Hoje, como habitualmente, andei de Metro. Facto irrelevante? Talvez. Mas a cada dia um maior desafio à nossa paciência. O serviço está pior, absolutamente imprevisível e muito mais frágil. Aliás, usando-o numa base diária há 10 anos, a deterioração do mesmo é absolutamente notória, e se não preocupa grandemente quem de direito, deveria.

Em qualquer serviço se justificam falhas, de diversa ordem, mas apenas e só se estas não forem permanentes. Ora, no Metro de Lisboa as falhas deixaram de ser excecionais. Aquilo que sentimos todos os dias, nas plataformas, nos atrasos constantes, nas interrupções sucessivas e na incapacidade crónica de cumprir horários mínimos, é que o serviço simplesmente não está feito para ser utilizado. Ou, quando muito, não para o ser pelo número (sempre crescente) de utilizadores atuais.

Temos problemas estruturais. Quase não há dia em que não haja uma linha que pára sem aviso – “pára” ao invés de “para”, que aqui o novo acordo ortográfico não faz sentido – ou em que composições são suprimidas em horas de ponta. A comunicação é arcaica, completamente alheada da realidade digital em que vivemos, e a gestão, que poderia fazer um real esforço para que isto mude, não o parece fazer. Aliás, como certamente concordará, se este esforço existisse o serviço não estaria em declínio há anos.

Numa triste súmula pode dizer-se que para milhares de pessoas o Metro deixou de ser um meio fiável de transporte e passou a ser uma roleta.

Este facto por si só, ou seja, a existência de um meio de transporte essencial no qual não podemos confiar, já é grave, porém o problema é bem mais profundo do que o incómodo quotidiano que causa a quem o utiliza.

Se pensarmos em transportes públicos, na sua forma de utilização e nas vantagens para as nossas vidas, o Metro salta à vista porque representa uma forma de nos movermos independentemente do trânsito. Quantas vezes demoramos menos tempo de metro do ponto A ao ponto B do que demoraríamos de carro. Esta é a verdadeira importância de um transporte subterrâneo e é por isto que num sistema equilibrado e funcional o metro representa a espinha dorsal de uma cidade moderna.

Concretamente, uma rede de metro eficiente, previsível e alargada permitiria que mais pessoas vivessem fora do centro da cidade, sem perder qualidade de vida nem tempo excessivo em deslocações. Já só isto reduziria a pressão habitacional nas zonas centrais o que, logicamente, ajudaria a conter os preços das casas e promoveria uma Lisboa mais policêntrica.

Se acima temos o deve, o haver não é tão côr-de-rosa. Aquilo que infelizmente vemos é uma expansão da rede muito lenta, para locais que não ajudarão no desígnio da “descentralização” e constantemente adiada. O resultado disto é a penalização, em tempo, stress e imprevisibilidade, de quem não pode viver no centro, criando assim um incentivo (e as pessoas movem-se por incentivos, nunca é demais lembrar) para que mais procura exista para casas em zonas centrais.

Não se pede aqui que se invente a roda. Basta que se olhe para outras grandes capitais europeias para realizar as vantagens, sobretudo em expansão da malha urbana, que uma rede de Metro desenvolvida pode trazer. Como em tantos outros temas, Portugal continua sem as conseguir atingir.