Com quase um ano de avanço sobre o 25 de Janeiro de 2026, perfilam-se já, quais cadetes em parada, os candidatos apoiados pelos principais partidos. Desta vez, contudo, o oficial que passa em revista tem patente de Almirante.
Bem sabemos que as eleições presidenciais não têm um perspectiva partidária, nem são os partidos a designar estes candidatos, porém, não podemos deixar de notar que raras vezes tivemos, na nossa história democrática, partidos que tenham passado indiferentes a uma eleição presidencial, não apoiando, directa ou indirectamente, um dos nomes envolvidos. Seja como prova de vida, tempo de antena ou verdadeira convicção, chegamos a ver partidos fundadores da democracia a ter dois ou mais dos seus militantes a fazer dividir apoios internos e externos. É, aliás, habitual que máquinas partidárias se reativem (unidas ou não) neste período, alimentando arruadas e jantares comício nos mais diversos locais. Em súmula, é comum termos no nosso inconsciente uma cor associada a cada um dos candidatos.
A descrição acima relata aquilo que já vimos acontecer numerosas vezes à nossa porta, todavia, estes cenários têm sempre nuances e, desta vez, poderemos estar perante uma bastante grande. Desafio qualquer dos leitores a associar mentalmente uma cor ao Almirante Gouveia e Melo. (Sim, ainda não é candidato, mas duvido que muitos – ou mesmo alguém – ache que não será.) Conseguiu atribuir-lhe uma cor? Se sim, os meus parabéns. Eu não.
A campanha do Almirante ainda não arrancou; este ainda não é oficialmente candidato; não tem agenda; não tem slogan; não tem uma lista (formal) de apoios; mas tem algo mais do que os restantes candidatos. O Almirante espelha uma certeza, por parte da população, de que será eleito. Algo que, aliás, as sondagens confirmam.
Esta pedrada no charco é-o de forma diferente daquilo que em 2016 vimos com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Aí era a figura, a popularidade, os comentários ao domingo à noite e o ar de “cara conhecida” que o faziam estar, automaticamente, na frente. Aqui tal não acontece, e por um simples motivo: O que conhece do Almirante? Qual o seu pensamento político? Lê romances? É de esquerda? É de direita? Já escalou o Pico? Tem competência a cumprimentar idosas em feiras? Não sabemos. Quase nada sabemos. Não lhe reconhecemos muito mais do que a competência na organização do programa vacinal, por um lado, e a sua carreira (virada mais para dentro do que para fora) na Armada, por outro.
Mas há algo que lhe reconhecemos. Ele não é, nem nunca foi do “meio”. Não é do centrão, não é cara de um partido, nunca ocupou um cargo público electivo de relevância, basicamente, não é um político. E isso é o que o coloca imediatamente na frente da corrida para Belém. O Almirante é um outsider, algo que nenhum dos outros candidatos é ou poderá verdadeiramente ser. Ora, esta realidade só pode servir para refletirmos sobre o porquê de preferirmos, colectivamente, um desconhecido a um conhecido de um certo ciclo.
Se nos perguntamos se “Estão a correr bem as coisas do ponto de vista governativo nas últimas décadas?”, torna-se claro que as sondagens que colocam o Almirante à frente devem ser interpretadas como parte do “não” na resposta a esta questão. Estas sondagens refletem, pois, parte de um movimento que internacionalmente, e agora também crescentemente por cá, tem dado de si. Um movimento que procura algo mais, e algo de diferente daquilo que lhe foi apresentado até agora.
Ora, se este movimento continua claramente a ganhar a dimensão que estamos a assistir em várias áreas, então talvez seja a altura para, seriamente e como um todo, refletirmos sobre isto.
Não nos esqueçamos que, concordando mais ou menos com certas correntes do pensamento, em democracia vale a maioria, e, pela amostragem que aqui temos, esta não se encontra muito satisfeita.
Se num restaurante com apenas dois pratos, salmão ou a sugestão do chefe, eu escolho a sugestão do chefe mesmo sem saber o que esta seja, então é porque não gosto mesmo nada de salmão.