O Papa faleceu. A minha esposa e eu, que temos a graça de viver em Roma neste período tão marcante da vida da Igreja, tivemos ainda mais graça, por termos podido falar directamente com o Santo Padre na sua última audiência, no passado dia 12 de Fevereiro, e de estarmos presentes no passado Domingo de Páscoa, em São Pedro, quando o Papa bendisse o mundo inteiro e passou na praça, como quem se despede dos seus filhos amados. Estas graças, na verdade, valeram-nos algumas entrevistas na televisão nacional; não, porém, pelas graças, mas pelas desgraças, que sempre atraem a atenção. Tudo isto me leva hoje a querer partilhar, com quem quiser ouvir, uma pequena reflexão.

O Santo Padre faleceu. Estava já doente há algum tempo e não faltou especulação acerca da sua possível morte; assistimos até a algumas notícias que procuravam explicar como funciona a eleição de um Sumo Pontífice. No entanto, o que todo o animal racional deveria perceber de imediato é que, quer tivesse vindo a recuperar, quer falecesse, enquanto nada disso acontecia, o Santo Padre estava doente. Ninguém poderá contestar este facto; poderá contestar-se, porém, o interesse do mesmo. Mas esse todo o cristão deveria ser capaz de anunciar: um Papa doente, para além algo de extremamente apropriado, é uma graça incomensurável. Não, não estou louco, nem a brincar, nem a exagerar. Passo a explicar.

É extremamente apropriado — isto é, apropriado em grau extremo — que um Papa esteja doente. Não é necessário (evidentemente), nem se exclui que um Papa com saúde, em vista ao governo, edificação e santificação da Igreja, seja igualmente apropriado. E a razão é simples: o Papa é o Vigário de Cristo; e Cristo governou, edificou e santificou a Sua Igreja do alto da Cruz. É extremamente apropriado, portanto, que o Vigário imite Cristo. É extremamente apropriado que aquele que nos guia até aos braços do Pai se entregue ele mesmo nessa radical confiança.

E, mais do que extremamente apropriado, é uma graça incomensurável. Uma oliveira, porque não vê a luz, não consegue ver os lírios no campo; mas, para quem vê a luz, poucas coisas são mais evidentes do que os lírios do campo. Um elefante, porque não vê a luz da razão, não consegue ver que dois e dois faz quatro; mas, para quem é racional, poucas coisas são mais evidentes do que dois mais dois ser igual a quatro. Ambos os casos — a luz física e a luz da razão — servem de analogia à luz da fé. Um ateu, porque não tem fé, não consegue ver o fruto para a vida eterna do sofrimento oferecido, ou o mérito que o sofrimento oferecido de um homem pode ter na vida de outros. Mas, para quem tem fé, para quem vê a realidade à luz da Palavra de Deus, poucas coisas são mais evidentes.

O próprio Santo Padre, no seu testamento, nos diz que ofereceu os seus sofrimentos pela Igreja e pela paz no mundo. Quem? O Santo Padre; o Sumo Pontífice. E o que é um pontífice? É alguém que faz pontes — literalmente, pontifex, pontem faciens. As pontes para o Alto, porém, fazem-se ao modo de Cristo.

Espero não ser mal interpretado. Tal como já tive a oportunidade de dizer ao Sumo Pontífice e em directo para a televisão nacional, tanto a minha esposa como eu amamos o Santo Padre e rezámos por ele todos os dias. Limito-me a procurar expressar o que o próprio Papa, dirigindo-se aos doentes, proferiu, em Portugal, a 13 de Maio de 2017:

“Queridos doentes, vivei a vossa vida como um dom e dizei a Nossa Senhora, como os Pastorinhos, que vos quereis oferecer a Deus de todo o coração. Não vos considereis apenas receptores de solidariedade caritativa, mas senti-vos inseridos a pleno título na vida e missão da Igreja. A vossa presença silenciosa mas mais eloquente do que muitas palavras, a vossa oração, a oferta diária dos vossos sofrimentos em união com os de Jesus crucificado pela salvação do mundo, a aceitação paciente e até feliz da vossa condição são um recurso espiritual, um património para cada comunidade cristã. Não tenhais vergonha de ser um tesouro precioso da Igreja.”

Agora, porém, esse tempo já lá vai: o Papa partiu para a morada eterna. E de lá, certamente, como suplicou o Cardeal Giovanni Battista Re na missa do seu funeral, abençoa a Igreja, abençoa Roma e abençoa o mundo inteiro. Isto é evidente; não a todos, claro, pois, tal como as oliveiras são cegas e os elefantes não têm razão, há grandes mistérios velados aos que não vêem o mundo com o olhar de Cristo.