Nas horas mais negras, a única coisa que nos resta é agarrarmo-nos aos princípios e aos valores. Bem sei que vivemos numa era profundamente moldada por uma lógica utilitarista — onde o que conta é o imediato, o que dá retorno rápido, o que se mede em gráficos de curto prazo. Mas acredito que isso não pode sobrepor-se à dignidade. Seja a dignidade de uma pessoa ou de uma profissão. Acredito, aliás, que essa visão utilitarista é frequentemente míope: foca-se no imediato e despreza os efeitos a longo prazo — sobre as instituições, sobre as relações entre as pessoas e, no fundo, sobre a argamassa de valores que nos prende a todos na mesma sociedade.
A história dá-nos exemplos de quão frutuoso pode ser esse foco no respeito pela dignidade de quem nos rodeia. Muitos conhecem a história de Winston Churchill. Nos dias tensos que antecederam a evacuação de Dunquerque, Churchill enfrentou uma pressão avassaladora para negociar um acordo de paz com Hitler, mediado por Mussolini. Muitos no seu próprio governo viam essa opção como inevitável. A derrota parecia certa. Mas Churchill recusou. Recusou não por calculismo ou fé irracional na vitória — mas porque compreendia que há momentos em que a dignidade de uma nação não pode ser hipotecada à lógica da conveniência. Acreditava, acima de tudo, que certos princípios não são negociáveis. E que vale a pena lutar por eles, mesmo quando a vitória parece improvável.
É claro que não vivemos hoje uma guerra e bem sei que nenhuma questão contemporânea pode ser comparada à negritude da hora vivida por Churchill. Mas há combates que, sendo incruentos, não deixam de ser decisivos. Combates que se travam em nome da justiça, da coerência e da dignidade das instituições. A revisão da carreira de Administração Hospitalar é um desses combates.
Durante décadas, os administradores hospitalares portugueses têm sido o alicerce discreto mas indispensável de hospitais e unidades de saúde em todo o país. São eles que asseguram, todos os dias, a direção operacional de serviços, a coordenação de equipas multidisciplinares, a organização dos circuitos de doentes e a resposta a emergências logísticas, financeiras e humanas. Em cada ULS, em cada bloco operatório, em cada centro de responsabilidade, está um administrador hospitalar a garantir que o sistema funciona — mesmo quando tudo parece conspirar contra.
A sua ação é determinante para termos hospitais mais produtivos e eficientes. E isso não é um detalhe técnico: mais produtividade significa mais consultas e cirurgias realizadas, mais camas disponíveis, mais resposta à população. Valorizar a Administração Hospitalar é, por isso, uma forma direta e eficaz de melhorar o acesso e a qualidade dos cuidados prestados aos cidadãos. Não rever esta carreira significa, na prática, fragilizar a liderança intermédia das unidades, enfraquecer a capacidade de execução dos hospitais e comprometer os ganhos de eficiência de que o país tanto precisa. É por isso que se exige coerência: quem passa a vida a proclamar que quer reforçar a gestão no SNS não pode, na prática, desvalorizar o trabalho dos administradores hospitalares portugueses. As palavras têm de corresponder aos atos — ou perdem valor.
Ao revermos esta carreira, não pedimos privilégios nem exceções. Pedimos justiça. Uma justiça que tarda, mas que não desistiremos de procurar. Porque não há modernização do SNS sem reforço da sua capacidade de gestão. E não há capacidade de gestão sem uma carreira atrativa, atualizada e capaz de fixar e desenvolver talento. Mas não se constrói um futuro sólido à custa de esquecer o passado. Não podemos deixar para trás profissionais que, há mais de 25 anos, têm servido o SNS com dedicação e competência, sem qualquer reconhecimento ou valorização na carreira. Ignorar essa realidade seria moldar o futuro com base na injustiça e na ingratidão. E haverá valor mais importante numa sociedade do que demonstrar — ainda que de forma mínima — gratidão por quem ajudou a construir o lugar onde estamos hoje? O reconhecimento do passado não é um gesto simbólico: é a base ética de qualquer reforma que pretenda ser séria, credível e sustentável.
Estamos suportados por uma razão forte e justa, e isso vai muito para além das circunstâncias que balizam as negociações em cada momento. Essa razão de justiça dá-nos o alento necessário para manter esta luta — pelo tempo que for necessário e pelos meios que estiverem ao nosso alcance — garantindo que, no final, o Serviço Nacional de Saúde possa contar com uma carreira digna, justa e capaz de atrair os melhores. Porque só é vencido quem desiste — e os administradores hospitalares, seguramente, não desistirão.
A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, enquanto única entidade representativa destes profissionais, manterá o seu espírito construtivo e total disponibilidade para alcançar um acordo justo — naturalmente balizado, e respeitando sempre os precedentes estabelecidos em processos negociais similares. Estamos certos de que o Governo não perderá a oportunidade de ser justo e deontologicamente correto, como se exige aos mais altos representantes da Nação.