A 30 de Abril de 1975 caiu Saigão. Foi há 50 anos. A queda tornou-se um símbolo, não só de uma vitória comunista, mas de uma derrota do Ocidente perante o Oriente. Tinha havido outras derrotas semelhantes, na guerra russo-japonesa de 1904-1905, datas memoráveis porque, nesses tempos de Imperialismo, a regra era “os ocidentais”, com velas e canhões, ou máquinas a vapor e canhões, saírem vitoriosos dos recontros.
Mas às vezes não saíam. Às vezes, eram os outros que ganhavam. Foi assim que os sioux do Sitting Bull, do Touro Sentado, derrotaram o general Custer, e que os abissínios do imperador Menelik II esmagaram em Addua os italianos do general Baratieri.
A queda de Saigão em 1975 era o fim de uma longa guerra vitoriosa para os dirigentes comunistas do Vietname do Norte, Ho Chi Min e o general Giap, que 21 anos antes, em 7 de Maio de 1954, tinham tomado o campo entrincheirado de Dien Bien Phu, aprisionando milhares de militares franceses. O campo entrincheirado tinha sido uma decisão estratégica infeliz do general Navarre, o comandante militar da Indochina.
Mas, poucos dias antes da queda de Saigão, caíra Phnom Penh, capital do Cambodja. E caíra nas mãos daqueles que, pela rigorosa aplicação da sua ideologia, viriam a tornar-se famosos numa actividade em que tinham séria e pródiga competição: a práctica do crime contra a Humanidade.
Nesse século XX, concorrentes não faltavam ao Cambodja: os comunistas de Lenine e Estaline tinham inaugurado a modalidade na guerra civil russa, aniquilando os inimigos, aristocratas, burgueses e cristãos, por métodos que levariam historiadores como Ernst Nolte e Andreas Hillgruber a falar em genocídio de classe. Seguira-se, na competição, o hitlerismo, com as suas leis de pureza racial e o extermínio dos judeus na Europa ocupada. Mas se Hitler se concentrara nos judeus e nos estrangeiros, Estaline dedicara-se a exterminar os seus compatriotas, entre os quais muitos comunistas. Foi talvez o homem que mais comunistas matou.
Depois, a partir de 1949, encontrou um competidor à altura: outro correligionário, outro comunista. Mao Tse-Tung matou dezenas de milhões de compatriotas através de programas de engenharia económica, como o Grande Salto em Frente (1958-1962), ou de educação ideológica, como a Revolução Cultural (1966-1976). O “Grande Timoneiro” não recuava perante os custos humanos ou materiais dos seus projectos e o Grande Salto, com a colectivização forçada das terras e a “revolução industrial” acelerada, saldou-se em dezenas de milhões de mortos à fome. E não contente com o desastre, lançou-se, em 1966, numa nova iniciativa colectiva, a Revolução Cultural, levando o terrorismo policial e de Estado a dimensões de paranóia e terror nunca vistas.
Apesar destes horrores (ou por causa deles, nunca se sabe …), Portugal, há 50 anos, estava cheio de admiradores do ditador chinês, que, segundo a biografia de Jung Chang, foi responsável, só na Grande Fome de 1958-1961, por 38 milhões de mortos. “Pior que Hitler e Estaline”, declararia a romancista de Os Cisnes Selvagens. Mesmo assim, muitos “antifascistas” locais, inquietos com as malfeitorias de Salazar e da PIDE, não se inibiam de seguir o Grande Timoneiro. Por ignorância, espera-se.
Como também não se inibiam de saudar – também por ignorância e cegueira ideológica, espera-se – a vitória dos Kmers Vermelhos a 17 de Abril de 1975 como uma vitória da democracia e do povo rumo à construção de mais um paraíso na terra.
E se todo o paraíso artificial precisa de terraplanagem este não foi diferente. Ou foi, se olharmos para a ratio população/vitimas, comparada com a dos morticínios do comunismo soviético, do comunismo maoísta, do hitlerismo nazista. Se os números absolutos das vítimas do maoísmo (70-80 milhões) são os maiores entre os grandes crimes contra a Humanidade no século XX, logo seguidos pelos do comunismo soviético (15-20 milhões) e pelos do Holocausto hitleriano, com os seus seis milhões de judeus exterminados, os números relativos da limpeza no Cambodja (um terço da população do país) passam-lhes bem à frente.
Nos anos 60, sob o governo do astuto príncipe Norodom Sihanouk (1922-2012), o país seguia uma política de neutralidade na guerra entre o Vietnam do Norte comunista e o Vietname do Sul, pró-americano. Em 1970 um golpe de Long Noi expulsou Sihanouk e passou o Cambodja para o lado americano. Mas nas selvas cambodjanas, uma forte guerrilha comunista, chefiada por um professor de liceu, Saloth Sar, de seu nome de guerra Pol Pot, apoiado por Pequim e por Pyongyang, iniciava a luta pelo poder ou pela libertação do povo.
Nem mesmo o mais radical dos esquerdistas lusos imaginaria, imagino eu, o requinte ideológico e a destreza prática dos Kmers Vermelhos: conquistada a capital, Phnom Penh, e assassinados os dirigentes políticos do tempo de Long Noi e as suas famílias, por que não varrer para o caixote do lixo da opressão os dois mil anos de História do Cambodja e esvaziar a capital de toda a sua população, para começar de novo, fazendo do passado tábua rasa?
A cidade tinha então dois milhões de habitantes, contando com os refugiados. Os Kmers Vermelhos deram-lhes guia de marcha para os campos. Pol Pot convivera com Mao e com os dirigentes da Coreia do Norte e seguia os mestres.
As cidades, as grandes cidades, eram o centro da corrupção burguesa e havia que aniquilar o inimigo. Assim, tal como a capital, Phnom Penh, outras cidades do país foram esvaziadas de todos os que incorriam no crime de pertencer à classe média urbana.
A operação decorreu com o maior sucesso. Da população do Cambodja, que à data andava pelos 6.600.000 de habitantes, morreram, nos anos seguintes, entre 1.700.000 e 2.000.000 pessoas, isto é, um terço dos cambodjanos. O clima era de acusação de desvio à direita, de “heterodoxia burguesa”, de contaminação ideológica. E assim, de olhos postos na “pureza” revolucionária, na beleza do ideal, na generosidade da utopia, se iam ceifando incómodas realidades e existências. O costume.
O nº 107 da revista L’Histoire Collection, referente ao trimestre de Abril-Junho de 2025, é um número especial dedicado ao Cambodja e à sua História, sendo a terceira parte consagrada aos “3 ans, 8 mois, 20 jours” do “régime criminel”. Vale a pena ler o que foi nesses 3 anos, 8 meses e 20 dias o apocalipse de um povo sob a batuta de Saloth Sar, Pol Pot, e de alguns dos seus colaboradores mais directos.
Estranhamente, a deslocação forçada da população para novos espaços acabara mal, muito mal…. Mas como, se a doutrina era tão boa, a ideia de esvaziar cidades, de começar do zero? Também ali, a explicação seguiria os cânones epistemológicos da esquerda radical: se a doutrina era boa e estava certa e se a população tinha morrido em massa nos campos de trabalho de arroz inexistente, a culpa não era da doutrina, do ideal. Só podia ser sabotagem dos executores. Estava na hora de passar à purga interna, como na URSS e na China. E eis que uma unidade especial, a S21, dirigida por outro professor de liceu – Kaing Guek Eav, conhecido por Duch – entrou em acção. Em três anos, foram executadas cerca de 20.000 pessoas. A tal unidade especial, a S21, funcionava num antigo liceu da capital desertificada. Quem lá entrava, sabia, como no Inferno de Dante, que já de lá não sairia, que podia e devia perder toda a esperança.
Mas deixemos os círculos infernais para os nazis do passado, que é como quem diz para os neo-nazi-fascistas da extrema-direita do presente, que aqui, apesar dos erros de execução, é de imorredoiros ideais e de generosos professores de liceu e activistas que falamos… e não de grunhos, que ora são polícias ora são seguranças privados. Esses sim, cuidado com eles! Olhos vigilantes da Democracia e da República neles, que não passarão!