O oposto do idealismo não é o pragmatismo, mas a ideologia.

O idealismo é o desejo de um bem maior, é um objectivo superior, a busca de algo que nos preencha. O ideal nasce, antes de mais, do confronto entre o desejo do nosso coração e a realidade. A tensão pelo ideal, se vivida seriamente, é profundamente realista, porque procura viver de acordo com o ideal no dia-a-dia. Por isso o idealismo, para não ser mera utopia, precisa de alguma dose de pragmatismo.

A ideologia, pelo contrário, não nasce da realidade, mas da teoria. A ideologia é a tentativa de explicar a realidade através da teoria. Para o ideológico, a sua teoria explica toda a realidade, e se a realidade não corresponde, então o problema é a realidade.

O século XX foi marcado pelas ideologias, de maneira mais brutal, pelo fascismo e pelo comunismo. Para o comunismo, intelectualmente mais sólido que o fascismo, a chave explicativa da realidade era a luta de classes e o objectivo a igualdade plena. E para impor esta ideologia, os regimes comunistas não se pouparam às maiores atrocidades, segundo o princípio de que, sendo o comunismo científico, se a aplicação da teoria estava a falhar, era porque estava a ser sabotada. O Holodomor ou a Revolução Cultural são apenas dois dos exemplos mais claros de como a ideologia pode ser violenta.

Não deixa de ser interessante que o fascismo nasça com a desilusão do socialista Mussolini, quando no fim da Primeira Guerra Mundial constatou, com espanto, que os operários de todo o mundo preferiam matar-se em nome da sua pátria, do que unir-se pela revolução. Infelizmente este rasgo de realismo levou-o apenas a uma nova ideologia, com os resultados que são conhecidos.

A redução ideológica do cristianismo

O Cristianismo é, pela sua natureza, idealista. A Fé nasce do encontro com Cristo, Ele que é o ideal de justiça, beleza, felicidade. E a Fé é a contínua procura de alcançar Jesus.

Mas também é possível reduzir o cristianismo a uma ideologia, reduzi-lo a um conjunto de valores que é preciso aplicar. Substituir a relação com Cristo por um código ético.

A ideologia cristã torna as consequências do encontro com Cristo – a defesa da vida por nascer, da família, a contestação às teorias de género – na sua causa, tornando a Fé em algo secundário. Não uma fé cristã, mas uma ética cristã, desligada da sua fonte. A consequência é igualmente desastrosa, como o século passado demonstrou.

Pensemos por exemplo como, na urgência de derrotar os rojos, tantos católicos acabaram por apoiar actos igualmente violentos e totalitários da parte de Franco. Ou como na luta, justa, pelos mais desprotegidos, surgiu na América Latina a Teologia da Libertação, que em nome da opção preferencial pelos pobres, apoiou ditadores e terroristas.

Na última década parecia que a presença pública do cristianismo tinha ficado circunscrita à assistência social e à cultura. Mas o surgimento dos movimentos populistas, na esteira das igrejas evangélicas nos Estados Unidos e no Brasil, e à natural revolta contra a ditadura woke, viu surgir um grande número de políticos que fala abertamente da defesa dos valores cristãos.

Contudo, esta nova ideologia cristã, que fala em defesa da vida por nascer, na defesa da família, denuncia o crescimento do extremismo islâmico, é a mesma que ignora o drama dos migrantes, ataca os mais pobres como subsidiodependentes, e, acima de tudo, cultiva uma cultura de ódio a quem deles discorda. Ou seja, para defender uma suposta civilização cristã, negamos boa parte do próprio cristianismo.

Na resposta a este fenómeno, temos também assistido a um novo discurso, que contra o populismo, evoca parte da Doutrina Social da Igreja, e do Pontificado do Papa Francisco, para atacar a posição do populismo sobre os imigrantes e as minorias, enquanto não vê qualquer problema em defender o contrário da Igreja numa enorme quantidade de questões, desde o aborto à propriedade privada.

Embora ambos digam agir em nome do cristianismo, a verdade é que aquilo que apresentam é um cristianismo à sua imagem e semelhança, reduzido a uma ideologia política, que exclui Cristo.

Católicos empenhados na política, não políticos católicos

Os católicos parecem assim muitas vezes encurralados entre políticos que usam o cristianismo como bandeira política. Um cristianismo amputado da sua fonte, que é Cristo, sujeito a uma ideologia política, que o usa quando lhe é conveniente, o ignora quando lhe é indiferente, e o ataca quando lhe é inconveniente. Por isso não tenho qualquer problema em afirmar que não precisamos de políticos católicos, ou seja, políticos para quem o cristianismo é apenas mais uma ideologia, como o marxismo ou o liberalismo.

Aquilo de que precisamos é de católicos que, vivendo o ideal Cristão, se empenham na vida política. Não tenho dúvida que os valores cristãos, que nascem do seguimento de Jesus, são essenciais para a sociedade. E que defendê-los publicamente é cada vez mais urgente. Mas estes valores não são um fim em si mesmo, mas a consequência da Fé.

Como dizia ao início, o idealismo é profundamente realista. E os cristãos, embora esperem o mundo que há-de vir, vivem neste mundo. E é neste mundo que somos chamados a dar testemunho público de Cristo, também na política. E isso não acontece através de uma ideologia, que reduz a Fé à nossa estatura, mas da procura de Cristo, ideal do cristão, em todas as circunstâncias, incluindo a política. Não precisamos de ideólogos utópicos, precisamos de idealistas realistas.