Na semana passada, o sociólogo Boaventura Sousa Santos deu uma entrevista em que acusa o neoliberalismo de estar por trás das queixas de assédio sexual que foram apresentadas por 13 mulheres do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. O neoliberalismo serve de desculpa para tudo. É como os fenómenos naturais, que agora são todos causados pelas alterações climáticas – que, nem de propósito, são também culpa do neoliberalismo. A ideologia do neoliberalismo tem as costas tão largas que nunca foi apalpada pelo Prof. Boaventura, porque o sociólogo prefere dorsos torneados e mais petit.
Segundo BSS, as suas acusadoras “são vítimas do neoliberalismo que se instalou e é pena que não assumam a sua responsabilidade, porque isso é típico do neoliberalismo, é transferir para os outros as responsabilidades”. É verdade, a recusa em assumir responsabilidade é típica do neoliberalismo. Boaventura tem razão ao referi-lo nesta entrevista em que recusa assumir responsabilidades.
Ora, por detrás dos chistes e do folclore, se quisermos ver para além do excentricidade que é ver Boaventura defender-se das acusações com o argumento de que o neoliberalismo é que apalpou as vítimas, há que admitir que o emérito sociólogo tem razão. Temos de levar a sério a ligação entre o tipo de comportamento predador de Boaventura e as possibilidades que o capitalismo propicia. Boaventura tem 85 anos, é um marialva do antigamente, do tempo em que o assédio era feito por carta, telegrama, à frente da tasca ou à janela. Demorava imenso tempo até conseguir traumatizar uma mulher. Era preciso maçar muito, repetidamente. Sucede que agora, através do neoliberalismo e das suas ferramentas, o processo de perseguição a uma mulher é muito mais rápido e intenso. Basta imaginar o Prof. Boaventura com acesso a um iPhone e a uma conta de TikTok, a enviar mensagens não solicitadas a raparigas. Não iam ser só as mulheres do CES, qualquer moça de Coimbra estaria habilitada a receber uma fotografia da bengala de Boaventura. Um Boaventura com 5G é um Boaventura aditivado. Um Boaventurbo.
Desde que a Netflix estreou a série “Adolescência”, têm-se discutido os efeitos nefastos da tecnologia nos jovens, nomeadamente da internet e das redes sociais. Tudo verdade, o impacto nos mais novos é indesmentível. Não têm maturidade para, de repente, se verem confrontados com a agressividade dos insultos online, com a torrente de pornografia disponível, com o grau de intrusão na vida privada. Mas e o que dizer dos idosos? Há uns tempos viviam com 2 canais de televisão e um telefone de disco, agora têm o Twitter. Julgo que talvez seja oportuno os criadores de “Adolescência” pensaram numa sequela dedicada aos malefícios das redes sociais nos velhinhos. Podem chamar-lhe “Senescência”. Com uma personagem baseada em Boaventura, que se desgraça por causa do Instagram.
Entretanto, este caso tem sido usado para efeitos políticos, forçando uma ligação entre Boaventura e o Bloco de Esquerda. Mas trata-se de uma relação espúria, sem colagem à realidade. Boaventura não tem qualquer afinidade com o Bloco. Basta ver que ainda recentemente o Bloco correu com grávidas e recém-mamãs ainda lactantes, coisa que uma pessoa como Boaventura nunca faria. O Prof. Boaventura Sousa Santos adora mamas, não ia perder a oportunidade de vislumbrá-las na altura em que estão mais volumosas.
Basta ouvir a entrevista que deu à CNN para perceber que Boaventura é um homem sério. Às tantas, refere que o médico lhe disse: “Professor Boaventura, o senhor ultimamente tem tido muito peso em cima de si”. O que comprova que, mesmo no meio desta história, Boaventura permanece um intelectual engajado e rejeita ocupar a posição de domínio heteropatriarcal, preferindo ficar por baixo, com o peso em cima de si. Isto não é o retrato de um abusador.