Gostaria que ficassem claros dois pontos prévios antes de seguir com a minha argumentação. Em primeiro lugar, este artigo não é uma apologia do fim do ensino superior nem constitui um desmerecimento do seu valor enquanto instrumento de promoção de uma maior reflexão crítica sobre a sociedade. Aliás, uma das minhas características das quais mais me orgulho é incorporar aquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu apelidaria de “trajetórias improváveis”. No meu agregado familiar, sou a única pessoa com um diploma universitário, e na minha família mais alargada continuo na definição de caso raro. Em segundo lugar, este também não é um texto de justificação do voto nos partidos de índole extremista, nacionalista ou semelhantes, afirmando-se como uma simples tentativa de explicação de um fenómeno que não é nem novo nem exclusivo da realidade portuguesa.
A meio do parágrafo anterior referi identificar brio no meu atributo de diplomado. Um bom fator que sempre me conduziu a valorizar uma carreira educativa longa, portanto, que durasse para lá da escolaridade obrigatória, foi a postura da minha mãe. Apesar de não ter o seu “canudo”, como a própria diria, sempre fez questão de advogar que obter esta certificação era o caminho para uma vida bem-sucedida em termos de estabilidade financeira e sucesso profissional. No entanto, ainda que, de facto, um documento atestando uma especialização abra muitas portas a quem o possui, não poderá encerrar outras, criando autênticos e profundos fossos sociais? Não será este um pensamento predominantemente do passado – claro, não muito antigo, porém, já desarticulado com os tempos atuais?
Quem apresenta este ponto de vista é Michael J. Sandel, Professor de Filosofia norte-americano, no seu livro A Tirania do Mérito: O Que Aconteceu ao Bem Comum?. Ao analisar as aparentes vantagens e as reais contradições da meritocracia, Sandel (citando também outros autores, como o economista francês Thomas Piketty) chega a uma conclusão deveras interessante: que o sistema meritocrático tem sido um dos grandes perpetradores da assinalável desigualdade de benefícios, poder e reconhecimento entre licenciados (e outros com formações mais elevadas) e quem não possui um curso de ensino superior. Ao se atribuir um estatuto de quase intocabilidade a este sistema de créditos baseado num alegado esforço objetivo, separa-se quem chega aos privilégios de quem não os alcança.
Não vou discutir todas as críticas que se pode apontar a uma meritocracia pura e dura, a qual se fundamenta numa igualdade de oportunidades que olvida vantagens iniciais de percurso. Irei antes abordar as consequências de se assumir que esta ambicionada igualdade de oportunidades deve ser o motor para o sucesso de uma sociedade. Ora, se o sistema de recompensas está disponível, na sua totalidade, a quem se esforça e atinge o seu topo, é natural que quem lá chega sinta que é merecedor de todos os louvores e vantagens que essa posição lhe possa dar. O problema vem a seguir, do lado dos “perdedores”. Esta visão de que quem se esforça e completa o percurso é vencedor e de que os demais são os derrotados que merecem as consequências negativas da sua suposta incapacidade corrói – recorrendo a uma expressão frequente de Sandel – a colaboração e a solidariedade entre as pessoas. O ensino superior é a instituição simbólica da meritocracia que se transformou, mais do que num fomentador de competências para um mundo desenvolvido, um marco de arrogância de quem olha de cima e desvaloriza as bases trabalhadoras da sociedade.
Talvez este seja um elemento que nos permita compreender melhor porque os eleitores têm derivado para determinadas forças populistas. Os partidos de esquerda, que até ao século XX apresentavam-se como os defensores dos mais pobres e menos qualificados, têm cada vez mais perdido essa capacidade de representação, pois têm-se tornado, de forma relativamente irónica, agências de promoção da meritocracia. Ao defenderem determinadas causas muito segmentárias – as quais, sem embargo, têm muita importância ao nível das liberdades de expressão e de identidade –, e ao considerarem que a diminuição da discriminação é suficiente para assegurar bem-estar, têm-se esquecido daquelas que são as vítimas de uma globalização dos mercados que levou a um enriquecimento progressivo dos mais ricos. A classe social continua a ser a maior condicionante a uma vida digna e justa e a elitização da esquerda, numa lógica simplista de anulação dos handicaps à partida, conduziu a uma conquista dos públicos graduados e a um afastamento contínuo daqueles que não tiveram a hipótese de concluir um curso de ensino superior.
Este cenário é visível naquilo que tem sido a história política de países como os Estados Unidos da América, o Reino Unido ou a França, por exemplo. Forças partidárias como o Partido Democrata, o Partido Trabalhista e partidos da esquerda francesa, outrora defensores da honra e do valor das classes operárias, têm assumido nas últimas décadas, de maneira mais tácita ou mais explícita, que os eleitorados que agora pretendem conquistar são outros, portanto, os mais formados. Isto produziu um rancor naqueles que são os esquecidos da globalização, a quem a estima social tem sido cada vez mais negada, gerando revolta. Não admira, destarte, que os trabalhadores menos qualificados se têm virado para outras opções, de caráter mais nacionalista, nativista ou populista. Portugal, à parte as suas nuances, não é exceção. A esquerda portuguesa – PS e à esquerda do PS – tem tido muitas dificuldades em comunicar para um conjunto vasto da população que, auferindo baixos salários, mas sobretudo não reconhecendo a eficácia do elevador social que outrora a educação superior proporcionou, tem encontrado em discursos que atacam as elites e tentam preservar violentamente uma suposta nacionalidade “pura” a solução para a recuperação da estima perdida ao longo do tempo.
Num momento em que assistimos aos debates e à campanha destas próximas eleições legislativas, seria bom que as forças democráticas refletissem sobre as suas falhas e se sentassem à mesa com o povo – sim, aquele mesmo povo que come o pão mergulhado na sopa e consiste na força que tem assegurado o desenvolvimento do país. Mais do que qualquer elite meritocrática de políticos e especialistas que, apesar de toda a sua qualificação, não nos têm governado em direção a uma sociedade mais coesa e solidária.