Bom, comecemos, talvez, por admitir que as dores de barriga não apareceram por estarmos ao computador durante várias horas, e que não ficámos constipados por estar ao telemóvel a falar com um amigo…certo? De igual modo, seria desonesto não admitir que já sentimos a visão turva sem motivo aparente, dores de cabeça súbitas, sem qualquer explicação imediata, ou dores no pescoço ou nas costas sem termos feito qualquer esforço físico. Trata-se apenas de sintomatologia espontânea, não-relacionada? Ou…será que a mãe era capaz de ter razão?

Recuemos, primeiro, até uma época mais “desafogada”, em que as redes sociais ainda eram nascentes, a tecnologia primitiva, e o consequente uso de ecrãs muito mais limitado. Pensemos numa altura antes da exposição crónica a ecrãs. Numa época em que nem tudo era um anúncio, e nem tudo era desenhado para nos manter “agarrados”. Ocorria o lançamento do primeiro iPhone, o Facebook e o YouTube traçavam o início da sua ascensão astronómica, e o Myspace, o Hi5 e o MSN Messenger dominavam o panorama social e comunicativo entre as camadas mais jovens.

O ritual era, se não igual, bastante idêntico – chegarmos a casa, tratarmos dos afazeres diários, e sentarmo-nos em frente ao computador. Iniciada a sessão, estávamos oficialmente conectados ao mundo digital. Brevemente chegaria a hora de jantar (ou, para os mais demorados, a hora de ir dormir), e terminávamos sessão, lançando um adeus, por ora, ao que ficava do outro lado do ecrã. Este ato de conexão à internet – o logging on – , permitia, de modo bastante diferenciador, transitar entre o real e o digital. Hoje em dia, porém, esta barreira que separava o digital do físico esbateu-se até um nível que torna as duas realidades praticamente indistinguíveis – irónico que, numa era de conexão sem precedentes, estejamos progressivamente mais desconectados. Não explorarei os impactos sociais desta mudança de paradigma nesta peça – para isso, deixo em referência o excelente artigo “Desconectados”, da autoria de Nuno Medeiros Carrapatoso, publicado neste mesmo jornal.

Esta mudança de panorama convida à reflexão: nesta altura em que havia uma fronteira tão nítida entre estes dois mundos, o mundo parecia menos preocupado com o efeito da exposição a ecrãs. Estarão as pessoas a tornar-se niquentas, picuinhas? Ou terá o problema escalado seriamente em gravidade, incitando uma resposta subconsciente de preocupação ordens de magnitude maior?

Comecemos por analisar os impactos físicos, tangíveis, que podemos esperar do uso crónico de ecrãs, especialmente no toca a dispositivos móveis: por adaptação da postura corporal a estes ecrãs, o mais frequente é angularmos a nossa cabeça e pescoço para melhor enquadrarmos o ecrã na nossa visão – a postura mais comum envolve uma angulação de cerca de 30º, o que se traduz num peso constante sobre a coluna cervical de cerca de 18kg. Por outras palavras, é o equivalente a termos, de modo constante, uma criança de 3 a 5 anos assente nos nossos ombros – em termos fisiológicos, colocamos a saúde da nossa coluna em risco, trocando a degeneração nervosa por likes e a escoliose por Reels.

Mas façamos de conta, por um momento, que estas “posições viciosas” podem chegar, até, a ser confortáveis. Neste caso, ficamos tendencialmente mais inativos, sedentários, por estarmos congelados, a ser constantemente bombardeados por remessas estimuladoras de dopamina. Não será de todo surpreendente, então, revelar que o uso crónico de ecrãs está direta e intrinsecamente ligado a um aumento do sedentarismo e, por conseguinte, da obesidade e aparecimento de outros fatores de risco cardiovasculares. E que não se pense que, tendo em conta o anteriormente descrito, seríamos responsáveis o suficiente para fazermos pausas frequentes, ou consumirmos este conteúdo praticamente interminável com o mínimo de segurança em mente: claro está que a saúde oftalmológica está “pelas ruas da amargura” com este grau de exposição descontrolada a estímulos luminosos intensos, sem descanso – podemos contar, com toda a certeza, com uma diminuição da acuidade visual, assim como dores de cabeça intensas e frequentes (mas vá, podemos sempre ter esperança de que “toupeira rabugenta” seja a próxima trend).

De mãos dadas com estes problemas andam a diminuição dos tempos médios de atenção e de resistência à frustração, disrupções dos ciclos de sono pelo aumento da exposição à luz azul, assim como um risco aumentado de sintomatologia ansiosa e/ou depressiva e um aumento da propensão para a adoção de outros vícios prejudiciais (e.g. tabagismo, alcoolismo, toxicodependência). Parece mau o suficiente? Esperemos até conhecer a pièce de résistance dos efeitos adversos da exposição prolongada a ecrãs: o stress. Potenciado por todos os outros efeitos até agora descritos, assim como pela constante (e crescente) polarização e inflamação emocional por cortesia das redes sociais, o stress, vivido de forma intensa e constante, presenteia-nos com um maravilhoso leque de surpresas: aumenta a probabilidade de eventos cardiovasculares, por aumento direto da tensão arterial e frequência cardíaca em contexto crónico; suprime o sistema imunitário, levando a uma maior susceptibilidade a doenças e a uma recuperação mais demorada e menos eficaz, e agrava patologias gastrointestinais como úlceras gástricas, doença de refluxo gastroesofágico ou síndrome do intestino irritável, por exemplo. Tudo isto e muito mais envolto num lindo embrulho de envelhecimento e mortalidade precoces.

“Até aqui tudo bem”, poderão dizer alguns. “Um adulto que pague os seus impostos bem pode decidir como viver a sua vida, não?” dirão outros. E o que dizer acerca daqueles que ainda não têm poder de decisão sobre a sua vida, a quem a escolha do ambiente que os cria é deixada nas mãos dos “responsáveis”? Bom, quanto aos pequenos, excelentes notícias: apenas têm de se preocupar com uma queda drástica na performance escolar, alterações comportamentais, diminuição das capacidades comunicativas e de aprendizagem, e défices irreversíveis no seu neurodesenvolvimento, assim como desenvolvimento social – não parece pêra doce, mas vale bem a pena em troca de uma boa dose de shorts diários.

Com tão idílico futuro pela frente, que mais dizer? Ecce Homo! Um Homo Digitalis, chamemos-lhe assim, que, ao que parece, de Sapiens terá pouco ou nada. Uma criatura corcunda, de pobre visão, em perpétua alienação do mundo real, saltitando de pensamento em pensamento – nenhum deles profundo, nenhum deles produtivo. Entre sessões de Reels e stories, tiramos um tempinho para consumir a nossa dose diária recomendada de anúncios e propaganda inflamatória. Entre baforadas, olhamos para o chão (o pescoço há muito que não levanta aos céus) e contemplamos como será o mundo quando formos velhos, com 50 anos – não que importe, pois a meta é bem mais precoce, e a paragem cardiorrespiratória já nos olha com carinho, desejosa de nos levar para o grande Além, onde podemos “scrollar” sem limites. Estamos perante uma autêntica torre de Babel, mas desta vez de nosso próprio fabrico.

Duvido que tenha sido este o objetivo inicialmente, quando éramos mais um hominídeo, entre tantos, a lutar pela dominância e sobrevivência da nossa espécie. Os cães, nossos fiéis amigos, fizeram uma decisão enquanto espécie há milhares de anos: sobrevivência através da subserviência. Porém, penso que nem eles conseguirão entender a razão de vivermos para ser servos destes retângulos luminosos que nós próprios criámos.

Portanto, e com crença de que ainda vamos a tempo, aprendamos o que é o equilíbrio, e utilizemos o digital para aquilo em que nos beneficia, não para aquilo em que nos limita. Ainda temos uma reputação enquanto espécie inteligente e, aparentemente, temos de a defender, nestes tempos mais do que nunca. Ah, e dêem lá razão à mãe. Ela afinal até sabia do que falava.