Tenho dito recorrentemente ao longo do último ano que estamos a viver momentos estranhos, num mundo estranho. O problema é que aquilo que começou por soar a exagero ou pessimismo intelectual começa, perigosamente, a transformar-se em normalidade aceite. E quando o anormal se normaliza, a história ensina-nos que entramos sempre em terrenos escorregadios.

Hoje começamos a achar “normal” o extremismo, seja ele de esquerda ou de direita. A agressão verbal banalizou-se, tornou-se entretenimento político, combustível de redes sociais e moeda corrente no debate público. A agressão física, essa, deixou de ser tabu e passou a ser relativizada: “se tiver de ser”. Seja contra um imigrante, um “arraçado” de imigrante, ou simplesmente um concidadão que ousa ter uma opinião diferente da nossa. O outro deixou de ser adversário ou interlocutor e passou a ser inimigo. Este é um traço clássico de sociedades que regressam a lógicas pré-modernas, onde a força substitui o argumento.

Em paralelo, assistimos à multiplicação de invasões entre Estados. Já não se chamam guerras: são “operações militares especiais”, “ações preventivas” ou “combates ao narcotráfico”. A semântica suaviza o que a realidade torna brutal. O mais inquietante não é apenas o fenómeno em si, mas a sua recorrência. Quando algo se repete vezes suficientes, deixa de chocar. E quando deixa de chocar, passa a ser aceite. Foi assim em vários períodos da Idade Média, quando a conquista territorial era vista como instrumento legítimo de poder.

Mas o regresso ao passado não se faz apenas com tanques e soldados. Faz-se também na economia. Vemos cada vez mais Estados a entrar diretamente na gestão de empresas, a decidir quem pode comprar quem, quem pode crescer, quem deve cair. Tudo isto embrulhado numa retórica liberal, mas com uma camisola interior claramente estatizante da era comunista ou, nalguns casos, autoritária com laivos indiciadores futuros de sanguinários que fazem lembrar e antever os melhores momentos de Idi Amin no Uganda. Chamam-lhe proteção estratégica, soberania económica ou interesse nacional. Na prática, muitas vezes, é apenas controlo de poder. E, curiosamente, achamos normal.

Estamos, assim, a regressar a modelos quase feudais: senhores com poder político e económico concentrado, vassalos dependentes de favores, mercados condicionados por decisões superiores e não por mérito ou concorrência. A diferença é que agora os castelos são digitais, os exércitos incluem programadores e especialistas em ciberataques, e as muralhas são feitas de dados, algoritmos e infraestruturas críticas. A lógica, porém, é a mesma: domínio, dependência e obediência.

Perante este cenário, impõe-se uma pergunta incómoda: onde ficou a economia de mercado? Onde está a concorrência livre e regulada, mas não sufocada? Onde cabe ainda a iniciativa privada que arrisca, investe e cria valor? Ou será que empreender passou a ser uma atividade para lunáticos, dispostos a navegar num sistema onde as regras mudam conforme o humor político, a pressão geopolítica ou a narrativa do momento?

A História mostra-nos que os períodos de maior prosperidade coincidiram com abertura, previsibilidade e confiança institucional. O que estamos a fazer hoje é o inverso: normalizamos o caos, relativizamos o abuso de poder e tratamos o retrocesso como adaptação. O problema é que regressar à Idade Média, mesmo com tecnologia de ponta, nunca foi sinónimo de progresso.

Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo seja este: perceber que não basta inovar tecnologicamente se estamos a regredir civilizacionalmente. Porque um mundo estranho pode ser apenas uma fase. Mas aceitar esse mundo como normal é, aí sim, um erro histórico que já pagámos caro outras vezes. Temos de voltar a incentivar a competitividade empresarial e o respeito institucional e individual!