Mas que tempo extraordinário este em que vivemos!

O tempo dos radicalismos para todos os gostos. Eles são radicais de direita, eles são radicais de esquerda e, mais recentemente, fomos presenteados com um novo radicalismo: o radicalismo moderado.

Este radicalismo é o melhor dos radicalismos por ser radicalmente tranquilo. Não incomoda, não provoca, não arrisca. Tudo o que uma sociedade quer. Uma sociedade de moderação elevada, pura e moralmente superior.

Não tratamos aqui de um qualquer tipo de moderação. Porque moderados somos todos, dependendo do dia e da circunstância. Falamos de um novo tipo de moderação, que se distingue dos mais ou menos moderados e dos muito moderados: os moderadíssimos.

Os moderadíssimos não erram, não prejudicam, não incomodam. Nada. O que é revelador de uma ética distinta e de uma grandeza espiritual inigualável.

Os moderadíssimos não precisam de ideias, nem de saber para onde ir ou como ir. Apenas vão, com muita calma e sem incomodar ninguém.

Os moderadíssimos são mais do que seres que se distinguem dos demais nas “coisas da vida”. Hoje — mais do que nunca — estão em força na política.

E não é só “estar em força”, porque isso poderia parecer banal. Nada disso. Os moderadíssimos estão prestes a eleger um Presidente da República através da sua maior figura política: António José Seguro.

António Seguro é a grande figura política dos moderadíssimos. Seguro não mobiliza, tranquiliza. Seguro não convence, acalma. E António Seguro não pode dividir o país porque é um moderadíssimo e, como tal, não se posiciona, não arrisca, não propõe. Ele tranquiliza.

É apoiado não pelo que defende, mas pelo que não perturba. Não por ter ideias, mas por nunca ter criado atrito.

É o candidato ideal que não traz nada de novo.

E para a “elite” opinativa, este é o candidato perfeito. Seguindo-se então o desfile da virtude: comentadores, políticos e intelectuais unidos a declarar apoio, não por convicção, mas por sinalização moral.

“Eu sou moderado.”

“Não, eu sou mais moderado do que tu.”

“O moderado sou eu!”

“A minha moderação é maior do que a tua.”

Não se pergunta o que defende; afirma-se que é moderado.

A moderação deixa assim de ser um meio e passa a ser um fim. Um atributo moral que dispensa qualquer justificação. Ser moderado basta. Questionar é radical e escolher é perigoso. Porque escolher é fascismo.

É “ética republicana”, dizem eles. Ética que ninguém define, mas que todos usam como selo de respeitabilidade. Uma ética tão vaga que serve para tudo — sobretudo para nada.

O moderadíssimo não erra, não divide e não falha. Porque o moderadíssimo não decide, não arrisca e não se posiciona firmemente sobre nada. A aversão ao risco é apresentada como virtude e a ausência de conflito como maturidade democrática.

Este radicalismo não é exclusivo de um campo político. Não se iludam.

Todos sabemos que António Seguro é socialista e poderíamos pensar que este fenómeno é uma criação socialista. Mas reparem: em redor deste nome maior dos moderadíssimos, reúnem-se figuras dos mais variados espaços políticos. São liberais, comunistas, sociais-democratas e até democratas-cristãos. Tudo a abraçar a moderação radical.

O liberal moderado não confronta o socialismo; adapta-se a ele. Se há uns dias vendiam “um voto em Ventura é um voto em Seguro”, hoje transformam o voto em Cotrim num voto em Seguro.

Já os democratas-cristãos elevaram a moderação a exercício espiritual. O democrata-cristão moderado é um milagre político: acredita em tudo e não defende nada.

Quanto aos sociais-democratas moderados, finalmente resolveram o problema de identidade — ou falta dela — com elegância: tornaram-se socialistas moderados.

E os comunistas? Os comunistas adaptaram-se aos novos tempos com uma moderação estalinista. E claro, os meios de moderação são da cooperativa.

O triunfo é total: nada muda e todos se sentem virtuosos.

Sejam moderados. Muito moderados. Excessivamente moderados. Moderadíssimos. Porque, como todos sabemos, foi assim que se fez absolutamente nada — mas com um enorme estilo.