Por toda a parte, assistimos ao definhamento das esquerdas. Este facto desagua no seguinte: o quadro político europeu faz-se à direita, com tudo o que isso implica.

No passado dia 09.10.2026, o barómetro DN/Aximage pôs a nu uma realidade expectável: o CHEGA ultrapassou o PS na intenção de voto para as eleições legislativas, com 30,7% das intenções de voto, contra 28,9% dos socialistas. Não me admira. Não me incomoda. Porém, particularmente trágico, é o rumo tomado pela AD, que, segundo a mesma fonte, caiu para 21,7%, expandindo a tendência de descida.
O estudo da Aximage parece-me altamente falível; principalmente, atendendo a pesquisas semelhantes, feitas pela mesma instituição no passado. Falo da desastrosa sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF realizada em 2022, que conclui pelo empate técnico entre PSD e o PS a menos de uma semana das eleições; a vantagem, contudo, era de Rui Rio. Viria a ganhar António Costa com maioria absoluta.
Quero, com isto, insinuar o seguinte: estas pesquisas são imperfeitas: quem ganha, festeja; quem perde, descredibiliza. Mas uma coisa é certa: elas antecipam uma dinâmica que não é fictícia ou longínqua.

O CHEGA

O CHEGA foi fundado com a missão confessada de combater «o sistema». Para o partido, a Terceira República resultou numa classe política corrupta e num país insolvente. André Ventura, o líder, canaliza o descontentamento contra a justiça – que acusa de proteger os criminosos – e contra as gerações de imigrantes e minorias étnicas – que ataca por se aproveitarem dos recursos do Estado. Indubitavelmente, o partido objetiva a reedificação da Nação e das suas instituições.

O CHEGA é de extrema-direita-fascista?

Como afirma Joshua Zeitz:

«Social scientists have long debated what fascism means, and when you try to wedge all fascist movements into a single framework, a lot of contradictions emerge. You see some people arguing that it’s a sacralization of politics, where the nation almost becomes like a sacred entity, and fascism operates as a civic religion. Alternatively, for some historians, it’s been a counterrevolutionary reaction to the rise of Marxism and socialism.» (Cfr. ZEITZ, J. (2024). Trump and Fascism: A Pair of Historians Tackle the Big Question. Disponível em: https://www.politico.com/news/magazine/2024/10/29/trump-fascism-historians-00186027 [Consultado em 30/10/2026])

Concordo com a primeira visão, ainda que a considere demasiado ampla. De facto, a extrema-direita (inspirada no fascismo) alicerça-se nas “paixões mobilizadoras” – ao contrário do comunismo e liberalismo, apoiados nos textos teóricos. As emoções exploradas são inúmeras. Para tanto, são cruciais os líderes carismáticos, considerados o messias da Nação, que comunica com as massas. Até aqui, a caracterização parece condizer com o CHEGA. Porém, um movimento político não deve ser analisado, somente, sob o prisma das palavras, mas também relativamente ao seu sistema de ação.

Pela análise, o CHEGA integra-se no movimento internacional das Novas Direitas radicais e populistas, tanto pela oratória, como pelos meios. Não na extrema-direita. E há uma robusta fronteira entre estas visões, que a seguir desvendo.
A extrema-direita opõe-se frontalmente à democracia e às suas instituições, bem como à soberania popular. Para além disto, estes movimentos não aceitam as regras do jogo político, pelo que legitimam a violência como meio para atingir os seus fins – um dos quais a imposição de uma hierarquia social baseada no racismo e na exclusão social e/ou biológica, tendo como ponto de partida a “pureza”. Opostamente, a direita radical opera dentro do sistema, submetendo-se ao sufrágio. Em paralelo, contesta os valores do liberalismo, a saber: a proteção das minorias, a rigorosa independência judicial ou o campo dos direitos humanos aplicado a grupos marginalizados, entre outros. Só um ingénuo confundiria André Ventura com o Duce e Pedro Pinto com Roberto Farinacci.

Estratégias para o centro-direita e direita moderada

Concordo com Mény: os populismos não são antidemocráticos strictu senso. Assim, excluo o entendimento de quem refere que o populismo é, tão-só, um fenómeno maníaco de racismo, xenofobia e intolerância antidemocrática. Ao invés, apresentam-se como os garantes de uma democracia pura, exteriorizando (de forma eficaz) o seu ressentimento contra um sistema pervertido. À semelhança dos democratas, o povo é o epicentro das suas proclamações. Quando a postura das elites é acompanhada de injustiças clamorosas ou do fracasso das políticas levadas a cabo, não é de surpreender que se ouça a revolta dos sans-culottes. Ora, por esta via, a estratégia do centro-direita não deve passar por criar um bloqueio.

O CHEGA tem-se tornado um sujeito de peso no parlamento, sendo as suas posições cruciais para a aprovação de medidas legislativas. Um exemplo é o seu amparo pontual ao governo minoritário, apoiado pelo PSD e CDS (partidos de centro-direita). De facto, o CHEGA alertou para uma política de imigração mais restritiva, o que encontrou eco na agenda do governo. Desta forma, a direita parlamentar aprovou a nova Lei da Nacionalidade, com 152 votos a favor e 64 contra.

Parece-me ser este o caminho: a ausência de um acordo escrito beneficia ambos os partidos e garante flexibilidade tática; já o apoio pragmático leva à responsabilização e escrutínio constantes. Por um lado, o CHEGA será forçado a escolher entre facilitar o executivo ou aliar-se à esquerda. Por outro, a AD terá mecanismos de salvaguarda: no fracasso, justificar-se-á com a sua natureza minoritária, bloqueadora de melhores soluções; na vitória, reclama o mérito total.
De facto, a praxis de Rui Rio foi um erro: ao transferir o eixo programático para o centro, o PSD criou um vácuo no flanco mais conservador, tradicionalista e liberal, deixando órfã uma parte da direita.
Nos dias que correm, o CHEGA exerce o seu “voto de chantagem”, que permite ao partido, mesmo fora do executivo, afinar a aprovação de reformas estruturais. Cercado entre a direita radical e o centro-esquerda-radicalizado, o PSD deve operar num quadro de concessões mútuas com o CHEGA.
Assim, para evitar a derrota, o PSD é compelido a “direitizar” a sua plataforma, adotando temáticas e vetores do partido “fascista” (para a esquerda que me lê) com o intuito de secar a fuga de capital político na periferia do sistema.

Em suma, a política não pode ignorar o palpitar das ruas. O crescimento da direita radical não é uma anomalia a exorcizar, mas um sintoma de fraturas sociais que o centro-direita e direita têm o dever histórico de curar. Neste sentido, a Aliança Democrática não tem alternativa: ou lidera a mudança com coragem e realismo, ou arrisca-se a ser engolida pela onda que ajudou a criar.
A direita moderada criou o seu “Frankenstein”. Foge, agora, da responsabilidade de o gerir no Parlamento. A analogia com esta criatura não é despropositada: é que no romance original de Mary Shelley, o criador morre, consumido pelo pavor da
criatura que criou.
Dito isto, faço um disclaimer: volta Passos!