Até começar a publicar livros, desconhecia a náusea da publicação. Uma agonia, mais física do que moral, de imaginar que seremos lidos pelos outros, estranhos e conhecidos, quando estamos prestes a sê-lo. Acabada de acordar, na manhã em que sei que o texto está no jornal, a desagradável golfada da exposição. Seja que texto for, melhor ou pior, bom ou mau. Não serei a única do mundo que a sofre semanalmente. Bom dia, agonia, aqui vamos nós.

A sucessão das semanas imprime à coluna enquanto género uma possibilidade continuamente redentora, que alivia um pouco a neura da náusea. Penso, ou suspiro: pronto, já está, para a semana será melhor.
Publicar tem um pouco de morrer. Cada publicação, grande ou pequena, é um mal sem remédio. Recordo as palavras de Jorge Silva Melo lembrando que as actrizes e os actores não gozam o benefício das segundas provas, da revisão de texto. Estão no palco, a nu, à nossa frente, noite após noite. Anestesia-os o espectáculo ter de continuar, a repetição, o falhar melhor.
Mesmo que, na semana seguinte, o primeiro pensamento do dia vá para o texto na página, aberto a todos e a todos os comentários, a sorte alegre de saber que as semanas, para o bem e para o mal, se sucedem, é capaz de renovar as minhas forças, mas não me anestesia.O escritor volta atrás e emenda. Revê, corrige, desiste, muda de ideias muitas vezes. A minha tendência para recuar com textos e livros inteiros daria para uma colectânea de colunas escrita entre gargalhadas pelos editores que me aturam.

A náusea talvez venha daquela morte matinal do colunista. O texto é público. O mal está feito. Dá vontade de sair à rua camuflada de arbusto, ou pura e simplesmente mudar de país, ainda que ninguém tenha lido a pobre coluna.
Vem depois a mais terrível fatalidade, que felizmente só me acontece uma vez por ano, que é alguém dizer-me que leu a minha coluna, apenas assim, sem mais: “Hoje li”, ou pior, “Tenho lido”, que é como uma punhalada no coração. Punhaladas mais fundas são as que têm origem nos que adivinhamos que leram, ou que lêem sempre, e que se remetem ao silêncio. Por um lado, o colunista neurótico não quer ser lido pelas pessoas que dizem que o leram, por outro lado, não quer ser ignorado pelas que suspeita que o leram. Como assim, tem lido? Vem lendo? Estava seguríssima de passar despercebida (na realidade, o maior disfarce é mesmo publicar, vem com a publicação a ideia maluca de que na realidade ninguém lê, ninguém leu, no fim de contas, ninguém lê jornais nem livros em Portugal).
Por isso é que a náusea das manhãs de sexta-feira tem tanto de estúpido como de ridículo. Dizer a si mesma que a melhor maneira de não dar nas vistas é pentear-se para a ocasião, maquilhar-se, pôr a cabeça de fora.

Com os livros, é parecido. Em poucos lugares e situações me sinto tão protegida como dentro das páginas dos meus livros. Digo o que quero como quero e digo-o ali, porque assim esqueço. A melhor maneira de esquecer um assunto é publicá-lo. Assim que o livro sai, porquê, não me perguntem, esqueço-me do que nele vai escrito, fosse mentira ou fosse verdade. Publicar e perecer.

Com as colunas é o mesmo: amanhã, ou seja hoje, virá a náusea, e depois passa. Para onde, não sei. Para quem, é um mistério. Passa. A coluna desaparece da cabeça, do dia, da vida.
E daqui a muito tempo, releio-a e não acredito bem que estagiou numa tola agonia. Um hábito do esquecimento a vida pública, a publicidade, a publicação.