Não faltam em Agosto efemérides ligadas à ampliação da liberdade e à expansão da democracia. Efemérides que os extremistas dos diversos campos políticos evitam celebrar, o que constitui mais um motivo para assinalá-las.

Em 24 de Agosto de 1820, eclodiu no Porto a Revolução Liberal, marco decisivo para pôr fim à monarquia absolutista. A soberania transferiu-se, a partir daí, do rei para o povo. Foi um passo de gigante na conquista de direitos e liberdades em Portugal.

Catorze anos depois, no dia 1 de Agosto de 1834, entrou em vigor na Grã-Bretanha a abolição total da escravatura por histórica decisão do Parlamento em Londres – que não tardaria a contagiar outras nações – sob o princípio de que todos os seres humanos devem nascer livres e iguais, a trave-mestra da civilização. Esta data é hoje justamente celebrada eom vários países que foram colónias da coroa britânica: Jamaica, Guiana, Barbados, Trindade e Tobago, entre outros.

O império soviético, de triste memória, começou a cair num mês de Agosto. Foi em 14 de Agosto de 1980 que Lech Walesa liderou uma greve nos estaleiros navais Lenine, em Gdansk, abalando os alicerces da ditadura comunista na Polónia. No último dia desse mês, o regime de Varsóvia viu-se forçado a reconhecer oficialmente o direito à greve, interdito até então. Nascia ali o célebre sindicato Solidariedade, primeira organização verdadeiramente representativa da vontade dos trabalhadores num país da órbita comunista. Nada voltaria a ser igual.

Agosto de 1989 foi outro mês que decorreu sob o signo da liberdade, com a realização de uma gigantesca corrente humana de 675 quilómetros que atravessou a Estónia, a Letónia e a Lituânia, exigindo a recuperação da independência destes Estados bálticos, que Estaline integrara à força na URSS. Na mesma altura, rompia-se a Cortina de Ferro na fronteira entre a Áustria e a Hungria, que passou a ficar aberta a partir de 19 de Agosto, dia do célebre “piquenique da liberdade”. Era mais uma pedra do dominó comunista a cair com estrondo.

A 9 de Agosto, todos os anos desde 1994, celebra-se o Dia Internacional dos Povos Indígenas, por decisão solene da ONU. Para assinalar a autodeterminação e a liberdade cultural de povos espalhados pelo globo, mesmo minoritários em termos populacionais. São cerca de 370 milhões de pessoas, repartidas por 90 países, constituindo 15% da população mais pobre do planeta. Todos têm o direito à dignidade.

Outro histórico Agosto foi o de 1999. Diz muito a todos nós, portugueses, e mais ainda ao povo-irmão de Timor-Leste que, nesse dia, votou em massa pela independência num referendo organizado pela ONU. De um total de 451.796 eleitores recenseados, votaram 446.953, cerca de 98,9%. O escrutínio não deixou lugar a dúvidas: 78,5% dos timorenses expressaram o seu desejo de liberdade nas urnas, enquanto 21,5% prefiram um estatuto de autonomia com laços políticos à Indonésia, país que ocupava ilegalmente o território desde 1975. O regime de Jacarta demorou a aceitar a vontade expressa dos eleitores, promovendo actos de pilhagens e vandalismo, mas Timor ascendeu à independência em 2002. Não mais se calaram as vozes. David venceu Golias.

Há outra data que não pode ficar esquecida: 24 de Agosto de 1991. Foi o dia em que o Parlamento ucraniano proclamou a recuperação da independência do país após várias décadas sob domínio soviético. Ainda nesse ano, em referendo nacional, mais de 90% dos ucranianos confirmaram o desejo de assumirem a soberania plena, sem tutelas externas.

O 24 de Agosto, Dia da Independência, é data sagrada no calendário do povo ucraniano que persiste em construir um Estado livre de ingerências externas, democrático e soberano, dentro de fronteiras reconhecidas internacionalmente.

Há onze anos que a Rússia iniciou a agressão ao país vizinho, tentando transformá-lo num Estado-fantoche, tal como já fez com a Bielorrússia. Em Fevereiro de 2022, Vladimir Putin deixou-se de disfarces e partiu para a tentativa de conquista em larga escala, na esperança de dominar e subjugar Kyiv em poucos dias. O ditador russo enganou-se redondamente, pois a vontade dos ucranianos em permanecerem livres é indomável. Mesmo sob ataque da segunda maior potência nuclear, não se vergam nem se intimidam.

Assim dão, a todos nós, uma admirável lição: só é derrotado quem desiste de lutar. Eles não desistem, como se comprova novamente por estes dias, fazendo jus ao nome do mês.

Em Portugal, Timor, Ucrânia e por este mundo fora, Agosto tem mesmo um gosto a liberdade. Celebremos A’gosto da Liberdade.