A vida mental é um espaço atarefado onde se juntam o ontem, o agora mesmo e o futuro; o que se sente, tudo o que borbulha e se imagina, mais a fantasia; aquilo que se discorre, se empreende e se constrói; as relações de cada momento e todas as outras que se misturam com elas; a memória e o sonho; os medos, a garra e a paixão; o atrevimento, o desaforo e a vergonha;  a morte e a vida; as picuinhices da nossa sensibilidade e os rasgos da clarividência; a maldade e a beleza; o desassossego e o êxtase; o pânico e a tranquilidade A vida mental está, em todos os momentos, de forma infatigável, a produzir conhecimento e a sintetizá-lo em sabedoria, depois de o compreender. Mas, para que a vida mental se transforme em saúde mental, precisa que se pense. E que se fale, sempre , em tempo real: se fale para dentro (e se medite) e se fale para fora (e do conflito e das dúvidas que ele traz, se chegue à simplicidade e a planaltos mais altos, para se ver melhor). A saúde mental pressupõe que se ponha verdade na vida. Fosse ela assim, e a vida seria um espaço ruidoso e solarengo e arejado e alindado, como deve ser. E livre! E em paz! Mas, às vezes, é só uma despensa onde as coisas, desarrumadas, se acumulam antes, ainda, de as virarmos do avesso e de as catalogarmos, uma por uma, para termos uma ideia sobre elas. É muito fácil desencontrarmos a vida mental da saúde mental. O topo de gama daquilo que se fala sobre elas são as emoções. O que traduz o quanto estamos na idade da pedra da saúde mental.

Parece-me óbvio que, diante da fantástica complexidade que temos cá dentro, as crianças tenham mais saúde mental que os adultos. Porque têm menos coisas a amontoar-se dentro de si. Porque são muito mais verdadeiras com que se passa com elas. E porque pedem desculpa, pedem ajuda e têm menos ressentimentos e mais gratidão. Já quando vivemos as coisas mas as reprimimos e silenciamos, a ansiedade é uma espécie de febre dos pensamentos a que fugimos e das palavras que guardamos. Quanto mais ela nos dói, mais entaramelados nós ficamos e mais desamparados e desarrumados, de seguida. Para convertermos vida mental em saúde mental precisamos de intuir, de meditar, de falar, de não fugir à relação, aos conflitos, à humildade e à verdade, e de nos darmos tempo. Mesmo que haja momentos em que a arqueologia (porque, às vezes, a vida, quando se devia traduzir em histórias, reduz-se a vestígios e, nessas circunstâncias, há escavações e descobertas sempre a decorrer) se junte aos estiradores (onde se desenha, projecta e planeia), porque imaginar fica sempre no dia seguinte, o que nos faz chegar às novidades antes de lá se colocar um pé, sequer.

O compromisso fundamental da vida mental para connosco é, de forma infatigável, pôr-nos problemas. Se bem que a nossa relação com eles, na maior parte das vezes, passe por evitá-los. A vida insiste em ensinar-nos; e nós, teimosamente, renunciamos a aprender. O que gera entre a vida que temos e a vida que aceitamos uma bruma que, em vez de fazer de nós pessoas luminosas, boas e atentas, nos torna murchos, magoados e opacos, a ponto do nosso olhar dizer por nós que a vida custa, cansa ou dói. Não estando, propriamente, ao nível de um romance, mas de uma ordem de serviço, duma circular ou dum aviso de pagamento (desenxabido, sem charme e sem calor). Quando falta vida à vida; e falta surpresa, espanto, entusiasmo, admiração ou arrebatamento; e falta conversarmos com ela, vivemos a vida em “modo de sobrevivência”. Não somos, abertamente, doentes mentais, mas estamos longe de transformar vida mental em saúde mental. Em modo de sobrevivência, não estamos nem mortos nem vivos. Já quando temos com a vida “conversas a doer”, a nossa ressurreição dá-se todos os dias. E ela vive-se  com a delicadeza com que se estima e se cuida duma namorada.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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