Em 1975, na Universidade de Stanford, investigadores convidaram um grupo de pessoas para participarem num estudo sobre suicídio, que acabou por vir a demonstrar as limitações da razão no processo cognitivo humano.

O referido estudo consistiu na apresentação de cartas de suicídio aos participantes, sendo que algumas dessas missivas tinham realmente sido escritas por pessoas que cometeram suicídio e a outra metade tinham sido falseadas. Aos participantes foi pedido para distinguirem as cartas de suicídio verdadeiras das falsas.

Alguns deles descobriram que eram particularmente exímios nessa tarefa, uma vez que lhes foi transmitido que identificaram as cartas de suicídio verdadeiras com mais frequência que outros, que teriam identificado em menor número as cartas de suicídio ditas verdadeiras das falseadas.

Assim, quando os scores alcançados, na tarefa ora apresentada, foram transmitidos aos participantes estes tiveram a percepção exacta do seu sucesso e insucesso, sendo que a quem se transmitiu a obtenção de bons resultados formou a convicção de que era realmente dotado na realização dessa tarefa específica, enquanto que os demais aferiram ser pouco capacitados para esse mesmo efeito

Porém, como acontece em muitos estudos na área da psicologia, o que foi transmitido acerca do sucesso/insucesso dos estudantes não teve correspondência com o ocorrido, ou seja, muitos dos estudantes, que identificaram correctamente as verdadeiras cartas de suicídio, foram levados a pensar que as identificaram erroneamente e vice-versa.

Apesar dos dados acerca do sucesso/insucesso da tarefa em apreço terem sido ficcionados, os estudantes formaram fortes convicções e crenças acerca da sua performance cognitiva, convicções e crenças essas que, apesar de não corresponderem às suas reais performances, toldaram a partir daquele momento o modo como eles se passaram a percepcionar em relação aquela temática e também o modo como os outros os passaram a percepcionar.

Este estudo veio provar que, habitualmente, as pessoas enquadram o mundo dentro dos parâmetros passíveis de lhes providenciar mais sentido para a sua vivencia e para a suas crenças, tendendo naturalmente a rejeitar informação, ainda que verdadeira, que isso contrarie e, por outro lado, a corroborar informação, ainda que falsa, que isso confirme.

Este estudo veio provar que as pessoas priorizam toda e qualquer informação que lhes proporcione uma sensação de conforto, mesmo que essa informação não seja fidedigna. Daqui advém que a leitura que as pessoas fazem do mundo que as rodeia e das pessoas com quem se cruzam e interagem está, pois, refém das várias distorções de julgamento e vieses cognitivos que se vão somando ao longo da vida.

Pressupõe-se assim que a razão se trata de uma característica evolutiva do ser humano, fruto de uma adaptação constante ao meio circundante e esta evidência demonstra, claramente, o quão facilitada pode estar a criação de factos alternativos à verdadeira realidade, sendo também por esse motivo que a adequada compreensão dos fenómenos cognitivos, que impactam essa mesma realidade, se reveste, na actualidade, de uma importância tão necessária quanto urgente.

A procura de ferramentas de correcção de possíveis vieses cognitivos, bem como consequente mitigação dos efeitos nocivos que daí podem advir, são indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa e adequada às reais necessidades dos cidadãos, das populações e dos territórios.

Neste sentido, extrapolando o descrito para o mundo político-partidário, parece importante ressalvar que deve ser incessante a procura e exigência de uma melhor actuação dos seus principais actores: os políticos. Essa actuação terá de estar alicerçada no combate cerrado aos vieses cognitivos que influenciam processos decisórios que decorrem do exercício das suas funções.

Quem é mandatado para proceder à condução de políticas públicas deve primar por performances que se adequem às reais necessidades das populações e territórios imiscuindo-se concomitantemente da disseminação de informações que, apesar de saberem ser falsas, poderem vir a ser facilmente acolhidas como verdadeiras pelos eleitores, simplesmente porque, como decorre do já explanado, as pessoas facilmente tendem a acreditar serem verdadeiros determinados factos só porque isso é mais confortável para elas e para a perpetuação das suas crenças..

Há que fazer um esforço para ver o mundo como ele é e não como queremos que seja. Há que fazer um esforço para que, nesta altura de sucessivas eleições, se conseguir ver os candidatos ou incumbentes como eles realmente são e não como parecem ser ou querem parecer ser.

Há que tentar reverter a tendência inerente às limitações da razão humana e ter opiniões sustentadas por factos, ao invés de intrincados e perigosos vieses cognitivos…porque as aparências iludem!