e aos prisioneiros em Gaza, mas dentro da sala o gesto de rejeição foi mais eloquente do que qualquer palavra. Uma ONU de costas voltadas é um símbolo tão claro quanto preocupante.
Estes dois episódios — o monólogo de Trump e o walkout a Netanyahu — mostram uma ONU cada vez mais fragmentada. O palco da cooperação cede lugar ao teatro da confrontação. A instituição que nasceu para unir parece hoje incapaz de gerir consensos, prisioneira de agendas nacionais e da lógica do espetáculo.
O risco maior não está nos discursos inflamados nem nas saídas teatrais. Está no vazio que sobra depois: uma organização que deveria liderar respostas globais, das alterações climáticas aos conflitos armados, mas que parece cada vez mais paralisada.
Se não se reencontrar com o seu propósito, a ONU arrisca-se a ser lembrada não como casa do diálogo, mas como palco do ruído