A administração autónoma do Estado é o pilar da prossecução dos interesses próprios das populações, ora promovido através da actuação dos seus órgãos representativos. As autarquias orientam assim a  sua actividade para a resolução dos problemas das pessoas, numa perspetiva de primado do bem comum, desenvolvendo a sua actividade num determinado território num contexto de proximidade

Poderá pois afirmar-se que as autarquias são inequivocamente um dos mais importantes pilares onde assenta a democracia e as eleições autárquicas são, por tal, um momento de grande importância para o país.

Pende sobre as eleições autárquicas que se avizinham uma importância acrescida face à conjuntura política  em que o país está enredado desde as últimas legislativas. Com uma extrema direita cada vez mais visível e organizada, a possibilidade do partido Chega consolidar a sua presença ao nível local é real e a sua consequente normalização pela implantação autárquica também.

As eleições autárquicas, para além de um teste à força e capacidade dos partidos políticos que se irão apresentar a votos, serão ainda responsáveis por produzir um retrato do país político nos próximos tempos e de como se comportará a sociedade portuguesa em consequência disso.

A luta pré eleitoral está já em curso com a pujança que, por isso, já  era expectável face ao que se encontra em jogo.

Desfile de sorrisos treinados e mãos estendidas; catadupa de frases feitas cheias de promessas  convenientes para ir ao encontro dos desejos dos eleitores; combate silencioso de egos e vaidades dos candidatos integrados nas listas. Na luta pela conquista de votos  vale quase tudo!

Ao eleitor cabe a hercúlea tarefa de saber ouvir para além das promessas e ver para além das aparências criadas pelo marketing político- partidário.

Ao eleitor cabe a  hercúlea tarefa de efectuar a destrinça entre os candidatos com vontade genuína de servir os outros e aqueles que só pretendem servir as próprias ambições pessoais e as teias de interesses que os circundam.

Através do voto, cada munícipe torna-se responsável pelo rumo que a sua cidade vai ter nos próximos quatro anos.

Exige-se pois ponderação na escolha.

Exige-se que essa escolha tenha em linha de conta que as decisões tomadas a nível local  moldam efectivamente a vida das pessoas, designadamente o impulso económico-social e a qualidade de vida das cidades onde estas habitam.

É certo que as eleições, como forma de escrutínio político, nem sempre permitem que o eleitorado escolha o candidato mais adequado para o lugar. Nem sempre o eleitorado consegue fazer uma adequada avaliação à propaganda disseminada por quem se candidata ou recandidata, desde logo porque o acesso à informação por parte dos munícipes ainda é bastante assimétrico no nosso país.

No entanto, os munícipes têm de efectuar um real esforço para escapar a exercícios de manipulação pré-eleitoral e, não raras vezes, ao encantamento sociopático de alguns candidatos.

Os eleitores têm de fazer um esforço para analisar cada um dos candidatos e saber discernir se as propostas que apresentam são ou não as mais adequadas para o território que estes se propõem gerir e administrar.

Os partidos políticos têm vindo a perder o seu pendor ideológico o que os leva, especialmente nas autárquicas, a centralizar no cabeça de lista o chamariz preferencial para a caça aos votos. Os resultados do sufrágio dependem assim, em larga medida, dos cabeças de lista associados a cada partido ou movimento independente. Torna-se pois fulcral que os eleitores analisem com minúcia o perfil de cada um dos cabeças de lista uma vez que as dinâmicas intrapartidárias, que contextualizam o recrutamento dos restantes candidatos que constam nas listas, tendem a ser actualmente processos miserabilistas que geram escolhas irrelevantes quer do ponto de vista curricular, quer do ponto de vista da competência para exercer os mandatos a que se candidatam, bem como ao nível do comprometimento ao cumprimento do programa eleitoral que os deveria nortear.

Uma escolha atenta e responsável dos munícipes nestas eleições poderá travar a ascensão ou a perpetuação ao leme do poder autárquico de idiotas. Poderá evitar a continua normalização de uma subcultura perigosa, tantas vezes corrupta, responsável pela banalização de um submundo de candidatos que conspurca as nossas cidades e o nosso território em prol de interesses pessoais.

Evitar a todos o custo a ascensão ou perpetuação de idiotas nas autarquias, evitando as vis consequências dessa ascensão, poderia ser, a médio/longo prazo uma das formas de impermeabilizar o poder local ao populismo.

Resta saber se, na conjuntura actual, ainda haverá possibilidade para que essa impermeabilização aconteça.

(Escrito de acordo com a antiga ortografia)