Este artigo nasce de uma das muitas cartas que um pai alienado escreveu ao seu filho. Escreve-lhe porque não consegue falar, porque não é ouvido, porque amar um filho e não poder viver esse amor é uma dor que não cabe no silêncio.
Esta carta é o desabafo sincero de um pai alienado que, todos os dias, vê o seu lugar na vida do filho ser reduzido. Com dor e verdade, ele descreve o que é viver uma separação que não escolheu. De uma forma simples, mas profundamente dolorosa, a carta revela a realidade da alienação parental e dá voz a um pai alienado que ama o filho, mas que está a ser impedido de viver esse amor.
É o grito silencioso de um pai que se sente excluído da vida do próprio filho, mesmo partilhando a mesma casa durante o casamento. Através das suas palavras, percebemos que a alienação parental não fere apenas a criança, mas também a si próprio, porque vai sendo afastado, esquecido e ficando emocionalmente isolado.
O pai alienado escreve nesta carta: “Olá, filho, São 17:51h, é noite. Estou aqui dentro do nosso carro, no jardim da casa dos teus avós. Vi-te agora mesmo, ou melhor, vi o teu vulto. Ias no carro dos teus avós com eles e os teus primos. De pouco me valeu ter pedido aos colegas que me permitissem sair mais cedo. Muitos km levaram tempo demais a percorrer e cheguei tarde. Agora só te verei pelo jantar, no caso de não jantares na casa dos teus avós”. No seu testemunho, percebemos a frustração de um pai que tenta aproximar-se, mas chega sempre tarde. Ele organiza a sua vida em função do filho, percorre quilómetros, cria expectativas de estar com ele, mas acaba apenas por vê-lo de longe.
A expressão “vi o teu vulto” mostra bem isso, o filho está ali, mas não está realmente ao seu alcance. A alienação parental começa muitas vezes assim, com pequenas ausências que se tornam permanentes, como nos partilha este pai alienado: “Desta vez o sentido de injustiça trespassou o meu peito e não consegui evitar, telefonei primeiro para a avó Ana que me disse que tem 70 anos e que não quer saber destas coisas, eu sei que a avó merece paz, mas eu sinto-me tão sozinho e esmagado por tudo o que estas pessoas fazem para nos separar”. Aqui, o pai revela a sua solidão, procura apoio, mas encontra a distância. Sente que ninguém quer envolver-se, que ninguém o quer ouvir. A alienação parental não acontece só por atitudes explicitamente assumidas, mas também implicitamente, quando as pessoas à volta escolhem não intervir, não proteger e não questionar.
Ainda assim, nesta carta, , o pai alienado tenta fazer o que muitos pais fariam, falar com calma e pedir o mínimo, que o deixem estar com o filho: “Telefonei também para a mãe e pedi-lhe, com calma, que fizesse um exercício de empatia, que sou um pai que não vê o filho de manhã porque sai de madrugada de casa e apenas a queria visitar em casa dos avós. A mãe respondeu com um monte de gritos e ofensas, voltou a meter-me na rua da casa onde vivemos”. O que estas palavras mostram é um choque entre duas atitudes muito diferentes. De um lado, um pai que tenta explicar a sua realidade e pedir compreensão. Do outro, uma resposta imediata de gritos e ofensas, que não abre espaço para diálogo, nem para acordo. Em vez de se discutir o bem-estar do filho, instala-se um clima de confronto, onde a conversa termina em humilhação e expulsão.
O pai não está a pedir poder nem o controlo. Está apenas a pedir para estar com o filho. Quer vê-lo, nem que seja por pouco tempo e num lugar simples, como a casa dos avós. Mesmo assim, recebe uma resposta dura e agressiva. Quando diz que a mãe “voltou a meter-me a rua”, percebemos que o afastamento não é só emocional. É também real, físico e doloroso.
Em situações como esta, a casa deixa de ser um lugar de família e passa a ser um lugar onde o pai não se sente bem-vindo. Em vez de ser um espaço de proteção e de relação, transforma-se num espaço de tensão e afastamento. Mesmo sem separação ou divórcio, a alienação parental pode começar assim: não com um tribunal, mas com a repetição de gritos, recusas e expulsões que vão empurrando um dos pais para fora da vida da criança.
Nesta carta, o pai expressou ainda um sentimento muito forte de injustiça e de perda: “É tão injusto meu filho. É tão injusto nunca poderes estar com a minha família e quase não estares comigo. Nós gostamos muito de ti, o primo adora-te com todo o coração. Prepara-te brincadeiras que vocês nunca chegam a brincar, faz-te desenhos, fala de ti aos colegas e na família da sua mãe. Ele e o tio não te vêm desde o teu dia de aniversário”. Estas palavras mostram que a dor do pai não é apenas por estar longe do filho, mas por ver o filho afastado de uma parte inteira da sua vida. Ele fala da família, dos primos e dos tios, e de tudo o que fica por viver, das brincadeiras preparadas e nunca feitas, dos desenhos guardados, dos momentos que vão sendo adiados e que até parecerem impossíveis. Quando diz “nunca”, o pai está a descrever uma ausência que deixou de ser passageira e passou a ser uma regra.
Neste testemunho, percebe-se também como o filho não perde apenas o tempo com o seu pai, mas também a convivência, a pertença e a ligação a um lado da família que a ama e a espera. Aqui, a alienação parental aparece como uma espécie de corte lento, não é apenas “não ir”, é ir deixando de existir na vida dos outros, até que a distância pareça normal. E é isso que torna esta passagem tão dolorosa, a normalização de um afastamento que não devia acontecer.
Neste testemunho, percebemos também como um pai alienado pode aprende a adaptar-se à perda e à frustração constantes: “Ainda este fim de semana que passou nos convidaram aos três e estiverem à espera para irmos andar de bicicleta com eles. Não fomos. Existe sempre uma desculpa para não irmos. Ultimamente tenho conseguido que vocês se vejam na pastelaria, mas ainda assim raramente. Aquele lugar nunca mais será visto por mim como um café, mas sim como o espaço em que vocês se conseguiam ver. É tão injusto, filho. Dói tanto”. Estas palavras mostram como os encontros são sempre adiados, cancelados ou substituídos por desculpas. O pai percebe que a ausência já não é um acaso, mas uma repetição. O convite para andar de bicicleta transforma-se numa espera vazia. O encontro familiar transforma-se numa promessa que não se cumpre. Aos poucos, o pai alienado vai ajustando as suas expectativas de convivência, aceitando cada vez menos, porque já não lhe é permitido ter mais. Um simples café deixa de ser apenas um café e passa a representar o único lugar possível de contacto entre irmãos, tios e sobrinhos. O pai passa a olhar para esse espaço como um símbolo de resistência à perda da ligação entre eles. Aprende a viver com breves e raros momentos de encontro. Esta adaptação não é uma escolha, mas uma forma de sobrevivência emocional perante a perda contínua. O texto mostra, assim, como a alienação parental não retira apenas o convívio, mas também a esperança de normalidade. O pai continua a amar, continua a esperar, mas aprende a fazê-lo em silêncio, com dor e com uma sensação constante de injustiça.
O pai alienado termina a carta com uma frase curta, mas cheia de dor: “Talvez nunca te entregue esta carta. Desculpa”. Neste final, sente-se o peso do silêncio e da distância. Ele escreve, mas não sabe se o filho alguma vez lerá as suas palavras. A carta é, ao mesmo tempo, um gesto de amor e uma prova do afastamento. O “desculpa” não é por ter errado, mas por não conseguir estar presente como gostaria.
Este testemunho mostra um luto difícil de explicar, o filho está vivo, mas emocionalmente distante. O pai perde todos os dias um pouco do vínculo, sem despedidas, sem explicações e sem reconhecimento. Vive numa espera contínua, onde a esperança de reencontro existe, mas é sempre adiada. Aqui, a alienação parental deixa de ser apenas um problema entre adultos e torna-se uma dor profunda que marca a relação entre pai e filho.
A alienação parental constrói-se aos poucos, com palavras ditas e não ditas, com silêncios, desculpas, afastamentos e pequenas decisões diárias que vão cortando laços. A criança cresce sem entender por que foi afastada de quem a ama, e o pai aprende a amar à distância, em silêncio.