«Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas…»
Olhando para o que foram as últimas semanas políticas em Portugal, lembrei-me desta passagem d’Os Maias. Não deixa de ser impressionante como, apesar da distância temporal, pouco parece ter mudado no país desde o tempo de Eça de Queirós. É verdade que a moda já não chega em paquetes, mas pela internet. E que boa parte dela não paga direitos alfandegários, mas o espírito permanece o mesmo.
Tudo começou em Espanha, com o famoso caso Mari Carmen. Logo em Portugal se tentou imitar o que se ia fazendo em Espanha. Claro que o resultado foi uma imitação barata do modelo espanhol (até o nome ficou), uma espécie de acampada da Temu.
E provavelmente não teria passado disso se a PSP não tivesse decidido intervir. Como o ambiente estava calmo, vamos tentar torná-lo tenso, como no resto da Europa, e vá de fazer uma carga. Não ponho em causa a legalidade ou legitimidade da actuação da polícia, isso caberá aos tribunais, mas não duvido da sua inconveniência. Se os tivessem deixado ficar sossegados, apesar do mau cheiro e do barulho, já teriam desmobilizado. A intervenção da polícia transformou-os em mártires!
Mas é tudo bastante ridículo. A necessidade de imitar todas as causas importadas para ser verdadeiramente progressista, o constante histerismo com o capitalismo que consomem em doses maciças para planear a revolução, as tiradas contra a democracia burguesa opressiva, enquanto se manifestam livremente e são cobertos pela comunicação social que dizem vendida. As constantes reclamações de pacifismo enquanto apelam à violência, as bravatas contra a polícia, escondidos atrás de cordões humanos, as caras tapadas para a pose. No fundo repetem o que vêem pela Europa fora, mas sempre com o cuidadinho de quem não está realmente para se arriscar.
Em França canta-se a Marselhesa e a Internacional de punho erguido, em Portugal canta a Marisa Liz e a Carolina Deslandes. Na Europa acendem-se fogueiras, em Portugal faz-se um Funtástico, sem o Goucha, mas com coro popular. Em França, Bally Bagayoko, presidente da Câmara de Saint-Denis, vem dizer que a violência é legítima, em Espanha o próprio Primeiro-Ministro apela à revolta, cá temos o Fabian Figueiredo a fingir que foi agredido pela polícia e Carneiro a dizer que é preciso uma resposta política.
Ao mesmo tempo, o país mediático pára para isto. Não para discutir a crise da habitação, mas para debater as acampadas. Há directos, há Assembleias Populares, Sá Fernandes (o advogado que explica que um cocktail molotov atirado contra crianças não é um acto de terrorismo) e Carmo Afonso (advogada de Otelo Saraiva de Carvalho) tornam-se intérpretes da vontade popular e Renata Cambra torna-se uma heroína.
Tudo isto seria cómico, se não fosse trágico. Porque há de facto uma crise grave na habitação. Portugal tem poucas casas, tem cada vez mais procura, e por isso os preços não param de subir. O país tem enfrentado uma tempestade perfeita, desde o aumento do investimento estrangeiro até ao aumento de imigrantes, o aumento exponencial dos custos dos materiais de construção, faz com que a habitação consuma uma fatia cada vez maior do orçamento das famílias. Resolver este problema não é simples, e vai demorar tempo.
Um debate sério sobre a habitação, onde os principais partidos procurem medidas estruturais que permitam adoptar reformas estruturais para ultrapassar esta crise, é urgente.
Infelizmente o país está suspenso há três semanas da moda das acampadas. E esse desejo de importar a fórmula espanhola e francesa pode não pagar direitos de alfândega, mas está de facto a custar-nos caro. Porque em vez de debater a habitação, estamos a discutir acampamentos no Rossio.
Jurista