Séries e filmes antigos relançados, ou com sequelas décadas depois do lançamento original. Músicas, consideradas clássicas por muitos, remasterizadas vezes sem conta. Modas de vestuário centradas no revivalismo (ou, por vezes, revisionismo) do que se vivia em décadas passadas. Videojogos e livros inspirados em clássicos, ou até mesmo reeditados e lançados pela enésima vez. De facto, não faltam exemplos de um sentimento quase axiomático – se a terceira década do século XXI não se define por uma identidade sólida e própria, certamente se caracterizará por uma tendência estatisticamente sem precedentes de regressar às décadas anteriores.
Porém, desenganemo-nos: não vivemos numa era dourada do revivalismo, até porque, e de acordo com organizações “preservacionistas” como o The Internet Archive, a maioria deste conteúdo, considerado “antigo” ou “clássico”, está em sério risco de se perder para sempre. Na verdade, a maioria do que recebemos ou consumimos hoje em dia é uma recriação, ou readaptação do conteúdo original (e a medo de alongar o tema, deixemos a questão da arte e das suas reproduções para outras núpcias).
A pergunta subjacente é óbvia: porque é que, então, estaríamos, enquanto sociedade, interessados em consumir ou abraçar aquilo de que dispomos há anos, se não décadas? Mais uma vez, os números não mentem: o crescimento económico que deriva diretamente de nos vender exatamente o mesmo contéudo (por vezes sob disfarces diferentes), quer por vendas diretas, quer por criação de novos mercados de nicho ou postos de trabalho, tem sido de um ritmo exponencial nos últimos anos. Não é por acaso que aquela série clássica voltou aos serviços de streaming, ou que aquele filme dos anos 80 de repente tenha visto uma sequela lançada há um par de anos – numa era de conteúdo fast food, tudo serve para ganhar um dinheiro igualmente rápido.
Contudo, não finjamos que é uma jogada puramente económica, um “ups” financeiro que desembocou num dos setores com maior crescimento, sobretudo no que comporta o conteúdo multimédia. Na verdade, há uma razão relativamente simples (quase demasiado simples) para querermos mais e mais deste tipo de estímulos: o nosso cérebro adora-os, extrai deles uma resposta poderosíssima.
A nostalgia, que de acordo com o consenso atual da fisiologia e psicologia evolutivas, provavelmente se tratará de uma manifestação dos nossos mecanismos evolutivos de coping, coesão social e reforço positivo, terá sido, provavelmente desde sempre, um dos pilares da nossa existência enquanto hominídeos: a procura de modelos e referências de conforto apazigua-nos, e permite que possamos não só processar acontecimentos de forma mais eficaz, como ajuda a uma mais fácil coesão social, através da partilha de memórias – afinal, a tradição oral conta-se como uma das mais antigas invenções humanas.
Sob um olhar mais cuidado, os achados são ainda mais surpreendentes: quando submetidos a um EEG (ou eletroencefalograma, um exame que mede a atividade elétrica a nível cerebral), os indivíduos a quem fossem apresentados estímulos nostálgicos exibiam um nível de atividade cerebral aumentado em todas as bandas, especilamente quando de cariz audiovisual (e.g. uma música da nossa infância, um filme que marcou a nossa vida). Para além do mais, determina-se, até, que estes estímulos possam reproduzir uma resposta analgésica percetiva, por tamanho aumento da atividade do tálamo (uma estrutura que funciona, essencialmente, como um “retransmissor” de sinais sensitivos e motores), resultando numa perceção menor de estímulos dolorosos. E, por fim, consideremos o principal interessado nesta história: a dopamina. Este neurotransmissor, que desempenha funções cruciais nos circuitos da recompensa e motivação, vê a sua produção aumentada em múltiplos aquando de um estímulo nostálgico, fazendo com que nos sintamos bem connosco próprios, promovendo a nossa auto-imagem, confiança e predisposição para interação social.
Se tudo isto nos faz sentir bem, e está carregado de benefícios, porque não cedemos aos impulsos e mergulhamos constantemente nesta sensação prazerosa de reviver os “tempos idos”? Porque não ter o nosso cérebro incessantemente a marinar numa sopa de dopamina, vivendo permanentemente do saudosismo, quando tudo era “simples” e as responsabilidades eram menores? Porque, e à semelhança do que acontece em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a vivência persistente e exclusiva das emoções positivas não configura um cenário utópico – antes pelo contrário.
Nisto, a literatura científica é igualmente consensual: o sobre-estímulo dopaminérgico, especialmente por períodos prolongados, pode e tem efeitos adversos consideráveis sobre a nossa atenção, memória (quer a curto, médio ou longo prazo), concentração, impulsividade e tolerância à frustração, tornando-nos mais impacientes, irritáveis, desatentos, incapazes de criar memórias concretas e, por conseguinte, de atribuir valor emocional às mesmas – deixamonos “apagar”, a vaguear naquilo a aque chamamos de “nevoeiro cerebral” (não será isto semelhante àquilo de que nos queixamos, afogados num mundo de conteúdo de consumo rápido, de modas e notícias “vai-e-vem”, de ecrãs sobrecarregados de anúncios e conteúdos hiperestimulantes?). Quando colocamos aquilo a que nos referimos como “os óculos cor-de-rosa”, estamos sujeitos a remover da nossa perceção os aspetos negativos da época, correndo o risco de tomarmos como idílicos costumes ou comportamentos não só possivelmente inadequados, como potencialmente prejudiciais, física e psicologicamente.
Portanto, e pesados os pratos da balança, permitamo-nos, de vez em quando, a oportunidade de andarmos para trás no tempo, de forma consciente e ponderada, para que possamos seguir em frente. Estejamos atentos às armadilhas que nos colocam, para patologicamente vivermos e estarmos expostos àquilo que não pedimos. E, acima de tudo, revisitemos com alegria e carinho o passado, mas não nos esqueçamos de, durante essa jornada, estarmos presentes.