Ainda não decidi qual vai ser a minha opinião sobre a chamada Lei da Burca. Há argumentos conflituantes. O meu lado liberal é contra qualquer proibição de indumentária. Mas o meu lado conservador sabe que há valores próprios da nossa civilização e cultura a que quem vem de fora se deve adaptar, para manter uma sociedade harmoniosa. O meu lado feminista, um bocado enojado, dá por si a concordar com o lado conservador e também quer a proibição da burca, pois abomina a opressão patriarcal que obriga as mulheres a cobrirem-se integralmente. Já o meu lado machista tem pena que o homem muçulmano perca uma ferramenta de controlo sobre as mulheres da sua família, mas acaba por ficar contente uma vez que agora, vendo a cara e as formas do corpo das muçulmanas que até esta lei usavam burca, já lhes pode atribuir notas, como faz com todas as mulheres com quem se cruza na rua. O meu lado machista vê sempre o copo meio cheio.

A direita, ao dizer que esta lei não tem que ver com muçulmanos, mas sim com segurança, está a ser fingida. Claro que tem que ver com muçulmanos. O objectivo é mostrar que há certos valores que os portugueses observam e que não são negociáveis para quem vem viver para Portugal. Mais vale admitir. Pior que esconder-se literalmente numa burca, é esconder-se metaforicamente num falso motivo.

Mas a esquerda também está a ser sonsinha. Quando diz que não faz sentido aprovar esta lei porque são pouquíssimas as mulheres que usam burca em Portugal, esquece-se que o facto de uma lei afectar poucas pessoas não é razão para deixar de existir. Aliás, essa fundamentação já foi usada pela mesma esquerda para justificar uma lei: quando aprovaram o adicional ao IMI, disseram que atingia menos de 1% dos contribuintes. Nessa altura, a lei aplicar-se a uma percentagem ínfima da população não só não era visto como um obstáculo, como era encarado como um óptimo argumento a favor.

Aliás, quando há capital envolvido, a esquerda quer acabar com o encobrimento. Daí estarem sempre a clamar pelo fim dos off-shores. A única maneira de vermos a esquerda votar a favor da proibição da burca é se estiver convencida que as mulheres as usam para esconder dinheiro.

Também é curioso que a esquerda não diz que não há problema com a questão de haver mulheres muçulmanas obrigadas a usar burca. O que diz é que são poucas, portanto não se devia perder tempo com isto. Tem razão, a esquerda. Em Portugal não se vêem assim tantas mulheres de burca na rua. Em teoria, até pode ser que haja só uma no país inteiro. Sempre que aparece alguém de burca, é ela. Com a cara tapada, é impossível saber.