Assisti a vários debates com os principais candidatos às eleições presidenciais do próximo dia 18 de janeiro. Fi-lo com o dever cívico de quem acredita que escolher um Presidente da República exige atenção, reflexão e, sobretudo, exigência. Infelizmente, o que encontrei foi menos um confronto de ideias e mais uma sucessão de discussões de alguidares, ou seja, muito barulho, muita espuma, pouca substância.

Continuamos a ver candidatos que fogem sistematicamente às ideias. Quando, por acaso, arriscam apresentar alguma, rapidamente se percebe que não sabem como a executar ou, pior, sabem que é irrealista e por isso preferem deixá-la no domínio da retórica vaga. A presidência é tratada como palco e não como instituição; como tribuna emocional e não como função estratégica.

Há os que batem no peito e juram que a sua principal vantagem face aos outros é o amor à pátria. Seja lá o que isso for, para lá de uma abstração confortável. Reduzem o discurso a dois ou três soundbytes repetidos até à exaustão, com uma liturgia quase sectária e de seita, como se a repetição fosse substituto de pensamento. Patriotismo sem proposta não é virtude, é slogan!

Há também os que se apresentam como os melhores profissionais do mercado, enquanto criticam os que trabalharam nesse mercado exigindo demonstrações de clientes com um ar de ingénua indignação. Fingem desconhecer como funcionam os negócios, a economia real, o investimento e o risco, apesar de se proclamarem especialistas e liberais da economia. É um paradoxo curioso: afirmam excelência técnica que dizem dominar,  ao mesmo tempo que criticam quem executou a sua atividade profissional na realidade económica.

Depois surgem os candidatos inexperientes e de ambição saudável pessoal, que não compreenderam ainda que a guerra política é profundamente diferente da guerra militar. Liderar em contexto militar exige disciplina, hierarquia e comando claro; a política tradicional, pelo contrário, é a guerra da lama, do desgaste, da negociação imperfeita e da exposição permanente. Depois da ingenuidade de achar que conseguiriam impor o respeito pela patente, começam adaptar-se na defesa, mas carecem e sentem dificuldades na gestão da ofensiva, pois o tipo de armamento é distinto.

Há também o “menino honesto”, certinho, bem-intencionado, mas que acaba por ser o cromo da turma da classe primária. Aquele que cumpre tudo, mas que não sabe reagir quando o sistema lhe faz bullying. A boa intenção não basta quando falta densidade política, capacidade de resistência e leitura estratégica do ambiente, capaz de fazer diferente e demonstrar mais do que ideias gerais. Bem podia ser concreto e distinto, mas também aí só conhece o modelo tradicional de política onde … não teve sucesso (insiste no mesmo erro ao fazer o que sempre fez).

E, por fim, surgem os pequenotes chatos do canto da sala. Não se juntam a ninguém, fazem birra permanente e levantam o dedo apenas para que a professora repare neles. O objetivo não é contribuir, mas existir. Não é liderar, mas ser ouvido. Ruído puro, travestido de diferença.

Tudo isto seria apenas folclore político se não fosse sério. Mas é sério. Porque, como me recordaram esta semana a propósito de outro artigo que escrevi, Henry Kissinger (longe de perfeito, mas inegavelmente sábio diplomático) afirmou que, sem liderança, as instituições ficam à deriva e as nações caminham para a irrelevância crescente e, em última análise, para o desastre, ficando à mercê da incompetência exercida pelos ignorantes com iniciativa. Eu acrescentaria que ficamos à mercê dos “incompetentes e ignorantes com iniciativa”.

E é aqui que reside o verdadeiro risco. Não é apenas a falta de ideias. É a combinação explosiva de ignorância, incompetência e iniciativa. Porque a ausência de pensamento estruturado não impede a ação, pelo contrário, muitas vezes acelera-a de forma errática e destrutiva.

A pergunta que se coloca é simples e inquietante: como contrariar esta tendência? A resposta não está em mais barulho, nem em mais radicalismo emocional. Está na exigência cívica, na recusa do debate raso, na valorização da experiência, da capacidade de execução e da serenidade institucional.

Veremos o resultado destas eleições. E resta desejar, com a lucidez possível, que não seja um incompetente, nem um ignorante com iniciativa, a liderar a Presidência da República do nosso país. Porque, pois ao contrário dos alguidares, as instituições não resistem indefinidamente ao vazio de ideias.