A geração que vai chegar a Marte já nasceu. Não querendo ser milenarista, ou seja, não adiantando uma data precisa, podemos antever com realismo que nos próximos decénios o Homem pisará solo marciano, como outrora fez no lunar. Se este último feito foi um salto gigante para a humanidade, aquele significará um voo destinado unicamente aos deuses. Contudo, se tal façanha se imporá como um marco histórico, talvez apenas comparável com o nascimento de Cristo, quedará curto quando comparado com o que se sucederá nesse futuro imediato. O planeta vermelho está destinado a ser habitat do ser humano.
A 20 de junho de 1982, no seu discurso no final do secundário, Jeff Bezos defendeu que o futuro se encontrava em colónias espaciais em redor da Terra, tornando o nosso planeta uma “enorme reserva natural”. Toda a indústria pesada e poluente ficaria situada nesses reservatórios, onde seriam tratados e trabalhados os materiais necessários à nossa subsistência. À Casa Mãe ficaria destinado a habitação e o lazer. Contudo, o primeiro e o mais ferrenho defensor da exploração e colonização de Marte foi sem dúvida Elon Musk. Desde os tempos da Mars Society até à criação da SpaceX, o seu grande objetivo é a humanidade chegar ao quarto planeta e fixar-se de forma permanente. Ambos os multimilionários concordam com os dados, de resto, consensuais: os recursos da Terra são finitos e, acima de tudo, estão a escassear drasticamente. Apesar dos incríveis avanços na eficiência e criação energéticas, o planeta vai-se desgastando com uma inevitabilidade matemática. Tornar a vida multiplanetária, usando a expressão de Musk, apresenta-se não só como uma grandiosa aventura, grandiosa demais para ser ignorada, mas também e principalmente como uma necessidade. Ninguém discute – obviamente que temos sugado o planeta: mercê de um crescimento exponencial no número de indivíduos, fruto de uma melhoria progressiva e consistente do nível de vida em todos os continentes habitados, fruto, por sua vez, de descobertas revolucionárias em matéria de produção e alocação de energia e matérias-primas, bem como de progressos constantes na medicina, consumimos, como nunca espécie alguma consumiu, as riquezas disponíveis do planeta. Graças ao nosso cérebro e dinamismo, crescemos em número e elevamos a nossa esperança média de vida, tornando-nos capazes, inclusivamente, de apreciar o luxo. As fomes, se não estancaram definitivamente, diminuíram drasticamente, fazendo com que partes significativas da população mundial abandonassem ano após ano as insalubridades da pobreza e da miséria, e adquirissem habitação digna e meios próprios de locomoção; muitos de nós vão de férias para outros países, veem garantidos altos níveis de educação para os seus descendentes e recebem bons cuidados de saúde. Tudo isto à custa da contínua exploração dos bens naturais planetários. À exceção de algumas tribos e de alguns loucos tribais, ninguém quer viver ou voltar ao passado. E, se o preço para “salvar o planeta” significar perder qualidade de vida para nós e para os nossos, abrir mão das nossas – arduamente ganhas – comodidades e direitos, então, acredito, a população humana, maioritariamente, irá exclamar – que se lixe o planeta! Mais de 99% das espécies que alguma vez existiram à face da Terra extinguiram-se, o que significa, traduzindo para uma linguagem simples e direta, que o destino de qualquer espécie é a extinção. Ao contrário do que os ecologistas e os verdes (e respetivos ativistas, mais ou menos fanáticos) defendem, para que as atuais espécies sobrevivam, necessitam do auxílio do Homem capitalista. O ser humano, ao invés de ser o demolidor e o caçador, o parasita, será o grande salvador da vida na Terra. Como? Viajando e fixando-se em Marte. Mercê de um deus sumamente bom ou da evolução, consoante o preconceito adotado, possui uma virtude epistemológica que o separa dos restantes nós da árvore da vida. Será o único ser do Universo conhecido a ter efetuado um corte ontológico nas grossas correntes da decadência ditada pela lei natural. O Homem está destinado a ser imortal.
Este novo dado deve refletir uma nova perspetiva sobre o problema da emergência ecológica e da urgência em resolver as alterações climáticas. Além de obliterarem o papel que os combustíveis fósseis tiveram – e têm – para a humanidade, os ambientalistas radicais não parecem importar-se com a gravosa situação que uma súbita mudança de paradigma representaria para muitos milhões de trabalhadores e suas famílias – e para as gerações futuras. O retorno a um estado de miséria, desemprego, desilusão e desespero, seria o destino para uma parte significativa da humanidade. Com Marte em vista e ao alcance, podemos gerir com maior prudência e calculismo científico a transição energética. Afinal de contas, há mesmo um planeta B.
Acredito que a certos atores políticos e associativos poderá trazer vantagens um ambiente alarmista sobre o problema. Ao longo da História não faltaram aqueles que se aproveitaram do medo e do desconhecimento para conseguirem os seus objetivos inconfessáveis. Querer ferir o capitalismo (e a democracia e o nosso way of living) de forma velada através de uma suposta preocupação ecológica é de mau tom e denota desonestidade intelectual. Podemos observar o desfraldar das bandeiras vermelhas e das bandeiras arco-íris nas suas ruidosas manifestações. Fica registado. Depois do fracasso da luta de classes, a esquerda (pelo menos, certa esquerda) renova o credo e comparece para a batalha armada com imigrantes e ideologia de género, e vociferando em nome da Natureza.
Marte contém, com certeza, dificuldades várias e agudas. Com uma temperatura que num dia bom alcançará os zero graus Celsius, poderá descer durante a noite a uns intimidantes e letais 127 graus negativos. Além disso, a atmosfera apresenta grandes concentrações de dióxido de carbono, o que combinado com uma mínima pressão atmosférica, sufocaria um astronauta em poucos minutos e faria o seu sangue entrar em ebulição. Todavia, terraforming Mars, ou seja, operando uma radical transformação no planeta para atingir condições habitáveis, é um conceito apelativo para vários cientistas – e, como vimos, para alguns empresários de sucesso. A viagem espacial expõe dificuldades particulares, uma delas sendo os nove meses de duração (em contrapartida com os três dias necessários para viajar até à Lua). Malgrado, se pensarmos em termos de gestação humana, é uma curtíssima duração tendo em conta a felicidade futura.
Musk trocaria todos os seus assets pela possibilidade de morrer em Marte (embora não na aterragem, evidentemente). É o próprio que o afirma. Como já referi, acredita que o desafio de alcançar e começar a colonizar o red planet está ao alcance da humanidade num relativamente curto espaço de tempo. A sua empresa SpaceX está a trabalhar arduamente com vista ao objetivo – para o empreendedor não é uma questão de if, mas uma questão de when. Se será uma tripulação da SpaceX, da Blue Origin ou da NASA, ou até uma tripulação conjunta a aterrar primeiro em Marte, tem pouca relevância para o caso. Pelos dados que possuímos atualmente, quem parece ter vantagem é o CEO da Tesla: tem os meios, a vontade e a crença. Acredito que poderá morrer feliz.
PS: aparentemente, Musk irá sair – ou já o fez- da órbita de Trump. O boato, a confirmar-se, é uma ótima notícia – poderá retomar o seu grandioso projeto. Entretanto, é favor de não o cancelarem.