A guerra está a correr bem, diz Trump. As bombas destruíram tudo o que havia para destruir. Mas acrescenta que o sucesso militar foi tão extenso que foram eliminados os dirigentes com os quais pensava, irresponsavelmente, poder vir a articular uma solução tipo Venezuela…

E agora? Porque entraram os Estados Unidos numa guerra que não sabem como acabar?

Os paralelos surgem mais uma vez com o que aconteceu em 1914 com a Alemanha que entra em guerra para proteger dos insultos sérvios os irmãos do Império Austro Húngaro. Tal como há um século, os Estados Unidos entraram agora em guerra para proteger um aliado mais fraco. Mas por que razão o fizeram? Porque enveredaram por tal caminho sem cuidar do que aconteceria no dia seguinte ao fim da operação militar? Uma parte da explicação reside na aliança informal, mas real, entre os EUA e Israel. A outra parte é explicada pela natureza pessoal do presidente americano, capaz de iniciar operações militares sem cuidar de alianças, mas incapaz de articular um plano para traduzir os objectivos militares difíceis em vitórias políticas. Com pouco mais de duas semanas de bombardeamentos, o fantasma da possível derrota dos EUA começa a ser adiantado por quem trata das questões de segurança internacional. Realmente o Irão não é a Venezuela e o fecho do estreito de Ormuz tem evidentes implicações planetárias. Não estamos perante uma simples operação falhada por parte de uma liderança americana incompetente e inconsequente.

Neste momento, o próprio futuro da potência americana está em jogo e o risco de colapso do império do dólar não é nulo, tendo a memória do que aconteceu com o superpoderoso Império alemão no desenlace da I Guerra Mundial. As guerras não se perdem só nos campos de batalha, perdem-se por vezes com o que acontece depois das armas se calarem. Exemplos destes desenlaces inesperados, abundam. Napoleão deparou-se com essa situação quando depois de Waterloo, regressa a Paris disposto a continuar o esforço militar. E algumas antigas potências coloniais conheceram no século XX, a mesma sorte.

Talvez valha a pena recordar que não foi no plano militar que a América perdeu a guerra no Vietname, uma guerra que, à semelhança desta em curso, também nunca beneficiou de autorização expressa do Congresso nem teve fundos específicos de guerra aprovados. A guerra do Vietname terminou por exaustão política e financeira. Em 2026, com o custo evidente em material nestes poucos dias de bombardeamentos, ficou em dúvida a capacidade de manutenção, tanto do ponto de vista material do esforço militar, mas essencialmente, da capacidade financeira de uma América sobre endividada e sem espaço fiscal depois dos cortes dispensados na receita para fins puramente políticos e do falhanço da operação de extorsão com as tarifas aduaneiras. Daí a importância para Trump de poder contar com um aliado incondicional na Reserva Federal, o que não acontece com o actual responsável e ao que se diz, também não acontecerá com o futuro.

Complicado para a América. Conseguirá Trump, o apocalipse de uma bancarrota do dólar, depois do que aconteceu aos seus casinos, aviões e universidades?

Quantos misseis sobram aos EUA e a Israel, ou quantos poderão ser encomendados e produzidos a tempo? Quantos milhares de milhões podem continuar a ser queimados a este ritmo? Que fazer sem colocar botas no terreno de guerra? Quanto tempo aguentam as elites dos países do Golfo antes de serem obrigadas a renunciar à aliança tácita com o Grande Satã? Quanto tempo consegue a China funcionar sem o petróleo que já não passa em Ormuz?

O tempo corre a um ritmo vertiginoso, mas que não tem sido aparentemente favorável ao colapso do regime iraniano, que está mais aguerrido e vocacionado para o martírio do que nunca esteve. Se o Irão consegue manter o fecho de Ormuz, a conclusão sobre os resultados da guerra iniciada será clara: a América perdeu e o Irão ganhou.

Como sabemos, a História não é generosa para com os derrotados.