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O presidente do Conselho Europeu e antigo primeiro-ministro foi dos primeiros a chegar à apresentação do livro que conta episódios dos seus governos, escrito por Mário Centeno, em parceria com o jornalista Filipe Santos Costa.
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▲O presidente do Conselho Europeu e antigo primeiro-ministro foi dos primeiros a chegar à apresentação do livro que conta episódios dos seus governos, escrito por Mário Centeno, em parceria com o jornalista Filipe Santos Costa.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

▲O presidente do Conselho Europeu e antigo primeiro-ministro foi dos primeiros a chegar à apresentação do livro que conta episódios dos seus governos, escrito por Mário Centeno, em parceria com o jornalista Filipe Santos Costa.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Centeno negou três vezes: não quer entrar no PS, não está a apresentar alternativa e não é "comparável a Passos Coelho"

A apresentação do livro "Contas certas" na Gulbenkian foi um reencontro do costismo. Mas sobretudo palco para Mário Centeno rejeitar ambições políticas com salvaguardas que deixam tudo em aberto.

Mais parecia o primeiro grande encontro dos antigos membros dos governos de António Costa. O próprio ex-primeiro-ministro foi dos primeiros a chegar, arrumando-se rapidamente na segunda fila do auditório da Gulbenkian, para assistir o mais discretamente possível à apresentação do livro “Contas certas” de Mário Centeno — onde é muitas vezes referido e nem sempre com elogios. A intensificação da intervenção pública do autor relançou-o como uma hipótese para um futuro Governo do PS, mas Centeno fez quase como Pedro e negou três… hipóteses: não tem no horizonte filiar-se no partido, não está a apresentar uma proposta política e não é comparável a Pedro Passos Coelho.

Mas o evento da tarde desta sexta-feira teve momentos em que chegou também a parecer o retrato da fila dos potenciais sucessores à liderança de José Luís Carneiro no PS. Duas mesas à porta da sala serviam de balcão de venda de livros e o líder do PS pôs-se na fila, dois lugares à frente de Duarte Cordeiro, que aguardava pacientemente pela sua vez. Por agora, apenas para comprar o livro do antigo colega de Governo e também pai do sócio e administrador financeiro da sua empresa, Tiago Centeno.

Mais atrás estava Marta Temido, a antiga ministra da Saúde a quem Costa chegou a entregar o cartão de militante do PS no palco de um congresso do partido, lançando-a de imediato para a fila de possíveis futuros líderes. Centeno não tem esse cartão e nem parece interessado em adquiri-lo.

LUSA

Ao lado de Carneiro, o independente Centeno pareceu tão embaraçado quanto o líder do PS quando os jornalistas lhes perguntaram pela militância partidária — condição para poder ser líder. Carneiro, que um dia já disse que teria gosto em acolher Centeno como militante do partido que lidera, agora empurrou o assunto para o lado: “Esse é um assunto que diz respeito ao Mário“. O mais que lhe deu foi uma caneta do PS para que Centeno autografasse o exemplar que acabara de comprar.

Ao seu lado, Centeno fazia o sorriso amarelo que normalmente acompanha a resposta às perguntas a que não se quer responder. No final da sessão, acabou por ser mais claro nas declarações aos jornalistas, para afastar das suas ambições aquela que mais lhe apontam — sobretudo quando parece estar a seguir à risca a cartilha dos que querem contar no tabuleiro. Qual? Fazer comentário semanal; lançar um livro meio memórias/meio biografia; jurar a pés juntos que o reaparecimento no espaço público — com comentários, críticas e até propostas alternativas — não tem segundas intenções. Sempre com um estratégico “neste momento” pelo meio para, entre todas as garantias, deixar a porta aberta.

O modelo não é muito diferente do que tem sido seguido por Passos Coelho, mas Centeno rejeita a comparação. “Não há nenhuma comparação possível entre uma situação e outra”, afiançou aos jornalistas. “Essa comparação é despropositada porque o nosso passado é completamente diferente”, afirmou, apontando para a sua “dedicação à vida académica”, que garante “não ter paralelo com nenhuma figura” e “em particular com Pedro Passos Coelho.”

“O meu contributo é aportar à discussão o meu conhecimento, só isso.” Mais uma garantia de Mário Centeno que também diz que “não gostava nada de ser primeiro-ministro“. E que não tem no seu “horizonte” inscrever-se no PS ou sair da “vida privada”. Mas entre todas as salvaguardas, soltou um “neste momento”: “Eu entrego-me muito às coisas que faço e, neste momento, não tenho essa visão no meu horizonte, nem sequer sair da minha vida privada que neste momento assumi e que é ao que me vou dedicar, partilhando todas as semanas, sempre que for necessário, aquilo que é a minha visão do mundo e, em particular, de Portugal.”

Mais uma pergunta ao antigo ministro e mais uma vez a garantia de que quando fala no futuro não é no seu que está a pensar. “Neste momento o país tem um ciclo político em curso, esse ciclo político tem que fazer o seu curso. A minha opinião é que as legislaturas são para cumprir. Cumprir uma legislatura significa também dialogar, negociar”, disse, exortando os atuais líderes políticos a fazerem-no, a encontrarem as suas próprias geringonças, ou “mesas de três pernas” — como prefere chamar à solução política de Costa em 2015.

Uma nova “mesa de três pernas”

É preciso “encontrarmos a mesa de três pernas que, em cada momento, permite fazer o país avançar. Não vai ser entregue pelo IKEA, nem vem com as instruções de montagem, é preciso construí-la.” Quando questionado se o Governo não o tem feito, Centeno estende a crítica e diz que “nenhum dos agentes políticos tem feito por isso”.

Quanto ao ensaio sobre o país com que conclui o livro de mais de 500 páginas, o antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal diz que pode ser entendido como uma “proposta política”, mas “não corporizada” na sua pessoa, nem endereçada a quem quer que seja: “Não é corporizada em ninguém e posso garantir que muito menos em mim.”

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Durante a apresentação, perante uma sala cheia (e com muitas figuras do costismo), Centeno quis falar apenas de dois dos políticos presentes, para lhes agradecer: um antigo líder do PS e o atual. Mas foram referências — nomeadamente a Costa — desproporcionalmente curtas face à intensidade da relação. A Costa agradeceu por o ter “colocado nestes preparos”. A Carneiro disse apenas que lhe reconhece “o esforço”, mas como a todos os outros líderes políticos, “porque hoje não é fácil olhar para todos estes problemas”. Ponto final.

Vendeu a necessidade de um político com trabalho feito, “preparação”, para chegar lá. “Não há coragem política, há preparação. A coragem sem preparação aproxima-se da imprudência”, disse o ex-governador que tantas vezes puxa do seu currículo académico para se comparar a quem se dedica exclusivamente à política — veja-se na comparação com Passos, por exemplo.

“As responsabilidades do político são de preparar o futuro antes dele chegar”, disse ainda, apontando aos que “governam e não veem o futuro chegar e ainda se espantam quando ele chega.” A tirada saiu-lhe quando falava no seu próprio património, a que tem regressado com especial veemência quando os tempos apertam a saúde das finanças pessoais e públicas. “As contas certas são mais do que saldos orçamentais. São a recuperação da confiança”, afirmou.

Na sala estava um sem-fim de antigos governantes dos vários tempos de Costa à frente da governação. Estava o seu sucessor e colega de Centeno nas Finanças, João Leão, Pedro Siza Vieira (Economia), Ricardo Mourinho Félix e António Mendonça Mendes (secretários de Estado da equipa das Finanças), Ana Mendes Godinho (Segurança Social), José António Vieira da Silva (também da Segurança Social), Manuel Caldeira Cabral (Economia), Pedro Adão Silva (Cultura), Nelson Souza (Planeamento), Mariana Vieira da Silva (Presidência), Matos Fernandes (Ambiente), Tiago Antunes (Assuntos Europeus), Gabriela Canavilhas (Cultura), Eurico Brilhante Dias (que foi secretário de Estado da Internacionalização e é líder parlamentar do PS) e André Moz Caldas (que foi seu chefe de gabinete no Ministério e é agora porta-voz do PS).

Estavam também figuras de outras áreas políticas, como David Justino — que, no livro, é protagonista na história de um convite secreto feito a Centeno, quando ele ainda era um desconhecido do público –, o presidente da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Macedo, João Maria Jonet, e o antigo deputado comunista Duarte Alves. Um elenco variado que pode vir a ser valioso se um dia chegar “o momento”. Talvez, como nas Escrituras, quando e se o galo cantar.

[Dois meses após o desaparecimento, e já depois de o genro, Raymond Quendoz, lhes ter anunciado que ia divorciar-se dela, os Silva Pais recebem finalmente notícias da filha. Annie está bem. Recusa dar detalhes sobre o seu paradeiro mas há cada vez mais evidências de que fugiu do marido para se juntar à revolução cubana. E, se isso aconteceu, uma coisa é certa: Annie tem de ter tido a ajuda e o aval do próprio Fidel Castro. Resta apenas saber porquê. Já pode ouvir o segundo episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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