Viajar continua a ser uma das maiores fontes de prazer dos nossos dias. Mas também é, verdade seja dita, uma das suas maiores contradições. Queremos ver o mundo todo, mas não queremos que ele desapareça enquanto o fazemos. Procuramos praias intocadas, mas deixamos pegadas que as afastam do paraíso que procurávamos. E não são só pegadas na areia.
A boa notícia? Não é preciso deixar de viajar. Basta fazê-lo com mais cabeça.
Comecemos pelo princípio: o destino. Sim, ele ainda conta. Evitar locais saturados na época alta é um gesto de respeito (e de inteligência). A não ser que vá fora de época, quando os residentes ainda não estão a apedrejar visitantes — metaforicamente, claro. Sonha com Veneza em agosto? Repense. Há destinos que merecem ser visitados… noutra altura. Ou, pelo menos, com outra atitude.
E se estiver a pensar em cruzar meio mundo para chegar a uma praia de sonho, não se esqueça: as emissões de um voo longo acompanham-no muito além da viagem. Se for mesmo, vá por mais tempo. Quem sabe, até pede uma licença — e descobre o que é viver, e não só passar por lá. Ok, pronto, duas semanas…
Viajar menos vezes, mas por mais tempo, reduz o impacto ambiental sem abdicar do prazer de descobrir o mundo. E, convenhamos, há destinos que merecem mais do que um fim de semana e meia dúzia de selfies.
A escolha da agência de viagens pode ser meio caminho para uma viagem mais sustentável. Mas atenção: há por aí as que surfam a onda verde só porque está na moda. Sustentabilidade a sério exige compromisso, trabalho e auditorias independentes. Certificações reconhecidas internacionalmente, como a Travelife, Biosphere, TourCert ou equivalentes, são um bom ponto de partida.
Depois… o voo. Há diferenças. Menos escalas, aviões modernos (A320neo, A350, B787), classe económica (sim, é menos confortável, mas mais eficiente) — tudo conta. Use fontes independentes para avaliar emissões. A Atmosfair, por exemplo, revela-nos que um simples voo de cidade alemã para Maiorca pode derreter dois metros quadrados de gelo no Ártico… Talvez queira fazer a escapadinha de fim de semana mais perto. Ou de comboio…
No destino, o desafio continua. Respeite os costumes, evite comportamentos intrusivos, opte por alojamentos com práticas sustentáveis reais, também certificados, reduza o plástico (leve garrafa reutilizável!) — tudo isso faz diferença.
Também nos transportes locais: caminhar, pedalar, apanhar um comboio regional são formas de ver mais, poluir menos e cruzar-se com quem lá vive. O planeta agradece. E a condição física também…
Nos restaurantes e lojas, gastar local é investir na comunidade. Muitos hotéis pouco deixam onde se instalam — já o pequeno restaurante, a loja da artesã, o guia local, esses ficam. E os cruzeiros? Continue a pensar…
Escolher excursões com responsabilidade é essencial. Interações com animais devem ser pensadas: nadar com golfinhos, mesmo em liberdade, pode causar-lhes stress. Montar um elefante preso por uma corrente? Quer mesmo? Há que assegurar que os animais são respeitados. Tirar selfies com crianças locais? Talvez não. Há linhas que não se veem no mapa, mas a consciência traça.
E depois há o regresso. E com ele, a possibilidade — e responsabilidade — de compensar as emissões. Não resolve tudo, mas ajuda. Há projetos que fazem realmente a diferença, como cozinhas eficientes ou biogás em países africanos e asiáticos. Um euro investido aí pode valer dez — não só pelo câmbio, mas também pelo impacto real que pode gerar. E como a atmosfera não tem fronteiras, o que reduzimos no Gana ou no Nepal melhora também o ar que respiramos aqui. O que importa é escolher com critério — e sem ilusões de que plantar umas árvores resolve tudo. Especialmente antes da época dos incêndios…
Por fim, partilhe o que aprendeu. Não com arrogância, mas com entusiasmo. Porque viajar de forma consciente pode ser, afinal, ainda mais gratificante.
Viajar continua a ser uma forma maravilhosa de ver o mundo. Mas só se o mundo continuar cá para ser visto. Leve a sustentabilidade na bagagem — e, se possível, regresse com ela ainda mais cheia.
Boa viagem!