Há uma velha máxima atribuída a Mark Twain: “A história não se repete, mas rima.” E nunca essa rima soou tão clara como hoje. Os ciclos geopolíticos, económicos e sociais seguem padrões quase matemáticos: épocas de expansão seguidas de retração, tensões que explodem em conflito, inovações que emergem em momentos de crise. Mudam os protagonistas, mudam os cenários, mas a coreografia é inquietantemente familiar. E, ainda assim, insistimos em agir como se tudo fosse inédito. Porquê? Porque, coletivamente, a memória está esquecida.

Um dos exemplos mais evidentes está na própria história recente do nosso país. No próximo ano, o 25 de abril completará 52 anos. Para mais de metade da população portuguesa (eu incluído), esse momento fundador da democracia não é uma memória vivida, mas um capítulo distante dos manuais escolares. Mesmo quem hoje tem 60 anos terá, na melhor das hipóteses, uma vaga recordação infantil do evento. E a falta de curiosidade em estudar, desapaixonadamente e com objetividade, sobre esse e outros episódios da história de Portugal, ou internacional, do século XX, impede-nos de compreender o contexto mais amplo em que vivemos. Sem esta capacidade de olhar para “séries longas” da história, perdemos a habilidade de relativizar problemas, identificar padrões e escolher caminhos mais sensatos.

É precisamente nesse vazio histórico que os extremismos encontram oxigénio. Quando não se conhece o antes, exagera-se o agora. Quando se desconhecem os ciclos, acredita-se que cada crise é inédita, que cada tensão é apocalíptica, que cada desacordo é um ataque pessoal. As redes sociais ampliam esta ilusão: sentimentos intensos tornam-se norma, opiniões absolutas tornam-se moda, a nuance desaparece. O debate transforma-se em combate, e o adversário político passa a ser inimigo existencial. A história ensinou-nos repetidamente o que acontece quando as sociedades cedem às emoções e esquecem a razão, mas poucos parecem dispostos a revisitar essas lições.

Esta erosão da memória histórica também se reflete no mundo profissional e social. A oscilação emocional tornou-se regra: ama-se e odeia-se com igual rapidez uma empresa, um líder, uma causa ou um país. Sem a referência dos ciclos anteriores, as pessoas perdem o sentido de proporção e entram em espirais de entusiasmo absoluto ou de desilusão total. A resiliência, essa capacidade que só se constrói ao longo de décadas, não em tendências virais, foi substituída por reações impulsivas e por visões simplistas.

O problema agravou-se porque muitos acreditam que dominam a informação apenas por terem acesso a ela. Vivemos rodeados de dados, mas com pouca interpretação; cheios de opiniões, mas pobres de memória. A ilusão contemporânea é achar que sabemos, quando apenas consumimos o que os algoritmos nos servem. Falta-nos o contraditório, o distanciamento, a leitura fria dos factos; aquilo que só se alcança ao estudar a História (com H maiúsculo) com rigor, sem romantismos nem militâncias.

E é aqui que surge o risco civilizacional: sem memória, confundimos perigos antigos com desafios novos e repetimos erros que julgávamos enterrados. As tensões geopolíticas atuais não são diferentes das de há 100 anos; apenas têm novos atores e tecnologias mais avançadas. As crises económicas seguem padrões conhecidos, apenas com uma linguagem mais digital. A ascensão de extremismos não é uma surpresa, é a consequência direta de uma sociedade que não estudou as causas do passado.

Se quisermos evitar que o futuro seja apenas um remake dos capítulos mais sombrios da história, precisamos de recuperar a memória que deixámos adormecer. Tanto a memória coletiva quanto a individual. Precisamos de ensinar e aprender em profundidade, de revisitar o antes para compreender o aqui e agora, de cultivar a curiosidade histórica em vez da superficialidade emocional.

Porque a história não é apenas passado, é manual de sobrevivência. E enquanto insistirmos em viver sem memória, estaremos condenados a repetir aquilo que nunca chegámos verdadeiramente a compreender.