O Chega venceu em Setúbal, cresceu no Alentejo, venceu em quase todo o território a sul do Tejo, apenas não foi o mais votado no distrito de Évora, onde ficou em segundo. Teve resultados expressivos em zonas onde o PCP e, mais tarde, a CDU, mandaram durante décadas. E não, não é um erro de leitura política, é a confirmação de uma transição sociológica. O eleitorado tradicional da esquerda encontrou no Chega um novo veículo de protesto, ressentimento e pedido de ordem. Ventura não inventou este eleitorado, apenas soube ouvi-lo.
Há algo de profundamente irónico nisto, um partido que se proclama de “direita” a ocupar o espaço social, cultural e até programático que durante anos pertenceu à esquerda. O Chega tornou-se o novo partido das classes populares, da periferia empobrecida, do interior abandonado, dos trabalhadores desiludidos com promessas que nunca chegaram. E também dos que veem na imigração uma ameaça ao pouco que têm, como antes viam no “capitalista” ou no “patrão” a origem da sua insegurança. A antiga esquerda sempre teve dificuldades em lidar com o que é diferente, fechava-se em comunidades homogéneas, recusava o mercado e suspeitava do estrangeiro. Agora, é o Chega que dá voz a essa desconfiança, com menos integração internacional e mais barricadas culturais.
O que aconteceu em 2025 não foi apenas uma mudança de votos, foi uma migração de identidade política. O eleitorado da CDU sempre teve um traço comum, desconfiança do sistema, desejo de um Estado forte, visão comunitária da sociedade. Muitos desses eleitores, agora mais velhos ou socialmente inseguros, continuam a querer proteção. Só que agora já não confiam na esquerda para garanti-la.
O Chega, com o seu discurso anti-elite, a sua exaltação da autoridade e o seu moralismo agressivo, oferece-lhes uma alternativa. Mais dura, mais emotiva, menos racional, mas com promessas de ação, de castigo e de ordem. E, mais importante ainda, com uma linguagem que reconhece os seus medos. Sejam eles sobre segurança, sobre dignidade perdida ou sobre o “estrangeiro” que vem tirar lugar no centro de saúde. Ventura não precisa de propor soluções sofisticadas, basta-lhe amplificar ressentimentos antigos, agora com um novo alvo.
O problema é que o Chega não é de direita. Não no sentido liberal, nem no sentido conservador. É um partido estatista, intervencionista e paternalista. Quer mais polícia, mais Estado, mais controlo. Não defende mercados livres, nem responsabilidade fiscal, nem famílias livres do arbítrio estatal. Defende sim um Estado moralizador, musculado, que define quem merece o apoio público e quem deve ser excluído dos direitos plenos de cidadania.
É, no fundo, uma esquerda com bandeira ao contrário. Não propõe liberdade, propõe substituição de elites. Não quer menos governo, quer outro governo, mais duro, mais autoritário. E fá-lo com o mesmo ressentimento de quem votava CDU nos anos 80, contra Lisboa, contra os ricos, contra “eles”.
À direita sobra a responsabilidade de não se deixar enganar. Porque chamar “direita” ao Chega é como chamar “liberal” ao Estado Novo, é um erro histórico, e uma armadilha política. Ventura não está a construir uma alternativa de direita, está a substituir a esquerda num registo populista, onde o Estado é omnipresente e a liberdade individual desaparece em nome da identidade.
O Chega venceu nas terras da esquerda. E não foi por ser de direita, foi por saber falar como a esquerda já não sabe.
Esta realidade é crítica e exige reflexão profunda, porque só o confronto honesto com estes factos pode abrir caminho a uma alternativa genuína. A verdadeira alternativa é liberal e tem a responsabilidade de combater o populismo, oferecendo uma visão clara de liberdade, mercados livres e respeito pelo indivíduo. A Iniciativa Liberal está pronta para liderar esse caminho, propondo soluções que recuperem a esperança, defendam a autonomia pessoal e criem um ambiente de esperança.
O desafio está lançado: é tempo de agir, falar e conquistar o espaço que o país precisa para crescer em liberdade e prosperidade.