A minha entrevista no Telejornal ao secretário-geral do PCP desencadeou protestos do partido, uma campanha de intimidação e queixas aos reguladores. Tendo sido prestados aos reguladores todos os esclarecimentos solicitados e tendo os reguladores emitido as suas deliberações, chegou o momento de me pronunciar em público.
Comecemos por recordar o que efetivamente aconteceu e expor o que foi explicado aos reguladores. A entrevista em causa decorreu no quadro de uma série de entrevistas com os líderes partidários com representação parlamentar. Esta entrevista específica tinha previsto vários temas. Tendo em conta o impacto do conflito da Ucrânia na atualidade nacional, as importantes decisões relacionadas com este assunto a tomar na nova legislatura pelo governo e pelo parlamento que sairiam das eleições legislativas 2025, e as persistentes dúvidas sobre a posição do PCP a respeito desse conflito, este foi eleito tema principal.
Antes da entrevista, indiquei a Paulo Raimundo que a duração seria de dez minutos e que o tema seria a Ucrânia. Expliquei-lhe previamente que havia alguns equívocos a esclarecer na posição do PCP sobre este conflito, pelo que iria fazer perguntas no sentido de clarificar de uma vez por todas a posição do Partido Comunista Português.
A entrevista começou nestes pressupostos, com uma pergunta relacionada com as recentes posições do PCP na Assembleia da República sobre a Ucrânia. As perguntas seguintes tiveram em geral resposta, ainda que com duas exceções, que não perturbaram a entrevista. Quando no entanto perguntei se o PCP se opunha ao envio de armas para a Ucrânia, uma questão importante para o plano da entrevista mas que me parecia de resposta simples, fui inesperadamente confrontado com uma sucessão de respostas que me pareceram ambíguas, pouco claras e sobretudo contraditórias.
Vejamos alguns exemplos:
JRS – Quando diz que nós é que somos responsáveis pela guerra porque estamos a alimentá-la ao enviar armas, no fundo está a dizer aquilo que sempre disse o PCP: que é contra o envio de armas para ajudar a Ucrânia a defender-se. É isto?
PR – Não. O que eu estou a dizer é que nós estamos perante uma guerra que devia ter sido evitada desde o princípio.
A resposta literal à pergunta que foi feita, a de se confirmava que o PCP “é contra o envio de armas para ajudar a Ucrânia a defender-se”, foi “não.” Portanto, a crer nesta resposta, o PCP “não” era “contra o envio de armas para ajudar a Ucrânia a defender-se”. E a seguir o entrevistado mudou de ângulo, falando sobre a necessidade de se ter evitado a guerra. À luz de anteriores posições do PCP sobre este assunto, considerei evidentemente que o entrevistado se tinha expressado mal e não valorizei esta resposta, ciente de que haveria tempo suficiente para o entrevistado a corrigir e clarificar. A oportunidade surgiu pouco depois.
JRS – Mas deixe-me só esclarecer isto: opõe-se ao envio de armas à Ucrânia?
PR – Não. O que está em decisão hoje é o seguinte: é se o caminho é um caminho de mais armas e mais armamento até à escalada final, até à destruição final, ou então se o caminho é mais paz, mais cooperação e não trocar salários, pensões, abonos de família, direitos por dinheiro para as armas. Essa é que é a grande questão.
Não só o entrevistado não corrigiu a afirmação original de que o PCP “não” era “contra o envio de armas para ajudar a Ucrânia a defender-se”, como, ao ser-lhe de novo perguntado se “opõe-se ao envio de armas à Ucrânia?”, a primeira coisa que respondeu foi reafirmar: “Não.” Ou seja, literalmente “não” se opunha. Mas as declarações imediatamente seguintes, questionando qual o melhor caminho a seguir, deixavam entender que se opunha, embora sem o dizer claramente, o que me levou a tentar confirmar que esta interpretação, que me parecia a mais natural mas não deixava de ser uma interpretação minha, era a correta.
JRS – Opõe-se então ao envio de armas para a Ucrânia. É isso?
PR – Não. O governo português tomou uma decisão, tomou uma opção: foi enviar armas. Havia várias formas de solidarizar-se com o povo ucraniano, decidiu alinhar neste envio de armas. Este envio de armas o que se está a traduzir é o que estamos a ver.
Mais uma vez, o entrevistado respondeu “não” quando se lhe perguntou se “opõe-se então ao envio de armas para a Ucrânia”, mas logo a seguir remeteu para a decisão do governo português e indicou que o envio de armas era uma “opção”, embora houvesse “várias formas” de solidariedade que seriam melhores para não acontecer “o que estamos a ver”. Ou seja, depois de mais uma vez dizer literalmente que “não” se opunha ao envio de armas, as frases seguintes voltam a sugerir que se opunha, embora com maior ambiguidade pois, ao falar em “opção”, até abrem a porta à interpretação de que o envio de armas é uma opção na mesa, ainda que haja opções melhores. Perante esta nova direção, e convencendo-me de que o entrevistado estava a exprimir-se mal, tentei de novo obter uma resposta clara e sem contradições.
JRS – E opõe-se ao envio de armas, é isso?
PR – Quer dizer, o governo português entenderá aquilo que…
JRS – Não, o PCP… o senhor opõe-se ao envio de armas? É isso que eu estou a… a fazer a pergunta.
PR – Não. Aquilo que eu acho que é fundamental para todos é que se todos empenhassem a sua força, as suas vontades e as suas capacidades na construção da paz nós tínhamos evitado milhares de mortes.
Aqui, repetindo o “não”, o entrevistado mudou de ângulo por duas vezes, a primeira para remeter de novo para o entendimento do governo português sobre essa matéria, a segunda para falar sobre a necessidade de haver um empenho para a paz. Estas diferentes respostas criaram-me perplexidade, porquanto o entrevistado persistia em responder diretamente que “não” e depois dizia coisas que iam em direções diversas, umas vezes mudando de ângulo, outras sugerindo que se opunha sem o afirmar claramente, outras dizendo que o envio de armas era uma opção embora houvesse opções melhores para impedir o que está a acontecer. Tudo isto tornava a posição do entrevistado contraditória e ambígua, pelo que procurei sucessivas clarificações que resolvessem as contradições.
JRS – Portanto, opõe-se ao envio de armas à Ucrânia para se defender…
PR – Não. O que eu me oponho é que o caminho perante o que está a acontecer seja enviar mais armas. O que nós precisamos é de enviar mais paz.
A resposta voltava a começar com um “não”, mas logo a seguir o entrevistado disse enfim que “o que eu me oponho é que o caminho perante o que está a acontecer seja enviar mais armas”. Apesar de estar ainda perante uma contradição, uma vez que a afirmação de que se opunha ao caminho de enviar mais armas fora feita imediatamente a seguir a um novo “não” opor-se ao envio de armas, decidi dar como boa a afirmação de que o entrevistado se opunha e fiz, já não uma nova insistência, mas a conclusão, e tentei passar à pergunta seguinte.
JRS – Portanto, opõe-se ao envio de armas. Esse… esse…
PR – Fique com a sua, eu fico com a minha.
Ia passar à pergunta seguinte mas fui interrompido no início da respetiva formulação pela afirmação do entrevistado “fique com a sua, eu fico com a minha”, que deixava pressuposto que a conclusão de que o entrevistado “opõe-se ao envio de armas” afinal não era uma reprodução fiel da posição deste, mas uma mera interpretação “sua” (minha, JRS) – e ainda por cima inexata, pois não seria a “minha” (do entrevistado, a posição que realmente importava esclarecer). Ora, para quem estava a fazer uma entrevista em busca de uma clarificação das posições do PCP sobre a Ucrânia, esta nova ambiguidade introduziu mais uma vez incerteza na clarificação, o que acabei por explicar abertamente dentro da própria entrevista.
JRS – Eu só estou a tentar esclarecer, porque uma das queixas do PCP é justamente que não conseguia explicar devidamente a sua posição. Estou a tentar clarificar essa posição. É uma pergunta direta para a tentar obter.
A constante contradição nas réplicas a esta pergunta específica, com o entrevistado a responder diretamente à pergunta com um “não”, assim literalmente negando que se opunha ao envio de armas, para a seguir contraditoriamente dar a entender coisas diferentes, levaram-me mesmo a dizer a dado momento: “não estou a entender…”
É importante compreender que, neste ponto, fiquei também sem perceber se a ambiguidade nas respostas, e sobretudo as contradições, resultavam de uma recusa intencional do entrevistado em ser claro ou se resultavam antes de uma dificuldade em o entrevistado se exprimir com clareza. Inclinando-me para esta segunda hipótese, insisti, formulando sempre a mesma pergunta num esforço de eu próprio ser claro para tentar obter uma resposta clara.
Quando o entrevistado expressou de forma finalmente clara e sem ambiguidades que se opunha ao envio de armas à Ucrânia, tentei ainda escrutinar a coerência da posição expressa, mas não foi possível passar às perguntas e temas seguintes porque o tempo esgotou-se.
Perante isto, o PCP emitiu um comunicado e interveio no X, Instagram, Facebook e Tik Tok com vídeos editados a dizer que a entrevista foi uma “provocação” resultante de um “exercício de ódio”, e anunciou que iria acionar “todos os meios legais”. Tal traduziu-se nas queixas aos reguladores. Vamos então ver as análises feitas pelos reguladores, a Provedora do Telespectador, o Conselho Deontológico e a ERC.
A primeira constatação é que nenhuma regra deontológica foi violada na entrevista ao secretário-geral do PCP, ao contrário do que se tentou a todo o custo fazer crer. O Conselho Deontológico foi, a este respeito, muito claro. Após revelar ter ouvido todas as partes e visionado “repetidas vezes” a entrevista, este órgão concluiu que “não houve nenhuma irregularidade deontológica”. Sobre este ponto, de longe o mais importante em todo este episódio, estamos conversados.
A segunda constatação é que o facto de eu ter feito várias vezes a mesma pergunta, o verdadeiro problema desta entrevista para muita gente, foi liminarmente ignorado pelos reguladores. A razão é simples: os reguladores sabem que, embora possa ser desagradável, a insistência numa pergunta até obter uma resposta é uma prática jornalística perfeitamente legítima. Na verdade, ela é praticada nas mais prestigiadas organizações jornalísticas internacionais de referência e, saliente-se, ensinada nas respetivas ações de formação.
Veja-se, por exemplo, esta entrevista da BBC ao governante que viria a ser líder do Partido Conservador britânico. Outros exemplos da BBC poderiam ser dados. O recorde ocorreu no programa Today, na BBC Radio 4, onde John Humphreys chegou às 30 interrupções numa entrevista com um político. Naturalmente que se sabe que uma parte do público fica desconfortável com esta técnica, mas mesmo assim ela é ensinada nas ações de formação e praticada em antena porque se considera que, entre as principais funções de um jornalista nas entrevistas políticas, está o apuramento da verdade, a clarificação das ideias e o escrutínio da coerência.
Ademais, a ERC reconheceu que “apesar da sucessiva repetição da mesma pergunta, a análise permitiu verificar que foi respeitada a liberdade de expressão do entrevistado, tendo o entrevistador dado condições para que Paulo Raimundo respondesse”. Portanto, sobre esta questão estamos também conversados.
Falemos agora sobre as questões levantadas pelos reguladores. Comecemos por um ponto abordado por dois reguladores, a Provedora do Espectador e o Conselho Deontológico, mas ignorado pela ERC, presumivelmente por ter compreendido que este ponto não estava assente em terreno seguro: o de que o “não” do entrevistado talvez fosse um bordão, uma espécie de muleta retórica que o entrevistado usaria inconscientemente. Este ponto é importante e conduzir-nos-á à questão central na entrevista, como veremos, pelo que me alongarei nele.
A primeira coisa que se pode dizer a este propósito é que o uso de bordões por parte de políticos profissionais, ainda por cima muletas retóricas constituídas pela palavra “não”, é, a ter acontecido, algo de inusitado e muito arriscado numa entrevista política, uma vez que os bordões são evidentemente suscetíveis de com facilidade plantar equívocos no entrevistador e no público.
Um entrevistador parte do princípio de que as palavras significam o que significam e, numa entrevista em direto em que tem de tomar decisões instantâneas em função do que ouve, tende a acreditar que quando um entrevistado, sendo um político profissional e líder de um importante partido, perante uma pergunta que na prática requer uma resposta de “sim ou não” responde diretamente com um “não”, essa resposta significa não, não significa sim. A ter sido de facto um bordão, não se pode imputar ao entrevistador a responsabilidade pelos equívocos que o bordão do entrevistado, e sobretudo um bordão assente na palavra “não”, suscita. Um entrevistador não tem culpa se um político profissional usa muletas retóricas que induzem em erro.
Mas que o “não” constituía um bordão é apenas uma interpretação, note-se. É importante não negligenciar o facto de que, na entrevista em apreço, o entrevistado apenas começou as suas réplicas com um “não” quando a pergunta era especificamente sobre se se opunha ao envio de armas para a Ucrânia, não tendo começado mais nenhuma outra resposta da mesma maneira. Este facto cimentou em mim a convicção de que aquele “não” não constituía um bordão, pois se o fosse teria sido indistintamente usado noutras respostas – e não foi. Assim sendo, e como era minha obrigação à falta de indicações em contrário, interpretei sempre os sucessivos “não” do entrevistado como significando o que a palavra de facto significa em português: não.
O que concluíram os reguladores sobre este ponto? O Conselho Deontológico afirmou que “entendemos a argumentação de José Rodrigues dos Santos sobre a utilização de bordões por parte de um líder político, mas parece-nos percetível e claro o recurso de Paulo Raimundo ao uso repetido do termo Não como ‘muleta’ de linguagem”. Já a Provedora do Espectador declarou que eu era “suficientemente experiente para ter entendido como bordão o ‘não’ que repetidamente Paulo Raimundo usou antes das respostas”, dando assim como facto demonstrado que se tratava de um bordão, coisa que o Conselho Deontológico não fez – apenas disse “parece-nos”. Para todos os efeitos, esta conclusão implica que se um entrevistado diz repetidamente “não” quando afinal quer dizer “sim”, o entrevistado não tem qualquer responsabilidade nos equívocos que o seu bordão suscita e a culpa é de algum modo do entrevistador.
Não consigo acompanhar esta conclusão, como se deve calcular. Aliás, após visionar várias vezes a entrevista estou agora até convencido precisamente do contrário, isto é, de que o “não” não era nenhum bordão, mas uma negativa intencional. O que me leva a concluir isto? A primeira indicação já a apresentei: se Paulo Raimundo usa “não” como muleta retórica, então porque a usou apenas nas respostas à pergunta específica sobre se se opunha ao envio de armas para a Ucrânia? Porque não a usou também noutras respostas? O Conselho Deontológico parece ter levado em consideração este problema ao não dar a teoria do bordão como provada, apenas como provável, enquanto a ERC parece ter visto tanta incerteza nesta questão que optou por nem sequer a mencionar.
Mas esta teoria do bordão enfrenta mais dois problemas de monta. A dado ponto, concluindo eu que o entrevistado se opunha ao envio de armas para a Ucrânia e tentando passar adiante na entrevista, o entrevistado travou-me ao dizer “fique com a sua, eu fico com a minha”, indicando assim que essa minha conclusão era inexata, como já vimos. A não ser que se entenda que a afirmação “fique com a sua, eu fico com a minha” é também um bordão, esta resposta sugere uma efetiva intencionalidade nos sucessivos “não” do entrevistado àquela pergunta específica.
Finalmente, observando outras entrevistas e debates envolvendo Paulo Raimundo, em momento algum me apercebi que usasse “não” como muleta retórica. A não ser que se sustente que Paulo Raimundo apenas usa “não” como bordão nas entrevistas comigo e em resposta exclusiva àquela pergunta específica – o que, convenhamos, desafia a credulidade – então temos forçosamente de concluir que os sucessivos “não” das respostas dele à minha pergunta não eram bordões, mas negativas intencionais. Em suma, não só me parece estranho responsabilizar o entrevistador pelos equívocos criados pelas muletas retóricas de um entrevistado como, com toda a probabilidade, nem sequer o “não” se tratava de uma muleta.
Chegamos enfim à questão central: se o “não” não era uma muleta retórica mas uma negativa intencional, e se o entrevistado após dizer “não” dava a seguir a entender que sim, como compreender essa contradição? Para responder a esta questão, temos de entender o plano desta entrevista. Ao planificar uma entrevista política no Telejornal, é normal um entrevistador tentar perceber se existem áreas de sensibilidade no entrevistado. Se existirem, o escrutínio exercer-se-á sobre elas, como é evidente.
Ora, olhando para o PCP, salta à vista que a sua posição quanto à Ucrânia constitui uma área de particular sensibilidade. Saliente-se que não estão em causa as opiniões do PCP sobre a Ucrânia, quaisquer que elas sejam. Na minha análise editorial, o ponto realmente frágil nas posições do partido está no seu encadeamento lógico. Dito de outro modo, a fragilidade parece estar na coerência. Digo “parece” porque, ao ser escrutinado, o partido pode evidentemente dar uma resposta que resolva essa incoerência e se revele afinal perfeitamente coerente, assim desfazendo equívocos. Como o determinar? Só conheço uma maneira numa sociedade democrática: fazendo as perguntas.
Assim sendo, a parte relativa à Ucrânia no plano da entrevista a Paulo Raimundo foi concebida como um escrutínio à coerência das posições do PCP sobre esse conflito. Vários caminhos podiam ser percorridos para escrutinar essa coerência. Não podendo evidentemente percorrê-los todos, pois as entrevistas no Telejornal têm constrangimentos de tempo, escolhi como caminho a questão do envio de armas para a Ucrânia.
Quando, após as insistências que já vimos, ficou enfim claro que o entrevistado se opunha a esse envio de armas para ajudar a Ucrânia a defender-se da invasão russa, seguiu-se uma segunda pergunta importante nessa sequência de escrutínio:
JRS – E essa é uma posição universal ou específica para a situação da Ucrânia?
PR – É uma posição universal, é uma evidência.
Ora, se (a) o PCP se opõe ao envio de armas para a Ucrânia para se defender de uma invasão, como o entrevistado acabou por assumir, e se (b) essa oposição não é “específica para a situação da Ucrânia” mas é “uma posição universal” e consequentemente aplica-se a todos os casos de invasões, como o entrevistado também assumiu, então (c) qual a posição do PCP sobre o envio de armas ocidentais no programa Lend-Lease (programa semelhante ao que está a ser feito para a Ucrânia) para ajudar a União Soviética a defender-se da invasão nazi?
Este foi apenas um exemplo. Há outras variantes para a mesma pergunta (c), designadamente saber qual a posição do PCP sobre o envio de armas soviéticas para ajudar os aliados da URSS (como nas guerras da Coreia ou do Vietname) ou para ajudar a luta pela autodeterminação dos povos colonizados. O que aqui está em causa, como bem se compreende, é unicamente o princípio e a respetiva coerência, ou seja, é a “posição universal” de se opor ao envio de armas a países que lutam pela sua independência e autodeterminação.
Se a resposta do entrevistado a (c) for que se opõe às ajudas militares dadas aos aliados dos soviéticos, aos povos que lutam contra o colonialismo e à URSS invadida pelos nazis, então está em perfeita consonância lógica com as posições assumidas em (a) e (b) e a posição do PCP é coerente. Se a resposta a (c) for que nesses casos apoia o envio de armas para ajudar os aliados da URSS, os povos colonizados e a própria URSS, então há uma quebra de lógica no raciocínio subjacente a (a) e (b) e a posição do PCP é incoerente. Qual foi a resposta efetiva do entrevistado à pergunta (c) quando ela lhe foi colocada? Não respondeu. Entretanto o tempo esgotou-se.
Em suma, esta parte da entrevista estava concebida como um escrutínio à coerência do PCP nas suas posições sobre a Ucrânia. Voltamos então à questão atrás deixada em aberto: como se explica, neste contexto, que a resposta sistemática à primeira pergunta, “é contra o envio de armas para ajudar a Ucrânia a defender-se?”, fosse “não”? Por que razão, querendo o entrevistado dizer sim, com tantas oportunidades não tenha havido uma única vez em que tenha respondido simplesmente “sim”?
Refletindo sobre esta questão a posteriori, levanta-se a possibilidade de que o entrevistado estava consciente da incoerência subjacente às suas posições e que era precisamente por isso que dava respostas contraditórias e ambíguas, evitando assim definir-se. Mas isto é apenas uma possibilidade, e só a exponho aqui porque esta questão é central para o problema de determinar se o “não” era ou não ignorável. Ora se o “não” constituía uma negativa intencional, como agora me parece claro, então não era ignorável – e eu não o ignorei, como era meu dever.
O que nos leva ao segundo ponto abordado pelos reguladores, o de a entrevista ter apenas tocado num único tema. A ERC concluiu que este facto levou a uma “diminuição do pluralismo”, pois havia a “legítima expectativa” de que esta abordasse outros temas, enquanto a Provedora do Espectador e o Conselho Deontológico concluíram que, por esse motivo, não se alcançou o objetivo da entrevista.
Vamos por partes. Em primeiro lugar, a possibilidade de se abordarem vários temas numa entrevista de noticiário começa por estar relacionada com o tempo disponível. O Conselho Deontológico mostrou ter compreendido perfeitamente esta questão quando observou que no Telejornal foram feitas “entrevistas demasiado curtas”. Com efeito, é próprio das entrevistas num noticiário serem em geral curtas, uma vez que o Telejornal não é a Grande Entrevista e tem fortes constrangimentos de tempo, o que torna muito normal essas entrevistas só abordarem um tema. Já fiz mesmo várias vezes entrevistas em torno de apenas uma única pergunta. Isto nada tem de extraordinário porque a dinâmica de uma entrevista que toca em áreas sensíveis para o entrevistado, associada à habitual limitação de tempo típica de um noticiário, com frequência impedem que se abordem outros temas.
Em segundo lugar, convém perceber que, numa entrevista com tempo muito curto, a possibilidade de se passar para um segundo tema não depende apenas das perguntas do entrevistador, mas também das respostas do entrevistado. Contudo, se este entra em múltiplas evasivas e sobretudo em contradições sistemáticas, como fazer? A posição dos reguladores parte implicitamente do princípio de que eu deveria ter ignorado essas contradições e evasivas e seguido em frente.
Saliente-se que esta posição é defensável no caso das evasivas e permitiria de facto avançar na entrevista. Contudo, é igualmente defensável não as ignorar, como vimos no exemplo da BBC, por se considerar que ignorar evasivas é que de certeza nunca ajudará a obter esclarecimento. Sem dúvida que a entrevista adquire fluidez e é mais agradável se se passar para pontos menos sensíveis para o entrevistado, mas a questão é que isso implica evitar os pontos em que o entrevistado tem dificuldade em ser claro e que são afinal os pontos que justamente mais importa esclarecer.
O problema é que, no caso desta entrevista na RTP, não estavam em causa apenas evasivas, como sucedia no caso da BBC, até porque estas são relativamente comuns nas entrevistas políticas, mas essencialmente contradições sistemáticas, algo que eu nunca tinha visto enquanto entrevistador e que me parece muito mais confuso para o telespectador. Assim sendo, não só as contradições não podem ser ignoradas pelo entrevistador como elas só podem ser desfeitas pelo próprio entrevistado, não pelo entrevistador. Ouvindo o entrevistado responder “não”, não se pode exigir ao entrevistador que finja que o “não” não está lá ou que conclua que “não” significa sim. Terá sempre de ser o entrevistado a fazer essa clarificação, como bem se compreende.
Mas isto cria um problema. Se as contradições só podem ser desfeitas pelo entrevistado, se este demora muito tempo a desfazê-las apesar das múltiplas oportunidades que lhe são dadas para tal e se o tempo para as desfazer é muito limitado, parece-me evidente que se torna difícil mudar de tema sem clarificar a questão – a não ser que se defenda que se deve mudar de tema sem as contradições serem desfeitas e sem o espectador ficar devidamente esclarecido, posição que me parece questionável e difícil de sustentar, pois as entrevistas servem justamente para esclarecer.
Convém ter presente que o resultado final de uma entrevista não depende exclusivamente da vontade do entrevistador, mas da dinâmica que se estabelece com o entrevistado. Se o entrevistado acha que a entrevista deveria ter abordado um segundo tema, como viria a acontecer noutras entrevistas, tinha bom remédio: respondia diretamente às perguntas sem entrar em contradições sistemáticas e sem evitar desfazê-las quando instado a tal. O tema da Ucrânia seria assim rapidamente ultrapassado e passar-se-ia a outro tema. Note-se que nas outras entrevistas, tendo havido em alguns casos evasivas que geraram insistências da minha parte, nunca ocorreram contradições sistemáticas como ocorreram nesta entrevista.
Tendo o entrevistado entrado nessas contradições sucessivas, é evidente que não era possível sair do tema sem que ele próprio desfizesse tais contradições – a não ser que se defenda que a entrevista não deve servir para esclarecer os espectadores, posição que, como já referi, me parece questionável.
Não querendo responder a uma pergunta, outra opção ao dispor do entrevistado é assumi-lo abertamente. É um direito que lhe assiste e que é respeitado, pois ninguém pode ser forçado a falar sobre o que não quer falar, mas nesse caso tem de o declarar com clareza e sem subterfúgios – e assumir perante o público as consequências dessa recusa. Isso já me aconteceu várias vezes antes da entrevista com Paulo Raimundo e até já me aconteceu duas vezes depois dessa entrevista. Mas se o entrevistado não o quer assumir e prefere multiplicar-se em evasivas e, situação mais confusa, em contradições, táticas que apenas servem para fingir que está a responder sem verdadeiramente responder, então arrisca-se a que o entrevistador insista as vezes que considerar necessárias para esclarecer os telespectadores.
O que se me afigura complicado é insinuar, como foi feito, que a responsabilidade por não haver esclarecimento é de quem tenta ativa e persistentemente obtê-lo com perguntas claras e diretas, e não de quem não o presta e não assume que não o quer prestar, apesar de lhe ter sido dado amplo tempo e muitas oportunidades para o fazer.
Por fim, e já como nota de rodapé, qual a gravidade real de uma entrevista num noticiário só abordar um tema? Não podemos esquecer que em pré-campanha e em campanha eleitoral os vários candidatos têm múltiplas oportunidades para abordar os vários temas, seja noutras entrevistas seja nos numerosos debates em que estão envolvidos, pelo que é no conjunto de todas estas intervenções que conseguem tocar na generalidade das questões pertinentes para umas eleições, não numa única entrevista com forte limitação de tempo dentro de um noticiário, como me dispenso de demonstrar.
Além disso, é importante salientar que o facto de se ter abordado apenas um tema durante uma entrevista de noticiário não viola nenhuma lei, regra, princípio deontológico ou sequer costume ou tradição. Nas eleições europeias 2024, por exemplo, várias entrevistas no Telejornal com os candidatos cingiram-se a apenas um tema enquanto outras tocaram em vários, e isso não foi problema para ninguém nem nunca houve acusações de “diminuição do pluralismo”. O que aconteceu para isso se ter tornado de repente um grande problema?
Se a entrevista não alcançou o seu objetivo de esclarecer totalmente a posição do PCP sobre a Ucrânia foi essencialmente porque o entrevistado, apesar das múltiplas insistências, demorou a desfazer as sucessivas contradições e ambiguidades das suas respostas, e acabou por não responder à pergunta final que testava a coerência das suas posições.
À luz de tudo isto, fica claro que em momento algum houve “provocação” ou “exercício de ódio” ou que os vários processos de intenções levantados pelo PCP tenham o menor fundamento. As ações de escrutínio jornalístico não podem ser estigmatizadas pelos aparelhos partidários como provocações ou ódio nem conduzir a campanhas contra jornalistas pois são legítimas e, como é evidente, não há partidos nem políticos que dela estejam isentos sempre que surgirem dúvidas sobre o seu discurso ou ação.
A minha opção de ir até ao fim a tentar obter esclarecimento, opção sem dúvida discutível como acontece com todas as opções editoriais mas também sem dúvida legítima, foi a de cumprir os pressupostos previamente explicados ao entrevistado, isto é, a clarificação definitiva da posição do PCP sobre o tema da guerra da Ucrânia.
Pode achar-se bem ou mal, pode gostar-se ou não de um estilo, pode criticar-se que se insiste de mais ou de menos numa questão, pode considerar-se que o entrevistador deveria ter passado à frente mais cedo ou mais tarde, pode pensar-se que o entrevistador poderia a certa altura ter ignorado as contradições e ambiguidades ou que fez bem em ter insistido até ao fim para as esclarecer, pode preferir-se este ou outro tema para a entrevista, tudo isso são julgamentos subjetivos perfeitamente normais e as opiniões são livres, mas não se pode pôr em causa o direito dos jornalistas a escolherem os temas, a fazerem as perguntas que entenderem necessárias para esclarecer contradições ou ambiguidades, a ponderarem as respostas que obtêm, a tomarem decisões instantâneas com base nessas respostas e a questionarem até acharem que a questão está esclarecida, pois tal faz parte da sua atividade de escrutínio e não pode ser alvo dos aparelhos partidários por exercer as suas prerrogativas profissionais.
No caso da entrevista em apreço, ela decorreu com civilidade, ainda que de forma viva, e não foi violada nenhuma lei, nenhum princípio deontológico nem nenhuma regra da profissão, sendo usadas técnicas existentes no jornalismo – como a insistência numa pergunta em busca de uma resposta clara e sem contradições nem ambiguidades. Uma entrevista não é um tempo de antena, é um ato jornalístico em que se exerce juízo editorial, subjetivo é certo, mas perfeitamente legítimo.