Toda a história da humanidade tem sido construída sobre um pavimento da imposição moral. Em qualquer canto da nossa existência coletiva podemos identificar a institucionalização de algum tipo de “pureza da alma” para justificar a estipulação de obrigações de conduta. Basta iniciarmos pelo período da Idade Média, no qual, através de entidades como a Inquisição ou sistemas como a Monarquia, durante muito tempo, se infundiu o mal-estar, o medo, a culpa, como estratégias de controlo social alargado. Todos tinham de cumprir os preceitos religiosos da Igreja e se submeter às vontades tiranas do Rei, porque se tratava de ordens divinas e, portanto, límpidas, demasiado poderosas para se rejeitar sem consequências.

Mais tarde, já perto do nosso tempo, os regimes autoritários do século XX demonstraram os efeitos de uma lavagem societal mascarada de cidadania requintada e decorosa. O bom cidadão era aquele que seguia o Estado a qualquer custo, sem questionar, acreditando na boa-fé dos governantes e defendendo os valores do patriotismo com unhas e dentes contra quem os pudesse alienar e derrubar. Este “quem” seriam, no fundo, os others, portanto, todos os outros que, na sua mera condição de alteridade, significavam já uma ameaça a conter. Uma vez mais, na sequência de uma doutrina de duvidosas autenticidade e honra, sobressai uma tentativa prolongada de as estabelecer como os ditames de avaliação da qualidade de cada ser humano. Qualquer tipo de transgressão seria uma desfaçatez, qualquer negação da ordem conduziria a um caos profundo, que teria de ser evitado a todo o custo – realmente, a todo o custo.

Na atualidade, também nos confrontamos com diversas forças que tentam fixar o significado e a aplicabilidade da moralidade. Por serem tantos e de tal modo variados entre si – começando por movimentos políticos e terminando nas redes sociais digitais – não têm o poder de influência que outros grupos no passado, como referido, revelaram concentrar. Ainda assim, padecem da mesma enfermidade despótica e enviesada, tentando convertê-la em bondade ou, até, em martírio.

É curioso, de resto, como alguns destes agentes de “propaganda do bem” se apoiam no progresso enquanto forma de justificar a sua credibilidade e a higiene exímia que atribuem a cada ação realizada – como se a ciência não fosse, aliás, a instituição que mais provas dá do seu trabalho digno e rigoroso e, precisamente por isso, também a mais criticada ou mesmo desprezada por aqueles mesmos agentes. A auto-estima e o auto-cuidado, a empatia e a colaboração, a positividade ou as competências tecnológicas são exemplos de atitudes e valores que, em dose sustentável, promovem indivíduos mais atentos, interventivos e felizes; contudo, a cautela, infelizmente, sempre foi preterida em relação à emoção de um bom menosprezo do adversário e a prudência quanto a estes temas amiúde se perde nas confusões entre a estrada da beira e a beira da estrada.

O problema dos moralistas em excesso é que esperam esse mesmo equilíbrio e moderação quando, um dia, calhar de a população acordar e as suas ações estiverem sob escrutínio. Ao partirem para cima dos opositores, atacando a alegada sujidade do seu caráter, realizam uma espécie de pacto com os seus prosélitos: «Eu defendo-vos sempre, em troca da nossa própria proteção por vós em momento crucial». Mas este tipo de investida recorda-me a Terceira Lei de Newton: Para toda a ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade. Como se diz vulgarmente, violência gera violência e, portanto, não se pode esperar outra coisa de quem tenta agressivamente fazer valer as suas cosmovisões e decretar, generalizadamente, o seu modo de vida.

Não se pode esperar que os cidadãos estejam constantemente alheados, na sua rotina de esforço e de gestão emocional e do orçamento familiar, e que, de repente, se levantem e aplaudam quem se acha na condição de superioridade. Primeiramente, porque os sistemas de garantias sociais – sim, aqueles mesmos que os moralistas tão bem demonizaram – têm permitido há muito uma liberdade individual consonante com uma diversidade cultural. Somos todos muito diferentes entre nós e apresentamos preferências distintas quando se trata de optar por quem queremos que nos governe. E, talvez mais importante, por outro lado, é que foi exatamente o avivar das consciências que levou à queda de todo o tipo de protagonistas cujo valor simbólico residia somente na resignação e na aceitação indiferente, por parte do povo, das suas prescrições de moralidade.

Diante de vários amanheceres através dos quais descobrimos o já conhecido – que é muito fácil afirmar como se deve fazer, mas efetivamente difícil realizá-lo – podemos continuar surdos e mudos às dissonâncias cognitivas ou tentar fazer diferente à nossa maneira: refletindo e decidindo com base em opções viáveis, estudadas, críveis e apresentadas imparcialmente, ao invés de permanecermos atrás dos bodes expiatórios que têm servido para justificar as maiores confusões nos estados de alma.