“Comigo, Presidente, o Chega nunca será Governo. Porque a minha luta é uma luta pela cultura política. E é uma luta para conquistar maiorias em nome da decência e da democracia. E se este caminho for bem-sucedido, não haverá um país que dê ao Chega esse poder.”
A autoria do que acima está transcrito pertence a Catarina Martins, atual candidata do Bloco de Esquerda à Presidência da República.
Bastaria ler o início para se perceber o quão perverso é o significado da palavra “democracia” para o Bloco. Diga-se, em abono da verdade, que para o Livre de Rui Tavares a ideia de democracia é igualmente semelhante à do Bloco e da sua candidata. Desde logo fica claro que nenhum dos dois leu a Constituição. Se a leram, talvez não a tenham entendido. E se a entenderam, então não fingem – honra lhes seja feita – que a democracia não é, para estes dois partidos, o sistema de governo preferido.
Façamos — para se perceber melhor — um simples exercício que não é fantasia: é uma possibilidade política real.
Catarina Martins é eleita Presidente da República. Posteriormente, realizam-se eleições legislativas das quais pode resultar uma maioria absoluta do Chega. Nenhuma destas hipóteses é irrealista; todos concordam que tal cenário pode, de facto, acontecer.
Se o Chega vencer as eleições legislativas, com maioria parlamentar, o que fará então a Presidente Catarina Martins perante este resultado eleitoral?
Recusar-se-á a dar posse a um governo eleito democraticamente em eleições livres e por vontade popular.
E constitucionalmente, onde poderá a putativa Presidente da República sustentar tal recusa? Em lado nenhum.
Sendo assim, a pergunta a fazer-se no ponto de vista Constitucional – aquela que deve ser feita – seria: perante tal cenário, a/o Presidente da República é obrigada a dar posse a um governo democraticamente eleito pelo povo seja ele qual for ? A resposta é: sim.
E é aqui que chegamos ao ponto mais luminoso — ou mais sombrio — deste quadro: para esta esquerda, “democracia” não é o regime em que o povo decide, mas o regime em que o povo decide… desde que decida corretamente, ou seja, como eles mandam e como eles querem . Caso contrário, deixa imediatamente de ser povo e passa a ser massa manipulada, refém do medo, vítima de desinformação, reacção, ignorância ou, na mais recente terminologia em voga, “perigo para a democracia”.
Repare-se no contorcionismo político: se o povo elege aquilo que a esquerda aprova, temos um magnífico exercício democrático; se o povo elege aquilo que a esquerda reprova, temos um surto autoritário, um risco civilizacional, um ataque à Constituição — precisamente a Constituição que, dias antes, diziam venerar como se fosse a sua Bíblia laica.
É curioso: acusam os outros de querer capturar o Estado, mas são eles que pretendem capturar a própria soberania popular. E fazem-no com ar professoral, com sobrancelha franzida, em nome da “decência”. Essa palavra mágica que, traduzida do dicionário bloquista, significa: governa quem nós aprovamos; quem o povo escolher contra a nossa vontade nunca será legítimo.
E é assim que Catarina Martins nos brinda com a mais surpreendente inovação institucional do século XXI: o Presidencialismo seletivo de esquerda, onde o Presidente não é garante da Constituição, mas guardião do politicamente correto. Um Presidente que não representa todos os portugueses, mas apenas aqueles que recitam a cartilha certa.
É esta a cultura política que dizem defender. Uma cultura em que o povo tem liberdade total para escolher, desde que escolha o que está previamente autorizado pelo Bloco de Esquerda e pelo Livre. O resto? Bom… o resto é “fascismo”, “discurso de ódio”, “ameaça” — essas palavras que servem para dispensar o incómodo de debater, convencer ou respeitar o eleitor. Chama-se a isto iliberalismo. Não de direita, mas de esquerda. E talvez esteja na hora de perguntar: quem é, afinal, o verdadeiro inimigo da democracia? Quem a quer derrubar… ou quem se julga dono dela?
A democracia é sempre aquilo que o povo escolhe. O fascismo é sempre aquilo que é imposto ao povo contra a sua vontade soberana. Percebem agora o que é, para esta esquerda, um “facho”? É simplesmente aquele que não embarca nesta perversão semântica nem aceita transformar a democracia num privilégio reservado apenas a quem pensa como eles.