A candidata à presidência da República francesa, Marine Le Pen, não gostou da pena de prisão e da consequente obrigação de porte de uma pulseira eletrónica a que foi condenada pelas instâncias judiciais, pelo que logo decidiu recorrer à «Cour de Cassation», diligência essa que suspendeu de imediato aquela decisão até que o mesmo Tribunal – cuja competência se prende exclusivamente com a análise da forma como a pertinente legislação foi interpretada e aplicada – dê o seu parecer.
Foi pois uma manobra processual legalmente prevista e autorizada, que responde à necessidade da ré de ´comprar tempo`, e lhe permite ir, sem delonga, para a rua, fazer a campanha que há muito estará programada, sem entraves de qualquer tipo- em particular o referido e sofisticado adorno em torno do pulso.
Da maior ou menor celeridade do mesmo tribunal dependerá assim a menor ou maior porção de tempo que lhe restará para conduzir e cumprir, pelo menos parcialmente, a maratona de preparação para o embate final no dia 18 de Abril de 2027.
Excluída que ficou a eventualidade da sentença judicial determinar o prolongamento da pena e do uso da dita pulseira para além de data das eleições para um sucessor de Emmanuel Macron, a ainda efetiva líder do «Rassemblement National» tentará pela quarta vez convencer uma maioria dos cidadãos-eleitores de que é ela a pessoa indicada para a reforma de fundo que os franceses ambicionam , especialmente evidente neste período de polarização e de aparente beco-sem-saída político-económico-social em que o País se encontrará.
O seu jovem delfim Bardella terá assim de aguardar, a partir deste Julho de 2026, cerca de nove meses, para então finalmente herdar das mãos da sua marraine – que então, ganhadora ou perdedora, deixará provavelmente de presidir ao partido que ela criou a partir do «Front National» inventado por seu pai Jean Marie – a responsabilidade de prosseguir o caminho traçado essencialmente por aquela dinastia partidária que parece ter sabido manter um sólido apoio popular entre os franceses, não obstante as inesperadas lombas e os surpreendentes desvios entretanto experimentados .
O que virá a acontecer no que a Marine Le Pen diz respeito é um mistério, pelo nível de ineditismo e as interrogações quanto à forma como gerir esta realidade perfeitamente anómala: seja pelo lado das instâncias oficiais que, de fora, controlarão o processo, quer da parte da candidata, que ignora a largura e profundidade da janela de oportunidade de que poderá gozar nesta longa etapa que antecede a realização daquele ato eleitoral.
Cada dia terá sua história, e esta imprevisibilidade não se afigura, em princípio, coisa boa para Marine. Qual será a dimensão do auxílio do seu delfim que, mesmo com algum passado vivido ao lado dela, carece obviamente de experiência política?
Da forma como se vai configurando o espectro geral das outras candidaturas, a indefinição e cinzentismo constituem a regra , sem sobressair alguém- exceto o tribuno e excessivo Mélanchon e o seu movimento da «France Insoumise» – que faça a diferença e suscite um genuino impulso coletivo a seu favor. Por outro lado, a solução avançada nas precedentes eleições presidenciais de uma bem sucedida congregação forçada de esforços- na segunda volta do ato eleitoral- de todos os opositores à candidatura apoiada pelo Front National/ Rassemblement National , apresenta-se hoje como dificilmente repetível: não só se registou já um entendimento de uma formação partidária de «direita» com o RN, como as restantes facções partidárias não parecem interessadas numa adesão a um qualquer projeto de candidatura que não ofereça, a comandá-lo, uma personalidade carismática e inspiradora respeitada pelos diferentes participantes em tal hipótese tática. Desde que o fenómeno Mélanchon se instalou no horizonte partidário, muitas têm sido as vozes que se ergueram a garantir a capacidade de federação indispensável para a necessitada «renaissance» – designação inclusive de um partido comandado por um ex- primeiro ministro de Macron – , mas nenhum desses senhores representa a surpresa e topete que o atual morador no Eliseu soube trazer para a cena política, quando iniciou a sua vitoriosa campanha para o primeiro quinquénio criticando frontalmente o instalado status quo partidário e a sua falta de fervor e imaginação.
Esta perspetiva sombria sobre o futuro político da França apenas reflete o caos generalizado de um grande país que está, sem ainda o admitir, no fim de um próspero ciclo histórico-político, limitando-se a sobreviver e ir navegando, tant bien que mal, em cada dia que passa. Essa realidade não tem, contudo e felizmente, causado substantivos danos no que se refere à presença e coerente discurso europeísta da França no contexto da sua política externa.
Como antes sugerido, achar-se a nível interno da República francesa – e, mais especificamente, no quadro de imagináveis cenários possíveis adentro do processo das suas próximas eleições presidenciais – , um esboço que seja de resposta aproximada e otimista sobre o seu amanhã, é presente envenenado que deixarei a quem possua essa extraordinária competência (e ingenuidade).
Será certamente mais fácil e menos penoso prever o percurso da pulseira eletrónica de Marine: a sua duração máxima no pulso de Madame nunca chegará, por si só, a impedir a sua candidatura. Devo confessar aliás, que não me inscrevendo embora no rol dos seus seguidores, admiro e respeito a sua fibra de lutadora.
Virá ela a ser a primeira mulher a habitar, por mérito próprio, o imponente Palácio do Eliseu?