Espantam-me sempre as galeotas, vivamente coloridas, e sempre fortemente históricas, que me é dado olhar quando passo por lá, pelo pavilhão das Galeotas, no Museu de Marinha, em Belém. Fi-lo há dias, a fim de assistir a um seminário dedicado ao tema «Os 1700 anos do Concílio de Niceia» que, obviamente, nos fez recuar – aos participantes nessa sessão – até ao século IV, e recordarmos os tempos em que – dado o state of the art da arte de navegar nessa altura – viajar por via marítima era sempre uma aventura para os embarcadiços – fossem eles tripulantes, meros viajantes, emigrantes, ou então pessoas levadas pelo intuito de missionação que demandavam terras só atingíveis por mar. Nessa ocasião temporal, o inimigo vindo do mar era, ou o próprio mar quando parece irritado com o mundo inteiro, ou uma frota inimiga. A hipótese de um conjunto de cidadãos – de nacionalidades diversas – reunidos numa flotilha a fim de, em conjunto, manifestarem a intenção de demoverem as autoridades de decisões por elas tomadas, inscrever-se-ia tão só no contexto lúdico de uma imaginativa criação teatral. Sem mais.
Com efeito, não consta nos livros de história que, nesses anos de muitas incertezas políticas e de utilização descomplexada da força para dirimir as questões do foro interno, tenha alguma vez realmente sucedido um espetáculo tão curioso e surrealista como o que diante dos olhos de milhões de telespectadores, no século XXI, se desenrolou.
Por mais ou melhores meios de navegação que esse aventureiro grupo conseguisse mobilizar naquela longínqua época, não é difícil admitir-se que as embarcações oficiais, com a sua por vezes impressionante coorte de possantes remadores, acabassem por destroçar rapidamente essas descontentes gentes: a remota hipótese teórica de haver sequer um prévio e demorado diálogo entre os 2 lados em confronto – até pela provável inexistência de qualquer pressão vinda do exterior com vista a pressionar as entidades oficiais no sentido de acolherem, parcialmente que fosse, as reivindicações daquele grupo de homens e mulheres -, conduziria inevitavelmente ao afundamento do projeto dos rebeldes, senão mesmo das próprias plataformas marítimas onde então se encontrassem.
Agora, tantos séculos passados, a situação não é contudo tão diferente como de imediato se suporá, pelo menos no que respeita ao resultado do empreendimento da tão badalada flotilha: é verdade que apenas o facto de a sua saga ser conhecida pelo mundo inteiro, ou seja, sobretudo em Portugal – constitui ,em si, uma pequena vitória , até porque terá servido de pretexto para uma maior veemência dos protestos de igual timbre nas grandes aglomerações humanas , em especial no ainda hoje chamado Ocidente e na América latina.
Todavia, mesmo nesses lugares – e descontando os militantes mais radicais – , à medida que se foram conhecendo as reações de Telavive – nomeadamente dando acesso à flotilha , ou parte dela, em porto fora do perímetro físico da declarada « zona de guerra», a fim de descarregarem os víveres que traziam que seriam entregues (pelos israelitas) aos palestinianos – , a resposta negativa desses cidadãos feitos marinheiros fez tombar em águas profundas a ideia de que, mais do que um determinado (e por mim certamente entendível ) posicionamento político , eram imperiosas razões de ordem humanitária que tudo comandavam.
Com efeito, em função da sua dupla recusa, a saber, a de não entregarem os bens alimentares destinados àquelas populações esfomeadas, e a de não quererem inverter marcha, em vez de pretenderem seguir viagem até à faixa de Gaza, as forças israelitas aproveitaram a deixa e intercetaram sem reservas quase todas as embarcações e seus ocupantes, detendo inclusive e nomeadamente quatro portugueses , que terão sido transportados , com as centenas dos restantes camaradas de viagem, para um estabelecimento prisional no deserto do Negev, onde se pensa que estarão pouco tempo antes de serem enviados «back to where they belong».
Admito que para a envolvida ativista do Bloco de esquerda – que quis claramente situar a sua prioridade politica, secundarizando uma qualquer participação – como única deputada dessa formação partidária- na campanha eleitoral autárquica, o ideal seria porventura só ser convidada a abandonar o país depois do próximo dia 12. Até porque a oportunidade deste one-woman show pode não ter sido do agrado de alguns dos seus camaradas de partido, bem como de parte do eleitorado dessa formação partidária: esteve com a jovem e irrequieta Thunberg na mesma bolha mediática e talvez no mesmo barco, mas não é líquido que esse seu batismo nesta ação e experiência internacional lhe tenha sido de grande proveito.
Em puro contraste com essa conseguida mediatização – já que, no seu caso, não beneficiam senão de uma modesta publicidade nacional -, devo contudo confessar que, quando abandonei o Pavilhão e já conhecendo todos os desenvolvimentos em torno da flotilha, a imagem que se me impôs na mente foi a dos agradáveis passeios feitos, a bordo de uma das airosas e alegremente decoradas galeotas ali expostas, pela nossa família real.