Tenho feito um exercício despudorado de desconstrução, de mim para comigo, do que são as pessoas que se autointitulam “pessoas de pessoas”. Sim porque eu “sou uma pessoa de pessoas”. És? É interessante ver e ouvir o uso da expressão nas mais diversas ocasiões e contextos. A propósito de tudo e nada. Cheira-me cada vez mais a bazófia e cada vez menos a adequação à realidade. Fundamental, se o dizes frequentes vezes, perceberes se te estás a enganar quanto a uma, vamos-lhe chamar competência, que não tens. Uma competência relacional, que agrega empatia, escuta ativa, respeito pela diversidade, construção e suporte, integridade e consistência, disponibilidade e acessibilidade, e por aí fora. E muito por aí fora.
Desconstruir a expressão implica olhar para alguém – e olhares para ti próprio – e procurares perceber alguns dos traços da sua – ou da tua – personalidade. Quem diz isto com frequência quer palco. Nada de mal nisto. O pior é que há uma diferença gigante entre palco e efetividade, entre popularidade e profundidade. A conexão com pessoas não é matéria de palco e é preciso toda a atenção para detetar a superficialidade da expressão. Precisas desse caminho, do caminho de dizer e dizer e dizer (para gerires a tua consciência, talvez?) ou preferes o caminho da ação? Muitas pessoas passaram a usar a expressão. Muitas mesmo. Estás entre elas? Bem? Talvez mal. Já alguma vez te perguntaste se, de facto, és uma pessoa de pessoas ou se usas a expressão porque sim, porque está na moda, porque está alinhada com a onda onde o mainstream quer estar?
Desconstruir a expressão implica, obviamente, olhar à perceção que cada qual tem de si mesmo. Autopercepção não é percepção externa. Uma coisa é uma coisa e outra coias é outra coisa. É daqueles casos em que o mapa não é o território. Fazes um exercício de autoconhecimento para saberes se a expressão que usas está de acordo com o que praticas? Bom fazeres. Porque um lado da moeda está nas tuas crenças e, o outro lado, na realidade das tuas habilidades relacionais.
Uma coisa deve ser mais que certa. Para usares com propriedade a expressão “eu sou uma pessoa de pessoas” deves ter em consideração as seguintes questões:
Preocupas-te em seres ativamente empático? Não é empático-plástico, é empático mesmo. A empatia com verdade implica que ages de acordo com as necessidades e os sentimentos daqueles com que te relacionas.
És bom ouvinte? Praticas a escuta ativa antes de mais conversa? E da conversa de chacha? E dás feedback que mostre compreensão e interesse? Sobretudo feedback sem que esperes que o outro do dê e, mais, que andes na linha do fishing for cumpliments?
Respeitas a diversidade, desde a valorização das pessoas às diferenças individuais, promoves ambientes onde todos se possam sentir bem e aceites e também eles contributivos?
Promoves a construção e suportas outros?
Ages com integridade e és consistente nas tuas ações? Ou flutuante como as marés?
Tens mesmo disponibilidade ou apenas abres a porta do gabinete para dares sinal de que, pronto, a porta até está aberta?
Só vais resolver esta dialética entre o que dizes e o que fazes com um e um só caminho: começa por te conhecer melhor. Se não o fizeres corres o sério risco, seríssimo, de achares que és uma pessoa de pessoas quando não passas de uma pessoa da tua pessoa. E convém mudar isso sob pena de haver plástico a mais no teu comportamento.