É muito importante para nós continuarmos a partilhar histórias verdadeiras de alienação parental. Histórias reais, contadas por mães e pais que viveram, na primeira pessoa, o afastamento progressivo dos seus filhos e que aceitaram revisitar connosco as experiências profundamente dolorosas que passaram, para que possamos compreender melhor aquilo que acontece no seio das suas famílias.

Os testemunhos permitem-nos conhecer a experiência de quem a viveu, o que aconteceu ao longo do tempo, como se foi transformando a relação com os filhos, quais foram os primeiros sinais de afastamento, que respostas foram encontradas e quais as consequências sentidas por quem viu uma relação parental progressivamente interrompida.

Depois de termos dado voz ao testemunho de um pai alienado, damos agora espaço à história de uma mãe que relata ter vivido um processo de alienação parental. Uma história diferente, com circunstâncias próprias, que importa conhecer na sua singularidade e sem generalizações.

Teremos também a oportunidade de partilhar a intervenção realizada no contexto com esta família, acompanhando o trabalho desenvolvido no terreno, as dinâmicas observadas e o caminho que foi sendo construído na tentativa de compreender e transformar a relação entre esta mãe alienada e os seus filhos.

Agradeço profundamente a esta mãe alienada a disponibilidade, a confiança e a coragem para partilhar a sua história. Dar voz a uma experiência tão íntima implica regressar a momentos difíceis, recuperar memórias e encontrar palavras para acontecimentos que, muitas vezes, continuam a provocar sofrimento, muito depois de terem ocorrido.

Ao longo dos próximos artigos, procuraremos reconstruir o percurso desta mãe alienada através da sua própria narrativa, mantendo integralmente as suas palavras sempre que apresentarmos o seu testemunho e distinguindo aquilo que esta mãe viveu e relata daquilo que nos foi possível observar diretamente durante a intervenção em contexto.

Falar de alienação parental não deve significar enunciar apenas os conceitos, as definições ou os processos judiciais. Significa também escutar as pessoas que a viveram, conhecer as suas histórias e compreender os seus percursos e, sobretudo, procurar compreender o que acontece a uma criança quando uma relação significativa com um dos seus pais se vai perdendo ao longo do tempo.

Esta é a história de uma mãe alienada.

A importância de ouvir quem viveu esta realidade

Esta é, para mim, uma história particularmente importante, porque não a conheço apenas através da narrativa retrospetiva desta mãe, fiz também parte deste percurso e acompanhei esta família em diferentes momentos. Aquilo que iremos reconstruir não resulta, por isso, exclusivamente da memória de acontecimentos passados. No decurso do percurso desta família decorreu uma intervenção profissional em contexto, que me permitiu acompanhar algumas das situações que serão aqui relatadas.

Esta é uma história real, que fomos vivendo e acompanhando em conjunto. E é também por isso que considero tão importante a disponibilidade desta mãe para falar.

Mais do que sermos nós, psicólogos, a relatar as dinâmicas que sucedem em processo de alienação parental, devemos escutar diretamente as pessoas que as viveram, porque nos permite aproximar-nos da forma como foram experienciadas ao longo do tempo. São as suas histórias, as suas palavras, as suas dúvidas, os acontecimentos concretos que recordam e as mudanças que foram observando na relação com os filhos que podem permitir a outros pais e mães reconhecerem situações semelhantes e interrogarem-se sobre aquilo que poderá estar a acontecer nas suas próprias famílias.

É também aqui que a prevenção assume particular importância. Nem sempre um pai ou uma mãe se apercebe, numa fase inicial, de que alguma coisa está a mudar progressivamente na relação com o filho. Um comportamento isolado pode parecer pouco significativo. Uma recusa pode ser interpretada como circunstancial. Uma transição difícil pode ser entendida como apenas mais um momento de conflito. É muitas vezes através da sucessão dos acontecimentos e da sua evolução ao longo do tempo que começamos a compreender a dimensão do que está a acontecer.

É precisamente por isso que, nesta história, o tempo será também um elemento fundamental da análise. Procuraremos perceber quando surgiram os primeiros sinais, como evoluíram, que acontecimentos marcaram mudanças na relação desta mãe com os seus filhos, como foram interpretados naquele momento e que significado assumem quando hoje conseguimos olhar para o percurso no seu conjunto.

Quando conhecer o conceito não significa estar preparado para o viver

A mãe começou por nos sublinhar precisamente uma das razões que a levaram a aceitar partilhar a sua história que foi a importância de alertar outros pais e mães não apenas para aquilo que identifica como alienação parental, mas também para a dificuldade de saber como agir quando se vê confrontada com ela referindo: “Eu também queria agradecer à Dra. Eva, toda a ajuda durante o processo, que realmente foi muito importante, porque, como disse, eu acho que é muito importante consciencializar, alertar as pessoas, não só de que a alienação parental existe, ela é real, mas também como agir, porque quando acontece nós não sabemos como agir, e esta intervenção foi muito importante nessa altura, também foi muito importante, na altura eu lia todos os seus artigos e lia todos os podcasts e comecei a pesquisar muito sobre o tema. Eu, apesar de ser advogada, não tinha experiência nesta área e ouvia falar da alienação parental, acho que é uma situação que as pessoas ouvem, mais na área jurídica claro, mas vivê-la foi completamente diferente”. Neste testemunho, uma frase merece particular atenção: “mas vivê-la foi completamente diferente”. Esta mãe é advogada. Conhecia o termo alienação parental, tinha-o ouvido referido no contexto jurídico, mas foi, quando começou a procurar compreender aquilo que estava a acontecer na sua própria família, que leu, pesquisou e procurou informação sobre o assunto. Ainda assim, o conhecimento do conceito não a preparou para a experiência de o viver, nem lhe indicou, por si só, como deveria agir perante aquilo que estava a acontecer com os seus filhos.

Esta distinção entre conhecer, reconhecer e saber como agir num processo de alienação parental é particularmente importante.

Pode conhecer-se um conceito e, ainda assim, não reconhecer os primeiros sinais da sua ocorrência quando eles surgem na proximidade. E mesmo quando se começa a perceber que alguma coisa está a mudar na relação com os filhos, pode não se saber como responder. O envolvimento emocional, o medo de perder a relação, a conflitualidade entre os pais, a necessidade de tomar decisões e a própria dificuldade em compreender o significado dos comportamentos da criança podem tornar muito diferente aquilo que, visto de fora, poderia parecer mais facilmente identificável.

É neste ponto que o testemunho desta mãe introduz também a importância que atribui à intervenção realizada naquele momento. A procura de informação ajudou-a a encontrar as palavras e as possíveis explicações para aquilo que estava a viver, mas a intervenção em contexto permitiu-lhe agir sobre situações concretas, no momento em que estavam a acontecer, procurando compreender as dinâmicas familiares e encontrar formas de resposta.

Esta mãe afirmou, a partir daquilo que viveu, que “a alienação parental existe, ela é real”. É a sua experiência, reconstruída através do seu testemunho e articulada, sempre que possível, com aquilo que foi observado durante a intervenção em contexto, que procuraremos compreender e partilhar nos próximos textos, como forma de prevenção, para que outros pais e mães possam reconhecer mais precocemente possíveis sinais de afastamento na relação com os seus filhos e procurar compreender e intervir antes que esse afastamento se consolide.