A Convenção da Iniciativa Liberal mostrou um partido numa encruzilhada. Entre a séria ameaça do voto útil no PSD (um perigo particularmente acentuado em autárquicas dada a natureza do nosso sistema eleitoral e a débil implantação territorial da IL fora dos principais centros urbanos) e a rivalidade do Chega na luta pelo voto anti-sistema, Rui Rocha procurou reinventar o partido passando uma certidão de óbito ao wokismo e tentando deslocar o partido para a direita.

Procurar votos em quem, à direita, não se revê na governação AD e simultaneamente está descontente com o Chega, poderá ser tacticamente inteligente, mas importa analisar o que está em causa de uma forma mais abrangente. Em Março do ano passado, identifiquei aqui três pecados da IL que me parece oportuno agora recordar brevemente no contexto da tentativa de reposicionamento em curso:

“1) O erro estratégico de alinhar com a agenda da esquerda, afirmando repetidamente uma linha vermelha incondicional face ao Chega. Uma coisa é vincar diferenças entre a plataforma da IL e do Chega procurando persuadir o maior número de eleitores e criticando duramente o que há de criticável nas propostas e no discurso do Chega. Outra, bem diferente, é excluir a priori a possibilidade de contribuir para uma maioria de direita que pudesse incluir o Chega, independentemente de qualquer negociação. (…)

2) As crescentes cedências ao wokismo e a adopção com crescente visibilidade e destaque de uma agenda progressista por parte da IL. A esse respeito é tristemente elucidativo que Rui Rocha tenha optado por terminar a campanha eleitoral posicionando a IL como campeã da defesa do acesso ao aborto. (…)

3) A falta de inclusividade – e até em alguns casos promoção de hostilidade – relativamente a liberais conservadores. Esta tendência, bem patente na ignorância atrevida e patética associada à forma como o slogan “liberal em toda a linha” é empregue internamente na IL, privilegia o fechamento em vez da abrangência.”

Relativamente ao primeiro erro – as linhas vermelhas absolutas face ao Chega auto-excluindo a IL de qualquer possível maioria de direita que inclua o partido liderado por André Ventura – creio que continua a ser um erro, mas percebo a manutenção desta posição no contexto da concorrência à direita e também das razões que o próprio Chega tem dado com alguma frequência para não ser um potencial parceiro recomendável.

Já relativamente ao segundo erro, parece haver agora uma clara consciência de que o caminho seguido pelo partido neste domínio foi errado e facilitou o crescimento do Chega. Ainda que não tenha sido num passado muito distante, longe parecem ir agora os tempos em que prevalecia o registo “nem woke, nem anti-woke” e em que, pasme-se, havia até dirigentes da IL que não sabiam bem o que raio seria isso do “wokismo”. Como a última convenção demonstrou de forma elucidativa, Rui Rocha tenta agora correr atrás do prejuízo não só virando à direita em matéria de segurança e imigração mas também procurando reposicionar a IL na linha da frente do combate ao wokismo (que afinal a Direcção da IL descobriu que existe mesmo e é um problema, ainda que aparentemente em vias de extinção e com morte anunciada). É um realinhamento que demonstra sagacidade política e que deve ser saudado mas fica por verificar se não será pouco demais e tarde demais para quem durante demasiado negou a própria existência do problema.

E, ainda que estas mudanças sejam positivas e possam merecer o benefício da dúvida, importa também não esquecer que a IL tenta fazer este reposicionamento precisamente no momento em que ele é menos custoso e potencialmente mais proveitoso, o que pode suscitar acusações de que se trata de mero oportunismo político. Como expliquei num outro artigo:

“(…) importa assinalar que no wokismo – tal como na imigração – a resistência aos piores excessos de políticas orientadas pela esquerda radical no momento em que essa resistência era mais difícil e custosa não veio do centro temoroso mas sim de quem teve a coragem suficiente para não recear ser acusado de radicalismo por defender políticas de bom senso.”

Relativamente ao terceiro erro – a falta de inclusividade – importa agora que tanto a Direcção da IL como a oposição saibam conviver. Nenhum partido pode crescer sem aprender a lidar com o pluralismo interno. Os resultados mais interessantes da convenção foram sem dúvida os do Conselho Nacional, onde se deverão expressar livremente as várias correntes internas. Com a vitória da lista por si liderada ao Conselho Nacional da IL (ainda que não com um resultado particularmente expressivo), Bernardo Blanco consolida a sua posição interna para a sucessão na liderança. Mas tanto a candidata presidencial Mariana Leitão – cujo resultado nas presidenciais será decisivo para testar o seu potencial político – como Mário Amorim Lopes – que se tem afirmado como o melhor deputado estreante da presente legislatura – poderão também ser candidatos fortes se assim o desejarem.