Economia em dia com a CATÓLICA-LISBON

A ilusão hipotecária

Autor
  • Nelson Camanho
156

Na opção entre comprar ou alugar uma casa intervém um factor a que chamamos ilusão hipotecária que levar a maus negócios. Mas como evitar a intuição de que “se deita dinheiro fora” quando se aluga?

Comprar uma casa é para muitos a decisão financeira mais importante da vida e há imensos fatores que influenciam a decisão. Num artigo académico (escrito com o meu amigo Daniel Fernandes, também professor da Católica Lisbon School of Business & Economics) propomos um novo fator que, fugindo à racionalidade, influencia a decisão de comprar um imóvel: a ilusão hipotecária, definida como a diferença entre o que se paga mensalmente por um aluguer e o que se pagaria mensalmente com uma hipoteca na mesma casa. O resultado mostra que há pessoas que tomam a decisão de comprar ou alugar uma casa baseando-se principalmente na diferença mensal entre o aluguer e a hipoteca.

Vamos a um exemplo. Supondo que o Pedro paga de aluguer pelo apartamento onde mora 1.000 euros por mês. O proprietário deste apartamento decide vendê-lo por 300 mil euros e um banco propõe um empréstimo imobiliário ao Pedro, no qual terá de pagar 90 mil euros de entrada (30% do valor de venda), mais uma hipoteca mensal de 900 euros, valor fixo por 30 anos. O Pedro, que tem um bom emprego e uma folga no seu orçamento, aceita a proposta e compra o apartamento. Afinal, não há dúvidas que é um bom negócio: se continuasse a alugar, estaria “a deitar dinheiro fora”, enquanto ao comprar, economiza 100 euros por mês, e ainda será proprietário do apartamento daqui a 30 anos. Será que o Pedro pode ter caído na ilusão hipotecária e, na verdade, ter feito um mau negócio?

Ao basear-se apenas na diferença mensal entre o aluguer e a hipoteca para tomar a decisão de compra da casa, pode estar a desconsiderar, que a hipoteca requer 30% do preço de venda como entrada. É claro que o valor mensal da hipoteca seria maior se a sua entrada ou duração fossem menores, como mostra a tabela abaixo.

Screen Shot 2017-01-26 at 23.18.25

As nove opções mencionadas são indiferentes em relação à avaliação da compra do apartamento ser ou não um bom negócio. Pagar 900 euros todos os meses por 30 anos com 30% de entrada (opção 1) equivale a pagar 1.178 euros por mês durante 20 anos com 30% de entrada (opção 3) que também equivale a pagar 1.082 euros por mês por 25 anos com 25% de entrada (opção 5). No entanto, se o Pedro toma decisões através da ilusão hipotecária, teria comprado o apartamento apenas nas opções 1, 4, 7 e 8 (as únicas cujo valor da hipoteca mensal está abaixo do valor do aluguer mensal de 1.000 euros). Se o Pedro não fosse afetado pela “ilusão hipotecária” e se não tivesse restrições de orçamento mensal, teria uma única decisão para as 9 opções. Esta decisão poderia ser comprar ou alugar, dependendo de vários fatores que vão além da ilusão hipotecária, mas certamente a decisão seria a mesma para as 9 opções.

Mas como conciliar a ilusão hipotecária com a intuição de que “se deita dinheiro fora” quando se aluga? O que muitas pessoas não tomam em consideração é que na opção 1, Pedro dá uma entrada de 90 mil euros para comprar o apartamento. Assim, não é justo comparar (i) o pagamento da hipoteca de 900 euros por mês por 30 anos com (ii) o pagamento de aluguer de 1.000 euros por mês para sempre. Propomos como solução uma regra racional, a opção “hipoteca infinita” da tabela acima: a hipoteca infinita equivalente com entrada zero. Acreditamos ser mais justo comparar o valor mensal desta hipoteca infinita com o aluguer mensal, pois estas duas opções dão ao Pedro o direito de viver na casa para sempre sem adquirir nenhuma parte do apartamento. Se ignorarmos outros fatores que tornam a compra de uma casa mais desejada, tais como o valor intrínseco de possuir a casa, a expectativa de valorização futura da casa, o nível de aversão ao risco do comprador, entre outros fatores, a compra da casa só deve ser efetuada se o valor mensal da hipoteca infinita com entrada zero for menor que o valor mensal do aluguer. No exemplo acima, parece que a compra desta casa é um bom negócio: a hipoteca infinita é de 782 euros por mês, muito menos do que o aluguer mensal de mil euros.

Há uma explicação para o facto das pessoas que habitualmente pagam hipotecas com valores mensais semelhantes ao valor de um aluguer: é natural que aqueles que pagam um aluguer de mil euros por mês não tenham capacidade orçamental para pagar muito mais do que mil euros por mês por uma hipoteca. Não é surpreendente que estas pessoas acabem por ter como referência o valor mensal de aluguer como referência do valor a pagar pela hipoteca.

O nosso artigo académico revela, através de questionários, que os indivíduos são mais influenciados pela ilusão hipotecária do que por uma regra racional, tal como “comprar se o valor mensal da hipoteca infinita equivalente for menor que o valor do aluguer mensal” (a tabela abaixo mostra como o Pedro agiria de acordo com cada uma das duas regras). E este resultado sobrevive a questionários alternativos que neutralizam o efeito de restrição orçamental. Mas o que então pode levar pessoas a seguirem a heurística simples da ilusão hipotecária e por vezes executarem maus negócios? Os primeiros estudos dos determinantes da ilusão hipotecária apontam para falhas de cognição. Mas isto já seria assunto para outro artigo.

Screen Shot 2017-01-26 at 23.18.42

Professor Auxiliar na Católica Lisbon School of Business & Economics

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Eleições Europeias

Querida Europa...

Inês Pina

Sabemos que nos pedes para votarmos de cinco em cinco anos, nem é muito, mas olha é uma maçada! É sempre no dia em que o primo casa, a viagem está marcada, em que há almoço de família…

Educação

Aprendizagem combinada: o futuro do ensino

Patrick Götz

Só integrando a tecnologia na escola se pode dar resposta às necessidades do futuro, no qual os futuros trabalhadores, mesmo que não trabalhando na indústria tecnológica, terão de possuir conhecimento

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)