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Ao centro, o PSD não ganhará eleições /premium

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Rio, que não perde uma ocasião para evocar Sá Carneiro, não aprendeu a sua principal lição: o PSD só chega ao poder quando lidera uma alternativa aos socialistas. Não basta esperar pelo fracasso do PS

A questão central para o PSD é a seguinte: quer ser uma alternativa aos socialistas ou um mero substituto do PS no governo? Para o PS, a questão decisiva é a mesma: alternativa ou substituto. Todos os socialistas, e muito bem, dizem que são uma alternativa ao PSD. Não há qualquer português, mesmo aqueles que dedicam 5 minutos por ano à política, que não o saibam. Podem não saber mais nada sobre política, mas sabem que o PS é uma alternativa ao PSD. Até as extremas esquerdas do PCP e do Bloco, que muitas vezes acusaram os socialistas de serem meros substitutos do PSD, sabem que o PS é uma alternativa, como mostraram em 2015 quando apoiaram António Costa para formar governo. Rio e os seus apoiantes não devem ter qualquer ilusão. Se em Outubro, ganharem as eleições mas não formarem maioria absoluta com o CDS ou com a Aliança, Rio terá exactamente o mesmo destino de Passos Coelho em 2015. O PS recusará um governo de bloco central liderado pelo PSD e o PCP e o Bloco voltarão a colocar Costa em São Bento. A social democracia e o centrismo de Rio não mudarão nada. Porquê? Porque toda a esquerda sabe que o PS é uma alternativa ao PSD. Se fosse apenas um substituto do centro, os comunistas e o Bloco não se davam à maçada de apoiar um governo do PS.

Até 1995, o PSD era visto pelos portugueses como uma alternativa ao PS. Foi isso que permitiu São Carneiro liderar a primeira maioria absoluta não-socialista na história da democracia portuguesa. E foi isso que permitiu Cavaco conquistar duas maiorias absolutas. Desde 1995, o PSD tornou-se gradualmente num substituto do PS no governo. Entre 1995 e 2019, os socialistas passaram 18 anos no poder e o PSD, em coligação com o CDS, esteve seis anos à frente do governo. Durão Barroso substituiu Guterres quando ele se fartou do seu partido. Passos Coelho foi obrigado a salvar o país da bancarrota causada pelo governo socialista de Sócrates.

Rui Rio, que não perde uma ocasião para evocar a memória de Sá Carneiro, não aprendeu a principal lição do seu antecessor: o PSD chega ao poder quando lidera uma alternativa aos socialistas. Não basta esperar pelo fracasso do PS para depois o substituir no governo. É isso que Rio está a fazer: a estratégia da substituição. Rio acredita que mais tarde ou mais cedo o PS voltará a fugir do governo e, quando isso acontecer, o PSD será chamado a substituir os socialistas. Rio decidiu não depender de si e do seu trabalho, mas do destino (ou da economia) e dos erros que o governo socialista cometer. Se a economia não piorar demasiado e o governo não cometer erros enormes, Rio terá uma grande derrota em Outubro, porque nada fez para ganhar. Rio olha para o PSD como o substituto do PS e não como uma alternativa ao poder socialista. Por isso, não pode dizer que é de direita. Diz que está no centro, o lugar de quem substitui.

Há outra razão que explica o comportamento de Rio. O seu objectivo principal desde que chegou à liderança do PSD tem sido distanciar-se o máximo possível de Passos. Isso nada tem a ver com ideologias, mas com questões individuais bem mais complicadas. Como se criou em Portugal o mito de que o PSD de Passos estava muito à direita, Rio tem que dizer que está ao centro. No ultimo ano, Rio preocupou-se muito mais em distanciar-se de Passos do que em fazer oposição a Costa. Rio nunca mostrou um pingo de orgulho pelo trabalho do governo de Passos. Nunca fez um elogio público a Passos. Nunca assumiu qualquer tipo de herança em relação ao passado recente do PSD. Trata o PSD que governou entre 2011 e 2015 como se não fosse o seu partido. Caiu assim na armadilha de Costa. Os socialistas e as esquerdas continuam, até hoje, a tratar o PSD de Passos como a verdadeira alternativa ao PS. Rio nada fez para combater a estratégia de Costa. Pelo contrário, ajudou o PM.

Apesar de tudo o que se passou no PSD durante as últimas duas semanas, Rio continua exactamente onde estava. Não tem o partido unido nem é uma alternativa ao governo do PS. Procurando distanciar-se tanto de Passos, Rio colocou-se num centro político que não constrói maiorias e nunca se tornou na alternativa ao poder socialista. Agora já é tarde. O PSD substituto compete com o PS alternativa. Não custa muito perceber quem ganha.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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