Agora que vivemos em pleno Estado de Emergência, importa perceber como aqui se chegou, se outro tipo de actuação poderiam o Governo e demais autoridades ter adoptado e que lições já se podem retirar desta pandemia.

Em 11 de Janeiro de 2020 é reportada, pelos media chineses, a primeira morte atribuída à Covid-19. Nove dias depois são confirmados os primeiros casos fora do território chinês, no Japão, Coreia do Sul e Tailândia e ao décimo dia confirma-se o primeiro caso num americano de trinta anos, retornado da sua viagem a Wuhan (cidade com cerca de 11 milhões de habitantes).

Mais de um mês depois, a 14 de Fevereiro, França anuncia a morte de uma turista chinesa de 80 anos por coronavirus, a primeira na Europa. Cerca de dez dias depois Itália assiste a um grande surto de casos por infecção de coronavirus, passando de menos de cinco para mais de 150 e as autoridades italianas “fecham” 10 cidades na região da Lombardia.

Entre 14 de Fevereiro e 3 de Março, surge o primeiro caso confirmado em Portugal, a administração Trump solicita ao Congresso norte americano mais de mil milhões de dólares para responder à epidemia, no Irão emerge um segundo foco do vírus, a América Latina e a África Sub-Saariana reportam os primeiros casos de coronavirus e o número de casos um pouco por toda a Europa dispara.

Perante tudo isto o que fez o Estado Português? Essencialmente esperou e quando actuou, actuou lentamente. Fica patente pela linha temporal aqui apresentada, que houve tempo, muito tempo, para preparar e para perceber quais as medidas mais eficazes a serem tomadas. Mas se o príncipio de Peter ou da Incompetência ocorre em qualquer organização, o mesmo é mais visível, sério, relevante e tem consequências mais graves no Estado. Diz o princípio que uma pessoa numa organização será promovida até ao seu nível de incompetência. Poucas dúvidas restam de que toda esta situação pôs a nú a impreparação do Estado, de vários dirigentes, mas nomeadamente do Governo e do Presidente da República.

Vejamos: se nas nossas casas tivermos uma infiltração que vem da casa do vizinho, podemos agir de duas formas: ou estamos constantemente a gastar recursos na reparação dos  danos causados ou procuramos resolver o problema na origem. O coronavirus era um inimigo externo, só poderia entrar em Portugal vindo de fora. Assim, a primeira e mais eficaz medida teria sido o controlo das fronteiras, com limitações nas viagens com fins turísticos e de lazer e, para os outros casos, a obrigatoriedade de quarentena pelo período adequado e a monitorização de certos parâmetros de saúde à entrada. Ao contrário, assistiu-se ao nosso Presidente da República, a 25 de Fevereiro, dizer que o encerramento de fronteiras era impossível e não era a solução para o coronavirus. Tomada esta medida, apenas após o surgimento do primeiro caso de infecção, deveria tomar-se a medida seguinte: mobilização de recursos económicos, humanos e mediáticos para a protecção focada dos grupos de risco, que são quem mais está sujeito aos efeitos deste virus.

Deste modo tinha-se evitado o pânico e os danos à economia que todas as medidas avulsas que foram sendo tomadas provocaram.

Contudo, houve ainda outra consequência de toda esta má gestão da situação.

Não sei se por medo, se por propensão natural de quem nos governa para o intervencionismo, se por ambos, foi decretado a 18 de Março o Estado de Emergência. Não pretendo agora analisar se o mesmo se justificava ou não, mas antes manifestar a minha preocupação sobre o eventual aproveitamento que tal medida suscitará. Uma vez ultrapassada esta pandemia, será certo que as forças políticas de inclinação estatista e colectivista logo se aprontarão a mostrar os benefícios, as vantagens e a eficácia que o maior poder e intervenção estatal teve na resolução do problema e na salvaguarda dos cidadãos.

Na verdade, este é o ciclo pernicioso do Socialismo. Antes que qualquer crise se abata sobre a sociedade, o regime socialista em vigor, ao não promover a criação de riqueza e a prosperidade, retém a economia e empobrece o país. Quando a crise chega, os efeitos são devastadores e a impreparação do país é notória. Perante essa realidade, a resposta é, e de certa forma tem de ser, mais intervenção e mais socialismo iniciando-se novo ciclo de proporções cada vez maiores. Não defendo, que num país com o nível de intervenção do Estado na economia como o nosso, que nesta fase e bem assim na fase transitória, o Estado não tenha de intervir para, no fundo, corrigir os seus próprios erros ou os efeitos das suas acções negativas passadas. Contudo, uma vez passadas estas fases e entrando numa fase de acalmia, temos de cuidar da economia, deslocando o centro do poder do Estado para o indivíduo e para as empresas para que o país cresça, prospere e ganhe mais resistência e resiliência a uma próxima crise.

Para se avaliar o estado do nosso sistema de saúde bastará ter uma ideia do número de camas de cuidados intensivos por cada 100.000 habitantes. Enquanto os EUA têm 35 camas, a Alemanha 29, Itália 13, Coreia do Sul 11 e Portugal tem apenas 4, o menor número da União Europeia.

Outro dado interessante é, por exemplo, compararmos a despesa per capita em saúde da Holanda com a de Portugal. Embora a proporção das despesas em saúde seja da ordem dos 8% do PIB na Holanda e 6% em Portugal, o que significa 25% mais do primeiro face ao segundo, em termos absolutos, os Países Baixos despendem em saúde em torno de 3.700 euros per capita enquanto Portugal regista apenas 1.200 euros per capita, ou seja, cerca de três vezes menos.

Quanto mais liberal for um país, mais próspero será e quanto mais próspero for, maior capacidade terá de fazer frente às crises sejam elas financeiras, económicas ou pandémicas como é o caso.

A resposta foi virulenta, esperemos que o futuro seja antiviral!