A História diz-nos que as democracias não resistem ao caos. Foi o que aconteceu na Europa dos anos vinte e trinta do Séc. XX, em que os efeitos da I Guerra Mundial, da crise financeira de 1929 e da excitação política provocada pelos duelos entre extremismos ideológicos de esquerda e de direita, tornaram impossível a convivência e o normal funcionamento das instituições. Em democracia, o caos das ruas leva à instauração de regimes autoritários que consideram a manifestação da vontade popular como a principal causa dos problemas. Já no caso das ditaduras, que têm condições específicas para manter a ordem pela força, o seu colapso ocorre normalmente por via das derrotas militares, como aconteceu com a Rússia dos Czares em 1917 e com Hitler e Mussolini em 1945.

Os anos 20 deste novo Século são hoje, para as democracias ocidentais, a revisitação do que se passou há cem anos. Só que, em vez do caos factual em que os governos democráticos não têm meios nem poder para exercer a sua autoridade e a rua é ocupada por movimentos extremistas que se digladiam com violência, a crise actual resulta de algo mais etéreo. O combustível da necessidade de mudança não vem, desta vez, da realidade, mas sim da percepção que é plebiscitada nas plataformas sociais. A imaginária realidade da imigração, da economia, do crime, ou a situação dos serviços de saúde, por exemplo, são armas utilizadas para liquidar os políticos tradicionais. E isto, com resultados surpreendentes. Mesmo numa América no clímax do seu poderio económico e militar, Trump galvaniza uma nação que se descobriu furiosa com o suposto estado das coisas. Quanto à Europa, a revolta toma conta dos corações, apesar do sucesso inédito de oito décadas sem guerras e de se ter construído um generoso sistema social que protege os doentes e os idosos como nunca havia acontecido na História. A Europa, Continente de velhas nações inimigas, conseguiu, durante este período, institucionalizar uma governação supranacional que venceu a fatalidade milenar da guerra e impediu o aparecimento de crises fronteiriças. Vivemos em coexistência pacífica, sentando à volta da mesma mesa as potências globais como a Alemanha e os países periféricos como Portugal ou a Polónia. Se os países grandes foram ajudados pela Europa e pelo seu mercado a afirmarem o seu poderio económico no mundo global, os pequenos têm hoje, graças à União Europeia, um nível de infra-estruturas e de bem-estar económico que não conheceram nunca nos tempos dos seus míticos heróis patrióticos. Ora é nesta Europa, cansada dos sucessos obtidos sobre a sua história, geografia e natureza, que acabaram por florescer os movimentos políticos nacionalistas (por definição anti Europa) que se afirmam motivados para restabelecer a ordem e a grandeza que supostamente as suas grandes nações perderam.

Como dizia Epíteto, filósofo grego que viveu em Roma no primeiro Século da nossa era, “Não são os feitos que movem as pessoas, mas sim as palavras que são ditas sobre esses feitos.”

Em qualquer situação política, o movimento dos que são do Contra dispõe de valiosas vantagens sobre os Situacionistas, apesar das inerentes dificuldades de acção por operarem fora do círculo do poder. E quanto mais fraco ou mais aberto é o exercício desse poder, mais fácil é o sucesso dos que invocam e amplificam a percepção das dificuldades do quotidiano. Se numa ditadura, acusar ou criticar o poder é um risco que se paga eventualmente com a própria vida, numa democracia, a crítica faz parte do processo permanente da procura da melhor escolha. Como em democracia, a percepção das pessoas reflecte-se nas decisões políticas, a capacidade de convencer é determinante para o exercício do poder. Uma ditadura está em grande medida dispensada dessa obrigação. A particularidade do nosso momento está em que nunca na História existiu uma ferramenta de comunicação e de sugestão tão poderosa, como a que resultou da evolução da internet.

Os movimentos populistas utilizam a liberdade (que afinal desprezam) para martelar as angústias, os medos e os anseios, fazendo-o sem qualquer preocupação relativamente à realidade factual. Fazem do ódio um combustível inesgotável, alicerçando as rivalidades de grupo e dramatizando as diferenças de origem e de opinião. Estes mecanismos, velhos como o mundo, encontram-se hoje, graças à internet, em pleno desenvolvimento nas democracias ocidentais, colocando em dúvida a sobrevivência da prática democrática.

É nesta onda revanchista que entra Putin, ao comando do que restava de um império falido. A União Soviética, um projecto que beneficiava do apoio de uma ideologia redentora, falhou estrondosamente no seu objectivo de controlar toda a Humanidade. Neste Séc. XXI, a Rússia de Putin lançou-se à reconquista da glória perdida, mas já sem poder contar com a magia de uma ideologia igualitária. Agora, Putin apenas pode contar com o dinheiro do petróleo e do gás com que a natureza dotou o subsolo da sua pátria sagrada.

Como qualquer ditador de sucesso, Putin sabe que nem só de pão vive o homem e que afinal é outro o alimento das Almas. Não dispondo mais dos ideais que seduziram e incendiaram as gerações do Séc. XX e que permitiram à Rússia o domínio de metade do planeta, Putin procurou uma alternativa para continuar a dinamizar o movimento e a força das ideias nos territórios a conquistar. Só que agora a força da mudança não vem da promoção da união socialista de todos os povos para um novo futuro melhor, mas sim da recuperação do grandioso passado de cada povo. Na realidade, o objectivo de Putin é apenas o caos e o enfraquecimento das estruturas de poder na Europa e na América.

Para um país que só na imaginação do seu ditador ainda compete para a liderança global, os resultados dos investimentos em movimentos políticos populistas locais foram, para já, fabulosos: (1) o Brexit no Reino Unido, que poderia ter marcado o início do fim da força europeia e (2) a reeleição de Trump nos EUA, que trouxe a desarticulação da liderança americana sobre o mundo. Enquanto os ingleses descobrem a infelicidade de terem uma economia mais pequena porque perderam o seu maior mercado, os americanos e o mundo inteiro tentam compreender o que lhes pode vir acontecer com uma liderança sem previsibilidade e sem estratégia e que dispensa a existência de aliados.

O processo da revolução patriótica exportada por Putin continua imparável, com o financiamento de movimentos políticos populistas nos países europeus. O objectivo de destruição da União Europeia acaba por ficar associado à simpatia a uma causa de regeneração moral, guiada pelas elites russas, que se assumem como guardiãs de superiores costumes mas onde os opositores saltam alegremente das janelas. Que inspiração fantástica para o futuro das actuais democracias! Apesar do percalço na Hungria, Putin conta ainda com a dependência financeira de movimentos políticos que na Alemanha sonham em revisitar a glória do Reich, em França a grandiosidade do Estado e em Itália, Espanha e Portugal o regresso dos ditadores dos anos 30 do Séc. XX. Também não falta sequer palco aos saudosistas do Sagrado Império Austro-húngaro. Alguns destes movimentos pensam estar na iminência de aceder ao poder no seu país, mas no final o que poderá vir a acontecer é a solução que os Ucranianos conhecem.

Seria profundamente errado atribuir o mérito da destruição da democracia ao génio e ao petróleo de Putin, já que a maior parte da responsabilidade cabe aos políticos tradicionais da Europa e dos EUA que não estiveram à altura da protecção dos interesses das suas populações. O empenho militante que manifestaram a campanhas de causas exotéricas, alienou a confiança dos eleitores e entregou-os à mercê dos populistas. O que seria essencial promover, a defesa da independência política e económica, acabou por ficar submergida pelo ruído identitário e pelos gritos de ódio ao outro. Onde era necessário haver união, impera agora a desconfiança.

O problema para a Europa é que a situação é muito grave, porque os remédios são urgentes e os custos das reformas são importantes:

Sem a protecção americana, a independência política europeia exige uma força militar que ainda não existe e cuja construção implica tempo e sacrifícios que as lideranças políticas nunca tiveram coragem de explicar.

Com o acesso limitado aos mercados americanos e chinês, as indústrias exportadoras europeias têm de se reconverter, não sendo os políticos actuais culpados da crise.

Também a reconversão energética é imperiosa, não só pelos efeitos visíveis sobre o clima, como pelas incertezas no custo e no abastecimento de energia.

Para o panorama ser completo, falta sublinhar que nas actuais condições demográficas e económicas, vai ser necessário reformar o estado social, diminuindo sensivelmente os custos.

Não sendo coincidência, o que resulta destas dificuldades, são os temas eleitos pelos populistas para demonstrar o falhanço dos governos democráticos.

Como dizia Confúcio:

“Há três coisas essenciais ao exercício do poder: armas, comida e confiança. Se um líder não consegue dispor de todas deve abdicar primeiro das armas e da comida depois. A confiança deve ser mantida até ao fim. Sem confiança não existimos. “

O problema dos Europeus é responder a estes três requisitos.

Começando pelo último.

Porque senão, não existimos.