Um mês após a infecção COVID-19 ter chegado a Portugal, o nosso dia-a-dia mantém-se inundado por contínuas notícias sobre esta pandemia. Sabemos que a ameaça é real, vivemos na angústia dos números e interrogamo-nos quanto à nossa capacidade de responder, cientes de que as suas consequências na economia vão deixar marcas. Com o Serviço Nacional de Saúde focado no tratamento destes doentes e na contenção da disseminação da infecção, o seguimento de doenças crónicas é feito à distância, enquanto consultas e exames complementares são adiados. Nos hospitais, uma nova prioridade preside a todas as decisões, enquanto a organização pré-existente é reformulada a cada dia que passa. Unidades, equipas e itinerários clínicos são alvo de profundas alterações que condicionam a capacidade de resposta e colocam um enorme desafio na assistência aos doentes agudos. Neste contexto, o Acidente Vascular Cerebral (AVC), cujo dia comemoramos este 31 de Março, obriga a uma chamada de atenção para a realidade portuguesa na qual continua a ser a primeira causa de mortalidade e incapacidade.

O AVC resulta, na maioria das vezes, da obstrução de um vaso por um trombo com a consequente redução de fluxo sanguíneo e morte de células cerebrais, condicionando perda irreversível da função. A remoção em tempo útil do trombo é o único tratamento eficaz. Nos últimos anos, a organização de cuidados permitiu uma adequada abordagem destes doentes em fase aguda. Primeiro com a criação de Unidades de AVC, locais onde são disponibilizados cuidados de excelência a estes doentes, e depois com o estabelecimento de circuitos prioritários, as chamadas Vias Verdes, extra e intra-hospitalares. Mais recentemente ainda, mercê da vontade conjunta de diferentes profissionais e de diferentes instituições, foi possível implementar o tratamento mais eficaz que contempla, além da administração de um trombolítico, isto é, um fármaco que permite dissolver o trombo, a desobstrução mecânica com um procedimento endovascular, mediante introdução de um cateter percutâneo e a aspiração do trombo.

Vale a pena pois sublinhar que da prevenção à reabilitação passando pelo tratamento agudo, existem nesta altura constrangimentos, inerentes à adaptação exigida pela COVID-19 ao Serviço Nacional de Saúde. O que está em causa não é contestar as remodelações que são feitas para lidar com a COVID-19, é lembrar que existem outras patologias que, mesmo neste contexto, merecem a nossa atenção, sob pena de pagarmos um preço demasiado alto, com maior número de mortes e de doentes incapacitados, e com inerentes custos para a sociedade.

Nos Centros de Saúde, não é demais enfatizar o papel dos Médicos e Enfermeiros de Família na prevenção, nesta altura facilmente relegado para segundo plano perante a necessidade de focar atenção nos doentes infectados. É pois importante lembrar o controlo dos diferentes factores de risco vasculares (Hipertensão Arterial, Diabetes Mellitus, Hipercolesterolémia, Obesidade, Tabagismo, Fibrilhação Auricular, entre outros), fundamental na prevenção primária do AVC. Como recomendado pela Direcção Geral de Saúde, os doentes crónicos (ou seus cuidadores) devem reforçar a monitorização das suas patologias, assegurar-se que tomam a medicação recomendada, e não abandonar rotinas como o controlo regular de pressão arterial ou diabetes. Na adaptação à nova realidade da quarentena, é recomendado que se continue a promover uma alimentação variada e equilibrada e, dentro do possível, evitar o sedentarismo.

A nível hospitalar, como tem sido noticiado, o número de admissões hospitalares nos Serviços de Urgência tem vindo a reduzir-se drasticamente. Se aparentemente estes números são em grande parte resultado de uma redução significativa de admissões não urgentes, uma preocupação crescente é a diminuição de afluência de doentes graves, com efectiva necessidade de cuidados hospitalares. O compreensível receio de contaminação pela infecção COVD-19 em meio hospitalar poderá levar doentes a desvalorizar os seus sintomas, e a não recorrer aos Serviços de Urgência ou contactar o número nacional de emergência médica, mesmo quando necessário. É no entanto indispensável que se mantenha um grau de suspeição elevado e que, perante os sinais de alerta, falta de Força, alteração da Fala e/ou assimetria da Face (os 3 “Fs”), se contacte de imediato o 112. O tratamento disponível tem uma janela de administração relativamente curta, sendo que a probabilidade de reverter a situação é tanto maior quanto mais precocemente o tratamento for instituído.

Se a diminuição de contactos para o 112 por suspeita de AVC é uma preocupação, a manutenção ou necessidade de adaptação dos actuais circuitos hospitalares de Via Verde AVC coloca-nos desafios importantes. Acresce ainda a necessidade de alocar um maior número de recursos humanos ao tratamento de doentes COVID-19, sem comprometer os cuidados agudos de doentes com AVC. Actualmente, cada hospital tem, de forma autónoma, gerido os cuidados prestados, mas o evoluir da situação pode obrigar a considerar a centralização de cuidados num “hospital limpo”.

Paralelamente, no internamento e após a alta, o acesso a reabilitação (fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala), não deve ser desvalorizado. Dentro da necessária redução do número de utentes em espaços comuns e das limitações nas deslocações, medidas de optimização de reabilitação serão porventura necessárias.

De momento não conseguimos prever quais as consequências indirectas da Pandemia COVID-19 na incidência, morbilidade e mortalidade do AVC. Resta aos profissionais de saúde dedicados à prevenção e tratamento desta doença saber enfrentar os novos desafios, reclamando a capacidade necessária para tratar os doentes. Da população em geral por sua vez, espera-se que procure corresponder às recomendações em vigor, mantendo as medidas de controlo dos factores de risco vascular e que, perante a instalação súbita de um dos sinais de alerta (os “3Fs”) ligue de imediato o 112.