O que começou há umas décadas como um sério aviso da comunidade científica sobre a perigosa evolução das condições de vida humana no planeta, veio a transformar-se numa causa global que, momentaneamente, ganhou a atenção dos políticos e dos meios de comunicação, sem distinção de quadrantes. Apesar de ter evoluído progressivamente para um desígnio global de agir pela sobrevivência da espécie, esta grande causa acaou recentemente por apagar-se. O que resta hoje dessa epopeia, são apenas algumas lembranças kitsch, perdidas nas caixas poeirentas do sótão. A grande causa pelo clima, que chegou a obter uma adesão aparentemente unânime e global, acabou sendo uma vítima colateral do grande confronto ideológico que atingiu as nossas sociedades nos últimos tempos. Por fazer parte dos temas fracturantes com que as democracias ocidentais acharam por bem martirizar os seus súbditos, a campanha pelo clima foi sendo classificada pelos movimentos populistas e nacionalistas como uma aberração ideológica. Como acontece em todos os debates, mesmo quando estão em confronto coisas tão diferentes como a ciência e a ideologia, quem demonstra ter mais força, acaba sempre por ganhar. A suposta ideologia que argumentava com a ciência, perdeu para a ideologia negacionista que se lhe opunha.
Acreditar que o homem não tem responsabilidade nas mudanças climáticas é seguramente possível pela simples razão de que a fé dispensa a demonstração. Basta acreditar. Quando Galileu terá dito há quatro séculos Eppur si muove, a tese que prevaleceu não foi a que ele defendia, mas sim a da fé, devidamente suportada pela força da política da época. Galileu, e todos os que sabiam que a Terra não era o centro do Universo, calaram-se. Quando hoje Trump declara que o Climate change is a hoax, também todos os que sabem, por evidência segura, que o equilíbrio da física e da química planetária está a ser afectado pela acção do homem, se calaram. Não que as condições climáticas não tenham mudado ao longo dos tempos, pois sabemos que o mundo sempre foi o produto de inúmeras mecânicas de mudança. Mas com o conhecimento adquirido, é possível concluir, sem margem para dúvida, que o que o homem lançou para a atmosfera nos últimos dois séculos, introduziu um ritmo avassalador de mudança nas condições do planeta. Ora, estas alterações resultam certamente em prejuízo das condições de vida da espécie humana.
Contestar as previsões dramáticas dos cientistas quando tudo corre bem é um exercício fácil e que foi repetido até à exaustão através dos megafones da moderna tecnologia. Mais complicado é manter essa convicção quando as malditas previsões se transformam na realidade do quotidiano. O que é simplesmente extraordinário, é que, apesar da constatação de que algo corre muito mal, deixámos de agir como uma espécie que estava objectivamente ameaçada.
Como conseguiríamos nós explicar a um extraterrestre que na Terra desembarcasse, que não cuidamos da nossa sobrevivência? Teríamos de começar com as justificações da existência de diferentes opiniões, das prioridades que são próprias aos americanos, aos russos e aos chineses, por exemplo. Argumentaríamos, claro, que não existe nenhuma governação global do planeta, pelo que todas as questões têm de ser vistas à luz das prioridades nacionais. Para os humanos, o que conta é o que se pode fazer dentro das fronteiras que a História e a Geografia demarcaram. A regra é que os homens se devem ocupar dos problemas da sua Pátria, enquanto os problemas do planeta são tratados a coberto de leis divinas. Com estas explicações, o extraterrestre perceberia que esta espécie que se auto designa de humana, não tem qualquer futuro e desviaria a sua atenção para o possível interesse em tomar conta desta bola de matéria terrena, meia sólida, meia líquida, sabendo que, mais tarde ou mais cedo, estas figuras curiosas de dois braços e duas pernas, que são comandadas por um cérebro que funciona como uma pequena unidade de processamento, irão desaparecer.
Como se costuma dizer, no final tudo se explica. Na realidade, o que se pensa ter sido deixado às forças divinas que teoricamente marcam o nosso futuro, é afinal o que resulta do jogo dos interesses económicos e políticos imediatos de quem promove objectivos específicos do seu grupo, que nada têm a ver com a sobrevivência da Humanidade.
Neste quadro, se quisermos ganhar perspectiva, podemos sempre recorrer ao que dizia Keynes, com a célebre citação de que no futuro estaremos todos mortos. Só que Keynes pensava apenas no destino dos que estavam vivos. Mas deixando de haver condições de sobrevivência da espécie, a regra aplicar-se-á afinal a toda a humanidade. Para sempre.
Quando a União Europeia lançou, com grande pompa, o Green Deal com o objectivo de parar a degradação das condições de vida do planeta, sabia-se que o peso da Europa nas alterações climáticas era relativamente pequeno. Os grandes poluidores, América, China, Índia e os fornecedores do veneno poluidor como a Rússia e o Médio Oriente, são comandados por outras agendas. Ora o traço comum a estas agendas é o de representarem os seus próprios interesses, individuais e imediatos, mas não o que deveria ser o interesse geral, e, mais ainda, o da sobrevivência da espécie.
O principal problema reside estarmos hoje num estado de aceitação passiva, assumindo a fatalidade da situação. Que se pode fazer quando as acções que prosseguimos, não produzem qualquer resultado? Um verdadeiro dilema de Dom Quixote.
No entanto, se há algo de fundamental que a Humanidade testou ao longo da sua existência é que o futuro nunca está fechado. Depende de inúmeros factores. Depende, essencialmente, de acontecimentos que não se produziram ainda.
Uma réstia de esperança que, afinal de contas, depende de nós.