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Competências transversais e o futuro da Educação /premium

Autor
  • Celso Costa
965

Precisamos de criar condições para que a abordagem dos conteúdos programáticos seja feita de forma relevante, útil, prática e cativante, trazendo um novo posicionamento do professor.

O objetivo da Educação é preparar os alunos para serem bem-sucedidos na vida. Cresci, estudei e formei-me a ouvir esta frase. Mas o que significa uma vida bem-sucedida? Estaremos, efetivamente, a preparar alunos para a vida? Como se desenvolve esse trabalho? E, mais concretamente, em que medida estará a Educação a preparar os alunos para os desafios e necessidades do século XXI?

A melhor forma de, porventura, definir “uma vida bem-sucedida” será entender o seu significado como algo idiossincrático, respeitando a multiplicidade de formas diferentes de pensar sobre a mesma. Há, contudo, um entendimento geral de que uma vida bem-sucedida subentende a realização de um indivíduo em várias dimensões, nomeadamente na sua vida pessoal e na sua vida académica e/ou profissional. No entanto, ser-se bem-sucedido no século XXI está a tornar-se cada vez mais desafiante. O contexto global de grande competitividade e a transformação decorrente do ritmo acelerado dos progressos tecnológicos são apenas dois fatores, entre outros, que contribuem de forma importante para um mercado de trabalho cada vez mais incerto, volátil e complexo. Estas circunstâncias trazem novos desafios para a Educação, na medida em que os alunos deverão estar adequadamente preparados para lidar eficazmente com esta realidade.

É para mim preocupante observar que uma parte significativa das abordagens utilizadas na Educação se centra quase exclusivamente na transmissão de conteúdos com o objetivo final da preparação para provas de avaliação. As notas, obtidas em testes ou exames, continuam a ser a principal (e praticamente única) medida de performance de um aluno. Este sistema pode acompanhá-lo desde o 1º ciclo até ao final do seu percurso universitário. É uma realidade absolutamente incoerente, uma vez que, após a entrada no mercado de trabalho, são sobretudo as competências e a capacidade de aplicação prática do conhecimento adquirido que serão decisivos ao longo do seu percurso de vida. Não deveríamos então privilegiar o desenvolvimento de competências? E se a partir do desenvolvimento dessas competências criássemos oportunidades para que os alunos se envolvessem na construção de projetos práticos com valor e impacto real?

Estamos, na minha perspetiva, muito longe do que é possível fazer para preparar os alunos para a vida. Os alunos não se reduzem somente à sua dimensão académica, existindo de forma holística enquanto Pessoas. Devemos, por isso, centrarmo-nos no desenvolvimento de competências transversais, que possam ter real impacto quer na sua vida académica e futuramente profissional, mas também na sua vida pessoal. Estas são também dimensões que se encontram interligadas, e por isso falo em competências transversais, afastando-me da denominação comercial de “soft skills”, que nada têm de “soft” mas que em tudo são essenciais.

Preparar alunos para a vida significa capacitá-los com as competências fundamentais que promovam a sua capacidade de adaptação, autonomização e resiliência. São inúmeros os desafios que a vida irá impor a cada indivíduo. Alguns serão previsíveis, tal como a realização de exames, a transição para a Universidade, a primeira entrevista de emprego. Outros, no entanto, poderão ser imprevisíveis e emergir como acontecimentos de vida significativos e potencialmente disruptivos, afetando a esfera de vida pessoal, familiar, académica e/ou profissional. Não podemos controlar muitas das circunstâncias de vida, mas podemos equipar os alunos com as ferramentas necessárias para uma adaptação bem-sucedida.

Neste sentido, como psicólogo, transformei as minhas questões e inquietações num processo de investigação e desenvolvimento, procurando construir uma metodologia científica, inovadora e diferenciadora de intervenção, que culminasse num programa de desenvolvimento que equipasse jovens com competências transversais, conhecimentos especializados e estratégias eficazes, que estivessem na base de uma vida bem-sucedida. Surgiu então o Coaching Students to Success Program (CSS): um programa de coaching psicológico, que acontece em contexto extracurricular, em sessões semanais com pequenos grupos, ao longo do ano académico. Baseando-se no conhecimento científico de diferentes áreas da Psicologia, Psicoterapia e Neurociências, o CSS Program centra-se na potenciação de 6 dimensões: inteligência emocional, auto-estima e auto-confiança, empoderamento e autonomização, resiliência, bem-estar subjetivo e desempenho académico. Ao longo do programa, que se encontra na sua 4ª edição, e do qual já participaram mais de 100 alunos, a aprendizagem e treino de competências organiza-se em módulos como: Inteligência Emocional; Gestão de Tempo e Produtividade; Motivação e Estabelecimento de Objetivos; Comunicação e Linguagem Corporal; Persuasão, Negociação e Gestão de Conflitos; Liderança; Criatividade, Inovação e Empreendedorismo; Gestão de Stress e Desempenho Académico.

Recorrendo às abordagens de maior transformação de comportamento, o CSS é essencialmente um programa especializado de desenvolvimento de competências transversais. Nos últimos anos, tenho tido a oportunidade, mas também o privilégio, de aprofundar a relação com os alunos e de poder criar momentos estruturados de partilha, reflexão e construção de estratégias para lidar com situações desafiantes. Esta é a minha missão pessoal, e forma de contribuir para a evolução da Educação: potenciar o crescimento dos alunos no sentido de se tornarem pessoas maduras, autónomas, confiantes, resilientes, e com um conhecimento profundo de si próprios que seja estruturador do seu carácter.

Os professores têm aqui um papel fundamental, no desenvolvimento da base destas competências, uma vez que através do contacto diário com os alunos têm oportunidades importantes para fundir os conteúdos programáticos com o seu desenvolvimento integral. Acredito que o futuro da Educação deverá estar centrado na potenciação de competências transversais, capacitando os alunos para os diferentes desafios da vida. Precisamos de criar condições para que a abordagem dos conteúdos programáticos seja feita de forma relevante, útil, prática e cativante, trazendo um novo posicionamento do professor. Não como um mero transmissor de informação, mas como um facilitador da aprendizagem e figura de referência, com conhecimento relevante para a vida dos alunos, com respostas mas sobretudo questões e reflexões, e como um potenciador de competências que mais do que promover memorização, procura ensiná-los a pensar.

Professor na UCP – Faculdade de Educação e Psicologia, fundador do Coaching Students to Success Program (CSS), professor de Psicologia no Oporto International School e finalista do Global Teacher Prize Portugal 2018
‘Caderno de Apontamentos’ é uma coluna que discute temas relacionados com a Educação, através de um autor convidado.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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