“De todas as tiranias que oprimem a humanidade, a tirania religiosa é a pior: todas as outras limitam-se ao mundo em que vivemos, mas esta procura estender-se para além da sepultura e perseguir-nos pela eternidade.”
Thomas Paine
As eleições intercalares (midterms) americanas são historicamente duras para o partido no poder. Desde 1913, ano em que a 17.ª Emenda entrou em vigor, apenas Franklin D. Roosevelt e George W. Bush conseguiram ganhar assentos em ambas as câmaras em midterms. Dizer, por isso, que o Partido Republicano se arrisca a perder as eleições que se realizarão daqui a duas semanas não é uma afirmação particularmente inovadora. Mas a dimensão da onda azul que, segundo as sondagens, aí se adivinha parece indiciar que, não obstante a tendência histórica, algo de particular se passa. A impopularidade de Donald Trump explica certamente uma parte, até porque a sua taxa de rejeição chegou a níveis históricos. Mas não explica tudo.
Durante décadas, a relação entre o Partido Republicano e o eleitorado religioso assentou num objetivo concreto. A revogação de Roe v. Wade (o caso que estabeleceu o aborto como um direito constitucional nos EUA) funcionava como horizonte comum para evangélicos e católicos conservadores, uma espécie de Zion político. Foi, em parte, essa a promessa que permitiu a Donald Trump monopolizar o voto evangélico. O bloqueio, pelo Senado republicano, da nomeação de Merrick Garland para o lugar deixado vago por Antonin Scalia transformou o Supremo Tribunal num ponto central da campanha, com Trump a apresentar a sua eleição como a única forma de assegurar que o Supremo Tribunal não cairia nas mãos dos Democratas; isto é, a única forma de assegurar a reversão de Roe v. Wade. Do outro lado, o Partido Democrata pareceu esquecer-se que, de Carter a Biden, as principais figuras do partido sempre se apresentaram como homens de fé declarada. À medida que a captura do voto religioso pela direita americana se consolidou, os Democratas responderam, tal como fizeram após a perda do eleitorado blue collar, com um certo desdém, atribuindo a sua própria incapacidade de reter esses votos a uma suposta ignorância que repentinamente caiu sobre os eleitores.
Em 2022, com a decisão Dobbs, que reverteu Roe v. Wade, um dos objetivos históricos do GOP foi cumprido, e a aposta de muita da direita religiosa em Trump deu frutos. Mas o problema surgiu no dia seguinte. O aborto não desapareceu da política americana. Aliás, depois de Dobbs a legalização do aborto passou para os estados, onde se tornou mais vezes um passivo do que um trunfo para a direita, com estados como o Kansas (um estado que não é conhecido pelas suas tendências progressistas) a votarem para manter a proteção do aborto na constituição estadual. Mas o problema não é só que o eleitorado se mostrou afinal mais progressista do que o GOP esperava. É que Roe funcionou durante anos como algo que unia evangélicos e católicos conservadores em torno de um objetivo comum, de uma causa. Com o objetivo alcançado, a pergunta que se impôs foi: e agora? O que une a direita religiosa?
A resposta que os Republicanos têm dado é, infelizmente, cada vez mais identitária. O cristianismo é agora apresentado menos como fé ou como uma prática e mais como aquilo que faz da América o que ela é e dos americanos o que eles são. Torna-se a própria condição das liberdades americanas, que, segundo este raciocínio, não sobreviveriam sem uma população cristã que as sustente. É um vocabulário que não será totalmente estranho a quem já tenha tido contacto com a onda do “civilizacionismo” que tem crescido nesta nova direita, feito de medo de um suposto “apagamento civilizacional”, que exige que se reafirme a América como uma nação cristã. Isto não é um movimento cuja popularidade esteja a crescer exclusivamente entre evangélicos ou radicais protestantes. Na verdade, a liderança intelectual da direita religiosa parece estar a passar para os católicos conservadores, com JD Vance e Marco Rubio à cabeça, num movimento que lembra a guerra cultural que Pat Buchanan anunciou em 1992. Um Buchanan 2.0, de certa forma.
Já na convenção republicana de 2024, em rutura total com a vastíssima tradição do seu próprio partido, Vance afirmou que a América não era apenas uma ideia, mas uma pátria, uma pátria onde a pertença se definia pela ancestralidade e pela fé. A ironia, que Vance porventura prefere ignorar, é que, ao definir a pertença à América pelo sangue e pela fé, em nome de um suposto regresso ao projeto americano original, acaba por trair os ideais fundadores do seu país.
Em 1783, George Washington escrevia que o seio da América estava aberto a receber não só o estrangeiro rico e respeitável, mas também os oprimidos e perseguidos de todas as nações e religiões. Lincoln, em 1858, respondia já por antecipação a Vance. Aos imigrantes que não podiam reclamar descendência dos homens da Revolução bastava reconhecerem-se nos princípios da Declaração de Independência para terem o direito de os reclamar como se fossem sangue do seu sangue e carne da sua carne. O próprio Reagan, no último discurso enquanto presidente, observava que quem vai viver para França não se torna francês, mas que qualquer pessoa, de qualquer canto do mundo, pode vir viver para a América e tornar-se americana. Washington, Lincoln e Reagan representam uma tradição cívica da identidade americana, na qual a pertença à nação se baseia na partilha de valores cívicos, entre os quais a liberdade religiosa ocupa um lugar fundamental.
Poucas coisas foram, aliás, tão estruturantes na origem dos EUA. Muitos dos seus fundadores atravessaram o Atlântico, ou descendiam de quem o fez, para fugir às perseguições e guerras religiosas que assombraram a Europa a partir do século XVI. Foi essa memória traumática ainda fresca que os levou a olhar com profunda desconfiança para qualquer Estado que adotasse uma religião oficial ou se arrogasse o direito de excluir crenças. A fé ficava, assim, entregue à consciência de cada um, cabendo ao Estado apenas assegurar a liberdade para a praticar. Era isso que Thomas Paine defendia em 1776, escrevendo, quanto à religião, que o dever indispensável de qualquer governo era proteger todos os que a professassem em consciência, e que não lhe reconhecia nenhuma outra função nessa matéria. Não é coincidência que a liberdade religiosa seja a primeira das cinco liberdades basilares consagradas na Primeira Emenda.
Foi sobre esta tradição que a América se construiu, uma tradição que não reconheceria qualquer legitimidade à tentativa de definir a americanidade pelo sangue ou pelo credo.
A vocação de exclusão desta nova direita torna-se tanto mais visível quanto menos o partido tem para mostrar. Com Trump em níveis históricos de desaprovação e perante um eleitorado insatisfeito com o custo de vida, com a guerra no Irão e com o preço dos combustíveis, os Republicanos têm pouco para oferecer pela positiva. Resta-lhes, por isso, definirem-se pela negativa.
A evidência mais óbvia deste reflexo surge do Michigan. Abdul El-Sayed (ou, como Trump lhe chamou num comício na Geórgia, “Abdullahalalalabababa Muhammad El-Sayed”) venceu as primárias democratas para o Senado com uma plataforma assumidamente à esquerda, feita para galvanizar os membros mais progressistas do seu partido, centrada no Medicare for All e no custo de vida. Mas quando comparamos os ataques a que El-Sayed tem sido sujeito com aqueles feitos a outro político muçulmano marcadamente de esquerda, Zohran Mamdani, percebemos a evolução (ou retrocesso) da estratégia republicana. Quando Zohran Mamdani venceu as primárias para a câmara de Nova Iorque, Trump chamou-lhe comunista e lunático de esquerda, com o grosso do ataque republicano a concentrar-se no socialista que queria congelar rendas e abrir supermercados municipais. Com Abdul El-Sayed, o registo começou por ser o mesmo: dias depois da vitória nas primárias, Trump chamou-lhe comunista. Mas o foco dos ataques mudou rapidamente. Hoje, El-Sayed é descrito como um “simpatizante de terroristas”, um “jihadista”. O alvo deixa de ser o que El-Sayed propõe e passa a ser o que El-Sayed é. E é difícil não notar uma certa ironia de uma direita que passou anos a denunciar a política identitária da esquerda, que reduzia cada um àquilo que é e não àquilo que pensa, e que hoje faz exatamente o mesmo.
Há algo de certa forma familiar nesta passagem do comunista para o jihadista. A expressão one nation under God só foi acrescentada ao juramento de fidelidade americano em 1954, em plena Guerra Fria, numa tentativa de demarcar a América do comunismo ateu. A religião foi então mobilizada como sinal de distinção perante um inimigo ideológico. Hoje, a retórica contra o Islão desempenha, em certos sectores da direita americana, uma função semelhante.
E foi aqui que os Democratas viram uma oportunidade. Durante anos, o partido aceitou que o voto religioso fosse território republicano, mas a deriva identitária da direita deixou órfãos muitos eleitores para quem o cristianismo continua a ser sobretudo uma fé que se pratica e um conjunto de valores pelos quais se procura viver, entre os quais acolher o estrangeiro, e que não se reconhecem num cristianismo que se converteu em marcador identitário. É a esses eleitores que candidatos como James Talarico, no Texas, e Adam Hamilton, no Kansas, se dirigem. É também por isso que dois estados onde os Republicanos, mesmo num ano mau, não deveriam ter motivo de preocupação se tornaram duas das corridas mais disputadas do país.
Talarico, seminarista presbiteriano, tem feito da fé a pedra basilar da sua campanha, resumindo a sua política a dois mandamentos que considera os mais importantes que Jesus deixou: amar a Deus e amar o próximo. É também um dos opositores mais vocais do nacionalismo cristão, a ideia de que a América é uma nação cristã e de que o Estado deve promover o cristianismo, o que levou Ken Paxton, o seu adversário republicano, a acusá-lo de não ser um verdadeiro cristão. Paxton, de quem a mulher se divorciou por “motivos bíblicos” e que foi já impeached pela câmara dos representantes do Texas (depois absolvido pelo Senado estadual) por acusações de corrupção, talvez não seja a pessoa mais bem colocada para determinar quem é, ou não é, um verdadeiro cristão. Mas é precisamente este o ponto: no Texas, o que está em causa já é quem tem o direito de se dizer cristão.
No Kansas, a história repete-se. Adam Hamilton, candidato democrata ao Senado, pastor da maior igreja metodista dos Estados Unidos, faz campanha sob o lema “Faith. Kansas.” Roger Marshall, o seu adversário, acusou-o de ser woke demais para o Kansas. Mas Hamilton parece ter incomodado o suficiente para, em setembro, forçar o vice-presidente americano a ir ao Kansas pôr em causa a fé do pastor. Trump venceu o Kansas por 16 pontos, e o estado não elege um democrata para o Senado desde 1932, mas perante uma campanha de Hamilton que parece apenas ganhar mais fôlego, o GOP vê-se agora forçado a gastar milhões de dólares neste estado. Recursos que o partido não poderá agora canalizar para estados fulcrais como a Carolina do Norte, Alaska, Maine ou Ohio. Mais uma vez, é difícil perceber onde JD Vance encontra a confiança para determinar quem pertence ou não à fé, mas o mero impulso de o fazer mostra como o cristianismo se tornou uma arma de arremesso. A mesma lógica que serviu inicialmente para excluir o imigrante e o muçulmano serve agora também para excluir os próprios cristãos sempre que a sua fé contradiz o partido.
Seja qual for o resultado de 3 de novembro, a pergunta que Dobbs abriu permanecerá. Nas últimas décadas, o Partido Republicano fez do voto religioso um dos pilares mais sólidos da sua coligação, unida em torno de um objetivo comum. O que agora tem para oferecer a esse eleitorado é uma identidade que precisa de um inimigo para existir, e que em vez de agregar, exclui, cristãos incluídos. Talarico e Hamilton podem perfeitamente perder em novembro (o Texas e o Kansas continuam a ser o Texas e o Kansas), mas o simples facto de terem uma hipótese real de ganhar diz muito sobre o que aconteceu ao Partido Republicano. Refém de um presidente que os eleitores rejeitam e sem resposta para o custo de vida, o partido trocou a disputa das ideias e dos valores pela disputa da pertença e da identidade, e descobre agora que, nessa disputa, já nem a fé consegue monopolizar.