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A mandatária de Gadi Eisenkot para a juventude é Eliana Sachs, uma modelo israelita, sobredotada (acabou o curso de Química aos 17 anos), alto quadro de empresas de tecnologia, mas não foi por nenhuma destas vias que conheceu e se aproximou do homem que lidera as sondagens para as eleições desta terça-feira. O que começou por os unir foi a dor.
Eliana perdeu a mãe e o irmão depois de um ataque de um míssil iraniano à casa onde viviam, em Beersheva. O pai sobreviveu por ter ido à casa de banho nesse momento exato.
Gadi Eisenkot tinha perdido o filho em Gaza em dezembro de 2023, dois meses depois dos atentados do 7 de Outubro. No dia seguinte perdeu um sobrinho, também em combate em Gaza. E quase um ano depois outro sobrinho foi baleado pelo Hamas e morreu.
“Ele sabe qual é o custo das suas decisões, o custo pessoal”, diz Eliana ao Observador em Telavive, depois do comício de encerramento da campanha, onde foi uma das oradoras. Quando Eisenkot a convidou para liderar os jovens da candidatura, Eliana ainda hesitou dois minutos, apenas por questões relacionadas com a sua carreira profissional.
O que mais surpreendeu Eliana durante os contactos mais frequentes que mantiveram nesta campanha tão intensa foi ver precisamente a relação do candidato com outros familiares de vítimas: “Ele adia sempre a sua agenda se houver um soldado que tenha morrido, para ir ao funeral e prestar condolências à família. Isso demonstra o tipo de líder que ele é.”
▲ Eliana perdeu a mãe e o irmão depois de um ataque de um míssil iraniano à casa onde viviam, em Beersheva
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Os monstros do Hamas mataram o seu filho e os seus dois sobrinhos”
Outro orador no comício é Elia Elbag, pai de Liri, uma das reféns do 7 de Outubro: “A Liri esteve nos túneis do Hamas durante 477 dias em que não dormimos, não comemos, não respirámos. E não se faz mais nada a não ser pensar em trazer a Liri para casa.”
Foi no meio desse martírio que conheceu Gadi Eisenkot, quando ainda integrava o Gabinete de Guerra criado após os atentados. “O Gadi esteve sempre ao nosso lado.” E Elia ficou tão próximo que o foi abraçar em sua casa, depois da morte do filho de Eisenkot. Apesar das circunstâncias devastadoras, tirou tempo para falar com Elia e perguntou pela família, o que o deixou impressionado: “Mesmo tendo perdido o seu bem mais precioso, olhava para todos, olhava nos olhos de todos e dava-lhes força.”
A proximidade nota-se também na forma como Eisenkot lhe justificou pessoalmente a demissão do Gabinete de Guerra, em 2024. “Quando o Gadi se demitiu, demitiu-se com dor. Disse-me com profunda tristeza: ‘Não tenho como trabalhar’.”
▲ Gadi Eisenkot perdeu o filho em Gaza em dezembro de 2023, dois meses depois dos atentados do 7 de Outubro
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Os monstros do Hamas mataram o seu filho e os seus dois sobrinhos. Ninguém está mais comprometido do que o Gadi em erradicar o Hamas, isso eu sei!”, declara Elia Elbag.
No fim da sua intervenção, pede a toda a gente para se pôr de pé, acender as luzes dos telemóveis e agradecer às forças de segurança que lutaram pelo regresso da sua filha: “Quero agradecer ao Estado de Israel, agradecer aos cidadãos do Estado de Israel que estiveram connosco nas ruas, na chuva, no frio, e não nos deixaram um segundo. Graças a vós, a minha Liri e os restantes reféns voltaram a casa. Obrigado aos cidadãos do Estado de Israel, obrigado a ti, querido Gadi.”
A resposta do possível futuro ministro das Finanças ao caso “Bibicoin”
Shaul Meridor, o principal conselheiro económico de Eisenkot, é apontado como seu futuro ministro das Finanças. Ele não o confirma ao Observador, mas também não nega: “Primeiro é preciso ganhar as eleições e depois haverá tempo para isso”.
Garante que haverá “grande investimento em infraestruturas, inteligência artificial e energia”, mas aproveita para responder à ideia lançada por Netanyahu de que Israel devia promover as bitcoins para contornar as sanções económicas que virão a caminho.
▲ Shaul Meridor, o principal conselheiro económico de Eisenkot, é apontado como seu futuro ministro das Finanças
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Eisenkot usou um trocadilho mordaz quando lhe respondeu publicamente, chamando-lhe “Bibicoin”. O Banco de Israel alertou publicamente que as criptomoedas não podem ser usadas para contornar sanções internacionais.
Shaul Meridor não se perde em conceitos técnicos: “Isso é um absurdo completo. Demonstra o desespero de quem está a perder. Não se salva a economia de um país com bitcoins, salva-se mudando o rumo das ações e da diplomacia.”
A inexperiência política e retórica e o desafio da violência na Cisjordânia
Eisenkot não é um grande orador. Claro que os dois mil apoiantes que o veem discursar no comício de encerramento, em Telavive, neste domingo à noite, batem palmas nos momentos certos do discurso monocórdico, como é suposto. Mas falta-lhe a capacidade retórica importante para qualquer político conseguir mobilizar e entusiasmar multidões.
Também não tem propriamente uma grande experiência política. A experiência pode ser vista como cadastro em vez de currículo, mas alguma capacidade negocial será necessária para os complexos acordos entre vários partidos no Knesset, o Parlamento israelita, de forma a conseguir governar, se vencer as eleições com uma tão curta margem sobre o partido de Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro.
Isto torna fácil ao seu principal adversário acenar com o risco de Eisenkot ter de fazer um acordo com os partidos árabes para conseguir formar governo, o que pode assustar alguns eleitores indecisos em Israel.
▲ Dois mil apoiantes assistiram ao discurso de Eisenkot no comício de encerramento
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Também não tem um programa radicalmente diferente do de Netanyahu em termos de política externa: têm o mesmo discurso contra os dois Estados para Palestina e Israel, a mesma intransigência em relação ao Hamas e ao Irão. E, mesmo na Cisjordânia, Eisenkot manifestou apoio à política de expansão de colonatos legais, embora condene a violência entre colonos e palestinianos.
Shaul Meridor, o conselheiro económico, garante ao Observador que a prioridade será garantir a segurança de israelitas e palestinianos, com aplicação rigorosa da lei e da ordem: “Grupos de colonos extremistas que atacam civis palestinianos irão para a cadeia. Apenas o Exército tem o monopólio do uso da força. Eisenkot já demonstrou no passado que sabe combater o terrorismo com firmeza sem castigar populações civis inocentes.”
O inquérito ao 7 de Outubro, o fim do Hamas e a batalha com os ultraortodoxos
Ao longo dos 20 minutos do seu último discurso de campanha, o candidato dramatiza: “Querem um governo sob a minha liderança ou a repetição do filme de terror dos últimos quatro anos?”
E diz explicitamente o nome do principal adversário: “Netanyahu quer um empate. Só assim poderá alegar que precisa de continuar no cargo. Ele prefere ir para novas eleições a largar o poder. Não podemos permitir que isso aconteça! Na terça-feira, Netanyahu tem de ir para casa!” (A leitura deste parágrafo começou por ser recebida com vaias ao nome do primeiro-ministro e acabou com aplausos efusivos).
Reafirma as suas bandeiras eleitorais, três delas com um prazo claro: criar uma comissão de inquérito independente ao 7 de Outubro logo no primeiro dia de governo; lei de serviço militar igualitário para todos (e não precisa de dizer que se está a referir aos ultraortodoxos) ao fim de uma semana; um prazo de 18 meses para Gaza deixar de ser governada pelo Hamas, que lhe matou o filho (“Não há ninguém mais comprometido com o desmantelamento do Hamas do que eu!”).
Também promete o corte do financiamento público para as escolas que não ensinem as disciplinas fundamentais, como Matemática, Inglês e Ciências (e também aqui não é necessário mencionar explicitamente os ultraortodoxos, que não ensinam estas matérias às crianças).
▲ Antes de o comício terminar com o hino nacional entoado de pé no palco e na plateia
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O hino contra Bibi e os dois tipos de ladrões
Eisenkot aproveita este discurso para falar sobretudo na ideia de uma nova era, “sem mentiras, sem manipulações e sem interesses alheios”, numa alusão crítica ao que considerou o “Governo dos extremistas, do fiasco e da rutura”.
Antes de o comício terminar com o hino nacional entoado de pé no palco e na plateia, há dois detalhes menos solenes: ouve-se o hino de campanha de Eisenkot, que adaptou satiricamente a letra para uma referência a Netanyahu: “Sim, Bibi, também para ti a festa acabou… “; e o próprio speaker da candidatura cita (erradamente) Voltaire para comparar dois tipos de ladrões: “O primeiro rouba-te o relógio ou a carteira; o ladrão político rouba-te a saúde, a educação dos teus filhos, o teu futuro e os teus sonhos. O primeiro ladrão escolhe-te a ti; ao ladrão político, somos nós que o escolhemos! Lembrem-se bem disto: não votaremos mais em ladrões!” Recebeu quase mais aplausos do que o discurso de Eisenkot.
Depois do comício, em conversa com o Observador, Shaul Meridor, o possível futuro ministro das Finanças, acentua esta comparação a partir do seu próprio contacto diário com Eisenkot: “Ele é o oposto de Netanyahu em todos os aspetos. Foi Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, um líder muito honesto, mas sobretudo um líder que toma decisões difíceis quando sabe que precisam de ser tomadas. É autêntico, vê-se nos olhos dele. Quando apertas a mão ao Gadi, o acordo está feito. Não precisas de ter medo de levar uma facada nas costas a seguir. É um homem de palavra, que pagou o maior preço de todos com a perda do filho e de dois sobrinhos.”
[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]