Lembro-me de estar na escola e jogarmos a um jogo em que cada colega soprava para dentro de um balão, à vez, e o objetivo era simples: evitar ser o último a soprar antes de rebentar. Toda a gente sabia que a bolha ia estourar, restando apenas a dúvida de “Na cara de quem?”.

Hoje, olhando para os mercados financeiros, é difícil não sentir que estamos a jogar o mesmo jogo. As valorizações nas bolsas, sobretudo em torno das ações relacionadas com a inteligência artificial (Nvidia, Oracle, AMD, entre outras), lembram-nos que há muito mais ar (ou seja, expetativa de crescimento) do que substância. Próximo do que vimos em 2000 com a bolha das dot.com, empresas com pouca rentabilidade, ou mesmo somente com uma expectativa de rentabilidade futura, estão avaliadas como se fossem geradoras de riqueza infinita. Isto não é novo, já o vimo antes e sabemos como acaba.

Não faltam sinais de alerta. Os índices de volatilidade, que normalmente funcionam como termómetros de stress nos mercados, têm andado irrequietos (com uma subida de 5% no dia de escrita deste artigo). Isso, por si só, já é digno de nota. Mas somemos a este nervosismo escondido a subida persistente do ouro, que como bem sabemos é o ativo que brilha mais quando as nuvens aparecem no horizonte, o que leva a querer que grandes investidores, fundos e mesmo Estados já estiveram mais confiantes na rentabilidade do mercado do que hoje estão.

A sensação que tenho é a de que, uma vez mais, estamos todos a soprar para o balão. Uns por convicção, outros por medo de ficar de fora todos contribuímos para que este inche, sempre esperando que rebente na cara de outro que não na nossa. Ora, o problema é que é inevitável que o balão rebente e quando a bolha rebentar (sim, isto vai acontecer) o som não será de festa, mas de correção de uma valorização sem adesão à realidade.

O paralelo com o início dos anos 2000 é inevitável. Na altura, também se falava de disrupção, de novos paradigmas e de crescimento sem limites. Depois veio a realidade. Desta vez o tema é outro, mas os exageros são os mesmos.

Não se pense com isto que a IA vai deixar de ter o impacto que tem! Somos da opinião de que esta é mesmo disruptiva, vem trazer vantagens claras de produtividade e veio para ficar. Contudo também a internet fez tudo isto e não foi por isso que a bolha dot.com não rebentou.

O jogo continua. A bolha cresce. E resta-nos perceber se queremos continuar a soprar ou se preferimos sair antes que rebente.