Se outras razões não existissem – e há muitas – bastaria apreciar como reagiram os britânicos à morte de Isabel II, para nos sentirmos motivados a refletir sobre o significado de uma monarquia.

Foi-nos dado observar as dezenas de milhares de cidadãos a formar a mais longa fila da História, para prestar as últimas homenagens à sua Rainha. Quilómetros e quilómetros calcorreados, com imperturbável civismo, por gente anónima que suportou estoicamente, em alguns casos praticamente 24 horas, na rua, ao frio, tudo para conseguirem uns meros segundos – o suficiente para uma vénia – frente à real urna em câmara ardente.

Antes disso, ao longo das estradas da Escócia, de Balmoral a Edimburgo, era visível a mesma devoção, nuns casos vivida no mais pungente dos silêncios, noutros com o aplauso reservado a quem cumpriu o que se propôs fazer no seu 21º aniversário, ainda princesa: «Toda a minha vida, curta ou longa, será dedicada ao vosso serviço».

O funeral, hoje, fez parar todo o Reino, movimentou de novo dezenas de milhares de súbditos, bateu novos recordes de audiência local e até globalmente, estimando-se que mais de metade da população do planeta sintonize para as notícias das exéquias.

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Acima de tudo, assistimos a um fortíssimo sentimento de união que cruza não só a sociedade britânica e as de todos os países sobre os quais Isabel II reinou, bem como as nações da Commonwealth.

«Regardless of all the diversity, we all came as one» (Independentemente de toda a diversidade, todos nós viemos como um só), comentava alguém na fila para Westminster Hall.

Este é um dos mais poderosos sentimentos que uma monarquia produz – Unidade. O monarca é um ser humano que é ao mesmo tempo símbolo de uma Nação, de uma Cultura, de um Povo de uma História. Está acima e livre de quaisquer políticas partidárias, sendo imparcial e, como tal, dotando a sua função representativa de um caráter verdadeiramente universal.

Isabel II viveu desta forma exemplar os seus 70 anos de reinado, sendo Chefe de Estado, nunca de Governo. Empossou nada menos que 15 primeiros-ministros, eleitos por diferentes partidos, que governaram o Reino Unido desde que acendeu ao trono, em 1952.

O mesmo povo que, democraticamente, foi entregando o poder executivo a uns e a outros, confiou sempre na sua monarca, que nos melhores e nos piores momentos nunca o abandonou. Por isso mesmo chora este Povo a perda da sua Rainha, enquanto aclama o filho, feito Rei Carlos III, como sucessor, a quem reconheceu desde logo toda a legitimidade para prosseguir com a Chefia de Estado.

A Estabilidade de todo o sistema, a par da Unidade e da Representatividade já abordadas, é outra das fortíssimas características da Monarquia, agora tão evidenciadas neste triste momento.

Penso valer a pena a reflexão sobre uma Coroa.

Para os que se torcem na cadeira por se entregar a chefia de Estado sem eleições, lembraria, por um lado, as funções reservadas aos monarcas nas atuais monarquias constitucionais. Não são responsáveis pelas políticas, podem é exercer, em nome de um bem maior, a sua influência. Um monarca tem sempre uma perspetiva de longo prazo, pois não quererá prejudicar a sua própria razão de ser, nem incorre no risco das tentações eleitoralistas do curto prazo. Ao limite, o Rei ou Rainha será como um zelador, o fiel depositário do maior bem comum – a Pátria.

Para os que pensam que são regimes caros, lembraria que, aqui ao lado, a Casa Real Espanhola custa menos do que a Presidência da República Portuguesa, em comparação direta, não indexada.

A quem fala em conceito ultrapassado, lembraria que na Europa, ao Reino Unido e a Espanha, juntam-se Andorra, Bélgica, Dinamarca, Liechtenstein, Luxemburgo, Mónaco, Países Baixos, Noruega e Suécia como monarquias parlamentares e reconhecidamente democráticas.

A quem se contorce com questões de legitimidade, lembraria que, em monarquia, os governos continuam a ser eleitos pelos seus cidadãos e que até os Reis estão sujeitos, no final do dia, ao escrutínio dos seus súbditos.

Finalmente, e só pela minha relação profissional com o Turismo, lembraria o impacto que é reconhecido à monarquia britânica na promoção e geração de receitas de turismo que, de acordo com o organismo oficial VisitBritain, atinge os 580 milhões de Euros, valendo assim mais do que custam ao país.

Isabel II provou-se uma Rainha de incontestáveis qualidades, das quais a dedicação e compromisso ao serviço público, a vida exemplar, a discrição ou o respeito pela diversidade e a capacidade de adaptação, são apenas exemplos.

Carlos III, apesar de enfrentar um desafio tão extraordinário quanto extraordinária foi a Rainha sua mãe, está preparado, há muito que dá mostras de adaptado às causas da nossa época, e estou certo não envergonhará, antes surpreenderá.

Em Portugal, valeria a pena uma reflexão séria sobre o sistema de Governo, sobre o papel e o desempenho do Presidente da República, não em comparação com os demais presidentes, mas com a existência de um Monarca, enfim, sobre a Coroa. Sem preconceitos.