Na nação prestes a parar para banhos, instalou-se há dias o clamor: o líder do partido populista foi ao Parlamento recitar os nomes (estrangeiros) que, alegadamente, constituiriam todo o livro de ponto de uma sala de aula de certa escola algures em Lisboa. Fê-lo dizendo apenas os nomes próprios, mas, antes, já uma deputada destacada desse mesmo partido tinha declamado o mesmíssimo inventário num vídeo nas redes sociais e, dessa vez, facilitando também os apelidos. A indignação instalou-se: ali mesmo, em São Bento, com a revolta e até a comoção de outras bancadas, e um pouco por toda a opinião pública. Infelizmente, ou muito nos enganamos ou este será apenas mais um caso exemplar do porquê da contínua ascensão daquele partido, perante a igualmente contínua, mas cada vez mais inexplicável perplexidade geral.
Não restam dúvidas quanto ao modus operandi do populismo. Não se faz isto a cidadãos, justamente, anónimos, sem a menor oportunidade de responderem em igualdade de circunstâncias – muito menos quando se trata de crianças, sem qualquer responsabilidade no assunto em que, de repente, se vêem envolvidas. Por outro lado, que diríamos nós se alguém fizesse o mesmo noutro parlamento, noutro país – digamos, uma França, uma Alemanha, uma Suíça –, com os nomes de crianças portuguesas lá imigradas? E quão fácil seria devolver a este partido uma lista com os nomes dos seus deputados, autarcas e candidatos a autarcas que nunca encontraríamos, digamos, num romance de Júlio Dinis? Finalmente, resta dizer que os próprios, horas mais tarde, reconheceriam não ter sequer verificado a autenticidade da lista. O profissionalismo e seriedade habituais.
Não há, portanto, nenhuma dúvida quanto à legitimidade das ondas de choque; o problema foi, mais uma vez, ter-se ficado pelo choque.
Em Portugal, como já antes noutras paragens, parecemos muito preocupados em demarcar-nos dos populistas. Em deixar registado, para memória futura, que nada tivemos a ver com a sua ascensão – nem sequer através da cumplicidade do nosso silêncio. Nada contra. O mal é se, mais uma vez, nos ficamos pelo ataque à forma dos populistas e nada dizemos quanto ao conteúdo. Porque, em Portugal, como noutras paragens, o populismo será hipócrita, demagógico, maldoso, oportunista, mas não os temas de que fala. Porque o populismo, justamente, ascende dirigindo-se aos assuntos que mais mexem com aquele substantivo colectivo mágico na origem do seu étimo: o povo. A população.
Não importa se a lista declamada é verdadeira, falsa, mais manipulada ou menos manipulada; importa que há números concretos acerca do crescimento vertiginoso do número de alunos estrangeiros nos últimos anos nas escolas portuguesas e que, sim, isso representa necessariamente problemas. Que problemas? Desde logo que nenhum professor do ensino básico ou secundário foi preparado para isso, para se fazer entender numa multiplicidade de línguas e culturas; depois, que nenhum manual ou programa estará também adequado a essa novíssima realidade. E que tudo isto pode provocar dificuldades de aprendizagem a uns e outros, tenham os nomes que tiverem, e que isso não se vai resolver por artes mágicas. Mas há outro problema maior em que a alegada lista nos deveria fazer pensar: a questão não é tanto a dos alunos estrangeiros que estão nas nossas escolas – isso só dá um sinal de esperança numa integração muito mais fácil na comunidade –; o problema são os portugueses que não estão.
A imigração, ao contrário do que alguns gostam de fazer crer, não é a causa de nada; é a consequência. Não houve um plano conspirado algures no sudoeste asiático, em África ou no Brasil para invadir, um, dó, li, tá, Portugal. Os imigrantes vêm porque acreditam que, em Portugal, terão mais hipóteses do que no seu país de alcançarem uma vida melhor, mais adequada ao seu projecto profissional ou familiar, exactamente como os nossos fazem quando trocam as maravilhas do Chiado, do Algarve ou da linha de Sintra por França, Inglaterra, Alemanha, Suíça ou tantos outros sítios. Em suma: o nosso problema, caros populistas, não é atrair paquistaneses; é não atrair os portugueses.
Partidos, comentadores, cidadãos chocados com estes patriotismos de trazer por casa: denunciem os métodos dos populistas quantas vezes for preciso, mas não se fiquem por aí. O que a infame lista nos deve pôr a discutir é como é que vamos fazer a economia portuguesa gerar as oportunidades de trabalho e rendimento para as quais os nossos jovens estudaram, para que fiquem no país e aqui tenham as suas famílias. Consigam pagar uma casa onde caiba mais do que um gato ou Jack Russell cheio de projecção vocal. Contrariem o facto de sermos, proporcionalmente, na Europa, o país com mais emigrantes (com “e”) da Europa ou o quarto mais envelhecido do mundo. Podem recitar as listas que quiserem. O problema não é o Ibrahim; é a Maria. E o Manel.