Nunca como agora se falou tanto em candidaturas presidenciais com tanta antecedência e, sobretudo, com tanta dispersão. Não é apenas um caso de múltiplas vozes a quererem disputar o mesmo cargo. É a expressão de uma crise de representação, de partidos órfãos de rostos fortes e de independentes à procura de uma legitimidade que os partidos já não garantem.

Assistimos, nos últimos meses, a um desfile de intenções, pré-candidaturas, especulações e lançamentos de livros com mais ambição do que conteúdo. E a verdade é que esta avalanche de nomes, da direita à esquerda, dos que vêm da televisão aos que vêm da universidade diz-nos muito mais sobre a fragilidade do nosso sistema partidário do que sobre a vitalidade da nossa democracia.

É evidente que a figura do Presidente da República continua a exercer um fascínio quase místico. Representa estabilidade, prestígio, a última palavra em momentos de crise. Mas, para muitos dos candidatos anunciados (ou insinuados), parece representar também a última oportunidade de se manterem relevantes no espaço mediático. Uns tentam reinventar-se, outros procuram espaço num palco onde os partidos já não os convidam a entrar. E é precisamente aqui que reside a principal inquietação.

Como jovem que observa a política com preocupação e esperança em igual medida, não posso deixar de ver com algum ceticismo esta multiplicação de candidaturas desligadas de projetos consistentes, sem enraizamento partidário nem ligação clara a um rumo para o país. O afastamento dos candidatos em relação aos partidos, ainda que compreensível face à descredibilização das estruturas tradicionais, abre a porta a um presidencialismo assente em popularidade momentânea, em vez de uma candidatura ancorada em ideias.

Claro que há mérito na diversidade de opções e no princípio de que qualquer cidadão pode aspirar ao cargo máximo do Estado. Mas o excesso de candidaturas sem substância pode transformar o debate político num ruído constante, onde o que menos importa é a visão de futuro e o que mais importa é o protagonismo pessoal. E é aqui que a política se afasta das pessoas, sobretudo das mais jovens, que já sentem que a política institucional raramente fala a sua linguagem ou enfrenta os seus problemas.

Este cenário faz-nos pensar no papel do Presidente num país onde a confiança nas instituições se esgota, onde o discurso político parece mais centrado em episódios do que em estratégias, e onde a juventude, que devia estar a entrar na arena política, se limita a assistir à distância, descrente e cansada. Quantos dos atuais candidatos falam verdadeiramente aos jovens? Quantos compreendem que o futuro do país depende da capacidade de incluir os que hoje se sentem excluídos do debate político?

No fundo, a proliferação de candidaturas é o espelho de um país à procura de si próprio. Um país onde todos querem ser presidentes, mas poucos querem verdadeiramente representar. E onde o excesso de vozes, em vez de enriquecer a democracia, pode tornar ainda mais difícil escutar o essencial: o que queremos ser enquanto República.